A segunda tragédia negra

Ex-ministro de Promoção e Igualdade Social fala do abismo social entre brancos e negros e questiona se a sociedade aprenderá com seus erros no pós-pandemia

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O mais desatento observador das transformações sociais no mundo deve concordar que após a pandemia do novo coronavírus, teremos grandes mudanças no comportamento da humanidade, o que ainda não sabemos é se aprenderemos com nossos erros e buscaremos construir uma sociedade mais solidária e menos desigual em todas as suas vertentes.

Aqui no Brasil, por ora, o que ainda podemos observar é uma brutal distância entre ricos e pobres, entre brancos e negros que tem uma relação intrínseca com a forma do contágio da Covid-19; o tratamento dispensando aos infectados pela doença e qual proporcionalmente será o grupo social a principal vítima no número de mortes, nunca antes visto, segundo as projeções da OMS- Organização Mundial da Saúde.

O caso emblemático da morte de uma empregada doméstica nos ajudará a entender melhor o quadro que poderemos ter, caso as orientações de médicos, pesquisadores e cientistas continuem a ser negligenciadas por parte das autoridades e gestores públicos.

Moradora no município de Miguel Pereira, na região chamada de Grande Rio a trabalhadora doméstica foi considerada a primeira vítima fatal em decorrência do Coronavírus no Estado do Rio de Janeiro. Esse fato poderia, por si só, ser estampado como manchete nos principais jornais, no entanto, foi a forma de como a trabalhadora contraiu a doença que amplificou a notícia.  Com 63 anos de idade e 20 trabalhando como doméstica no Leblon, bairro que possui o metro quadrado mais caro do país, ela foi contaminada por sua patroa que retornara de uma viagem a Europa, onde passou o carnaval e não se “lembrou” de informar a sua empregada que tinha sido infectada com o vírus.

A vítima que morava em uma rua sem calçamento, cheia de casas com tijolo aparente e pouca assistência do poder público, era uma mulher negra, portadora de diabetes e hipertensão (doenças prevalentes na população negra), e não teve o tratamento adequado no hospital por não saber que tinha sido infectada por sua patroa. Informação preciosa que poderia ter salvado a vida dessa empregada.

O episódio acima desnuda a situação que se encontra o abismo social que separa a população negra da população branca em nosso país. Não se trata de dar uma coloração racial no debate sobre os impactos do novo coronavírus na sociedade brasileira, uma vez que os dados ainda são insuficientes para essa afirmação. Trata-se, sobretudo, de fazer a interpretação correta para que os esforços a serem efetuados pelo poder público e pela iniciativa privada venham a proteger a camada social que estará mais vulnerabilizada pelo poder de devastação dessa pandemia.

É preciso ter um olhar diferenciado na prevenção, no acolhimento e no tratamento para o contingente populacional que possui os mais baixos salários, o que interfere diretamente na qualidade de sua alimentação e na capacidade de criação de anticorpos às infecções e que por essas e outras questões figuram nas estatísticas como os que possuem os piores indicadores de saúde no país.

Nos grandes centros urbanos a vida em favelas, com suas características geográficas de densa aglomeração, associadas à falta de saneamento básico e falta de regularidade no abastecimento de água dificultam o cumprimento das orientações sobre higiene e distanciamento social, criando assim mais um fator de risco para a contaminação das pessoas que ali residem, sendo a maioria absoluta de pessoas pobres e negras.

Os números mais recentes levantados pelo Ministério da Saúde (em que pese a algumas dúvidas sobre o preenchimento de informações e a metodologia utilizada pelas secretarias estaduais) apontam para um rápido crescimento nas internações e mortes de pessoas negras. No levantamento, pretos e pardos representavam 37,4% das hospitalizações e 45,2% das mortes ao passo que duas semanas antes esse percentual era de 23,10% e 32,8%, respectivamente, ou seja, um aumento de 12,4 pontos entre os negros e negras e uma diminuição de 12 pontos entre a população branca.

Considerando que temos um governo central estimulador do descumprimento de todas as orientações e regras sobre isolamento e distanciamento social e que não demonstra a mínima capacidade de criar políticas e ações de salvaguardas eficazes para a manutenção da vida, do emprego e das rendas das famílias, o quadro que poderá se apresentar é o da maior tragédia humana para negras e negros, pós-abolição da escravatura, seja pela maior desagregação dos núcleos familiares, seja pelo número de mortes superior ao que se apura anualmente por uma política higienista de segurança pública que tem a população negra como alvo preferencial.

Do pensamento conservador, racista, homofóbico e machista que sempre constituiu a base estruturante da sociedade brasileira e que contagia até parcelas da esquerda, surge o entendimento que os negros estão por sua própria conta. Mas não pode ser assim. Se a solidariedade, a fraternidade e a preservação da vida não estiverem na equação que permitirá sairmos mais fortes da pandemia acabaremos sendo todos cúmplices de uma tragédia racial e humanitária no Brasil, que depois da escravidão poderá ser denominada a segunda tragédia negra.

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