A solidariedade seletiva e o ciclone Ida

Se tivessem morrido 760 pessoas e houvessem milhares de desaparecidos em algum país europeu, teríamos pequenas notas? Claro que não, teríamos grandes capas de jornais e milhares de jornalistas deslocados até ao sudeste africano

A solidariedade seletiva e o ciclone Ida
A solidariedade seletiva e o ciclone Ida (Foto: AFP 2019 / Mission Aviation Fellowship/Rick Emenaket)

Estive a ler os "principais jornais" do mundo das últimas semanas, a fim de verificar a quantidade e qualidade das reportagens e notícias acerca do ciclone tropical Ida, que ocorreu em Moçambique, Zimbábue e Malawi. Todavia, grande parte do que encontrei eram notícias curtas, e raríssimas tinham mais do que uma página. Pergunto-me: se tivessem morrido 760 pessoas e houvessem milhares de desaparecidos em algum país europeu, teríamos pequenas notas? Claro que não, teríamos grandes capas de jornais e milhares de jornalistas deslocados até ao sudeste africano.

O ponto que se coloca: todos os jornais são racistas ou consideram que os africanos são menos humanos do que os europeus ou norte-americanos? Acredito que não, mas essa indiferença ou menosprezo com os povos africanos faz parte de uma dinâmica estrutural que foi sendo desenvolvida. Por outras palavras, temos um racismo estrutural no nosso modo de sociabilidade, no qual ser branco é universal e ser negro a exceção. Isso apresenta-se como uma configuração de mundo "normal".

Entretanto, toda a categoria social é sempre uma construção do próprio ser humano. O que estou tentando dizer, caros leitores? Que o pouco interesse em divulgar a tragédia moçambicana é o resultado dessa racialização, no sentido de que, se não for branco e rico, não será notícia. Vemos isso muito no Brasil. Todos os dias morrem pobres e negros nas periferias, mas só será notícia em capa de jornal se for um branco da zona Sul do Rio de Janeiro. Esse modo operante da imprensa é apenas o reflexo das suas estruturas econômicas e políticas, que procuram selecionar os fatos com que devemos nos indignar ou solidarizar.

Os meios de comunicação alimentam os afetos de solidariedade conforme os interesses dessa estrutura social. Ou seja, ter mais de 500 mil pessoas afectas e quase 1000 mortas não parece ser nenhuma tragédia humanitária. Ah! Se tivesse petróleo! O que mais me indigna é o facto de que a nossa solidariedade é conduzida pelo o que os grandes conglomerados económicos de imprensa decidem ser importante.

Necessitamos, urgentemente, combater esse tipo racialização. Os negros são tão quão humanos como nós brancos. Sofremos as mesmas dores, pois esse sofrimento é independe da cor da pele ou localização geográfica. Precisamos sair dessa barbárie da indiferença!

Muita força e coragem às famílias afectadas por essa catástrofe.

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