A sorte de Lula não ter sido um acadêmico

"O fato de Lula não ser um acadêmico é uma das maiores bênçãos que a humanidade já pode testemunhar. Se Lula fosse acadêmico, o Brasil jamais teria experimentado o espetáculo de soberania e de civilização que experimentou (pois ele seria um gatinho domesticado)", diz o jornalista Gustavo Conde, que integra a rede de Jornalistas pela Democracia

A sorte de Lula não ter sido um acadêmico
A sorte de Lula não ter sido um acadêmico (Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula)

Nós temos uma vocação imensa para sermos explorados. É muito difícil se libertar disso. É atávico.

Por exemplo: o segmento mais democrático diz que as mulheres deveriam ter o salários iguais aos dos homens. Parece muito justo, não?

Não. Elas deveriam ganhar muito mais. Porque é preciso fazer uma reparação histórica depois de séculos de exploração, violência e exclusão.

Exigir o que nos é devido enquanto sociedade não é trivial. Na maioria das vezes, nós achamos que estamos gritando por nossos direitos, mas estamos apenas reproduzindo o direito 'deles', das elites escravocratas, violentas e burras.

Nós fazemos o serviço para 'eles', até porque, 'eles' não têm capacidade intelectual para se perpetuarem na posição de pisotear trabalhadoras e trabalhadores. São fracos cognitivamente, apenas detém os meios de produção material de riqueza.

Quando aparece alguém para avisar sobre esse protocolo de reprodução dos meios de exclusão e violência, mascarados pelo discurso da institucionalidade, esse alguém é imediatamente eliminado (ou preso, ou proscrito, ou silenciado).

É muito perigoso avisar sobre a verdade que nos constitui enquanto sujeitos históricos.

Nós estamos querendo muito pouco. O mundo tem riqueza demais para produzir essa miséria que se perpetua e que aumenta.

Aliás, é essa miséria que cria as condições para que a manutenção do poder se dê em termos "explicáveis" e "aceitáveis".

Para isso, existe as ciências humanas que, em grande medida, justificam a divisão social a que nós estamos submetidos.

Meu ponto: é preciso dar um passo além no bojo da produção de conhecimento. É preciso fazer o que se fez com o marxismo (da teoria para a prática), mas fazendo uso de um protocolo mais 'avançado' de transfiguração epistemológica e política.

Traduzindo: é preciso não repetir os erros do 'marxismo aplicado', que reproduziu formas de perpetuação de poder tanto quanto o capitalismo selvagem.

Lula realizou esse protocolo, dentro da sua imensa inteligência associada à simplicidade. O fato de Lula não ser um acadêmico é uma das maiores bênçãos que a humanidade já pode testemunhar.

Se Lula fosse acadêmico, o Brasil jamais teria experimentado o espetáculo de soberania e de civilização que experimentou (pois ele seria um gatinho domesticado). 

O segredo - de Lula e dessa nova necessidade de se produzir a revolução em vias democráticas - está na linguagem. A distribuição de riqueza que precisa ser agora re-estabelecida é a distribuição de 'sentido', a distribuição de ideias e de arrojo político.

Esse processo não está apenas no investimento em educação, mas na justa parcela crítica em se resistir aos protocolos de reprodução viciada de poder que subjazem no interior da própria academia - e, consequentemente, da própria educação. 

É esse arrojo - que exige profunda soberania intelectual - que poderá permitir a produção de uma usina virtuosa de novas políticas e de esperança renovada para a sociedade.

É por esse 'movimento' que a sociedade grita. Por um novo modo de conceber e produzir as políticas públicas (o sentido social, o sentido das palavras, da vida), que extrapole as receitas pré-fabricadas e bem comportadas das cartilhas econômicas. 

Alguém se habilita?

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