A “Suíça" de Paulo Guedes entra em colapso

As ideias do nosso atual ministro da Economia, ditadas pelo Consenso de Washington e da Escola de Chicago, já foram aplicadas em um lugar e os resultados são esses... e, definitivamente, não são iguais aos da Suíça

Chile, manifestações
Chile, manifestações (Foto: Esteban Felix, Sputnik)

Se há um estrangeiro que caso reconhecido em meio a toda confusão no Chile, não seria bem recebido, esse alguém é Paulo Guedes. O ministro da Economia brasileira exagerou ao comparar, em entrevista ao Financial Times divulgada no dia 11 de fevereiro de 2019, o Chile à Suíça. “O Chile é, agora, como a Suíça”, afirmou. Ele se referia às reformas ultraliberais feitas essencialmente durante o governo ditatorial de Augusto Pinochet naquele país, a quem Guedes serviu.

Assim como no Brasil, em 2013, o motivo da ida de boa parte da população às ruas não foi apenas por causa de aumento em centavos do preço de transportes coletivos. Chilenos e chilenas vêm o fracasso da política de privatizações, como na Educação e na Saúde, o aumento do preço dos aluguéis e a falência do modelo previdenciário de capitalização, o mesmo que Guedes queria impor ao Brasil.

Hoje no Chile, a média da aposentadoria paga é de 1\2 (metade) do salário mínimo, enquanto muitos ganham 40% ou até mesmo 1\3. Todo o sistema é privado. A aposentadoria dos trabalhadores e trabalhadoras é administrada pelas Administradoras dos Fundos de Pensão (AFP’s), empresas privadas que utilizam a enorme quantidade de recursos, descontada todos os meses dos salários. O dinheiro das aposentadorias é utilizado para financiar os negócios dos próprios empresários, que também são donos de muitas outras empresas, bancos, seguradoras e etc. Trata-se de grandes oligopólios privados que utilizam o dinheiro do trabalhador para financiar, com baixíssimas taxas de juros, seus outros negócios; uma mina de ouro para uma minoria de privilegiados.

A lógica das AFPs é nefasta. Essa enorme soma de recursos é investida no mercado. Se há ganhos, eles ficam para os acionistas das AFPs. Se há perdas, o dinheiro é retirado da aposentadoria dos trabalhadores. E o pior, a maioria dos trabalhadores se aposenta com menos de 30% do que recebia antes. Isso explica em grande parte o enorme aumento do número de suicídios de idosos na última década. Nos últimos anos, milhões de chilenos saíram às ruas de forma pacífica contra as AFPs, defendendo a volta de um sistema público de aposentadorias (como o nosso INSS). Agora, pior, o governo Piñera mandou ao Congresso uma reforma que entrega ainda mais dinheiro às empresas, que comandam exploração dos aposentados, submetidos à privatização total da economia.

No Chile, a maioria dos serviços públicos foi privatizada. As universidades públicas são todas pagas, as mensalidades custam mais do que as universidades privadas e, com os baixos salários, as famílias, simplesmente, não têm dinheiro para pagá-las. Acumulou-se então enorme endividamento dos estudantes e familiares, que levam entre 10 a 15 anos pagando juros capitalizados. A saúde pública também é paga. No Chile não existe SUS! E isso não deixou de fazer com que milhares de pessoas morram todos os anos nas filas de espera. O custo dos planos de saúde não cobrem todos os gastos de atendimento hospitalar, internações, cirurgias, entre outros, e, mesmo assim, compromete grande parte da renda familiar. Caso alguém fique doente e venha a se curar, seguramente sairá do hospital com uma enorme dívida a ser paga, submetendo-se, é claro, à capitalização dos juros bancários. Os direitos trabalhistas, da mesma forma, foram destruídos. A jornada de trabalho é de 45 horas, as férias são de 15 dias e os trabalhadores têm, apenas, meia hora de almoço. Até mesmo a água foi privatizada. Segundo reportagem do UOL, parte da população de Valparaíso está tendo que optar entre lavar roupa e cozinhar. Tudo isso somada a uma carga tributária de 20%.

É esse o contexto onde um aumento de 30 pesos chilenos nas passagens do metrô (quatro centavos de dólar) virou o estopim para uma verdadeira convulsão social. A massificação do justo movimento tornou-se “justificativa” para que o governo militarizasse o país, iniciando uma brutal repressão que já vitimou mais de uma dezena de pessoas. 

No Brasil, a situação vai pelo mesmo caminho, pelas mãos de Paulo Guedes, que, durante ditadura Pinochet, estava no Chile, como integrante da equipe de Chicago. Por sorte e devido ao trabalho da oposição, a diabólica capitalização do Chile não chegou ao nosso país, não por falta de vontade do governo, é claro. Porém, as reformas trabalhista e previdenciária têm a mesma natureza do ultraliberalismo chileno. A redução de direitos sociais em nome da austeridade fiscal, atacando a Constituição de 1988, visa atender as exigências do mercado financeiro especulativo. Guedes, assim como os economistas do governo Piñera, está empenhado na destruição dos programas sociais e do poder de compra do salário mínimo. 

Apesar da derrota da capitalização na Câmara dos Deputados, avança a “chilenização” da economia, cujo objetivo maior é a privatização das maiores empresas nacionais como Petrobrás, Eletrobrás e Correios, além de outros serviços como a cobiçada educação brasileira e até o saneamento básico, o que tramita na Câmara no PL 3261/2019.

Somente em um ambiente ditatorial, como o de Pinochet, o ultraliberalismo cruel não tem uma oposição popular e forte. Por isso, é hora de se ter muita atenção e cautela, pois a democracia no Chile e no Brasil podem ser, ainda mais, abaladas, em nome desse projeto que, como sabemos, não respeita a soberania dos países da América Latina.

As ideias do nosso atual ministro da Economia, ditadas pelo Consenso de Washington e da Escola de Chicago, já foram aplicadas em um lugar e os resultados são esses... e, definitivamente, não são iguais aos da Suíça!

Seja no Chile, ou no Brasil, Paulo Guedes serve a poucos senhores, e nenhum deles pertence ao povo desses dois países. 

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