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A terceira via precisa se apoderar da fala, do corpo e da alma de Bolsonaro

Por Moisés Mendes

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Por Moisés Mendes, do Jornalistas pela Democracia

Será um pouco maior do que o planejado o esforço dos candidatos que pretendiam se acomodar na janelinha de uma terceira via cada vez mais imaginária e menos real.

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A terceira via não mais conseguirá fingir que é de centro, porque até o centro verdadeiro sumiu. Desapareceu como espaço de acomodação de conflitos e de mediação, sumiu como retórica e, o que é pior, como mercado eleitoral.

Sobrou o centrão, mas o centrão não é o centro, nem o que sobrou dele, o centrão é outro negócio. O centro sumiu ou está sumindo em toda a América Latina. O centro desaparece ou definha em todo mundo. 

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Sergio Moro, João Doria ou Eduardo Leite e Ciro Gomes e outros pretendentes terão que se esforçar muito além da tática de tentar tirar Bolsonaro do jogo e ocupar o seu lugar. Para Ciro, não bastará bater em Lula.

O discurso anticorrupção de Moro é fala vencida. O ex-juiz, se quiser se apresentar como fortão, terá que defender (como já defendeu) armamentismos, excludente de ilicitude, anticomunismo, escolas cívicas.

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Para João Doria, não basta tentar convencer o eleitor de que, sem a sua CoronaVac, ninguém saberia dizer quando a vacinação seria iniciada e em que que condições, se com ou sem coronéis e atravessadores.

A terceira via terá que bater em Lula, em Cuba, na Nicarágua, na Bolívia, na China. É provável que tenha de defender a polícia que mata e os grileiros disfarçados de fazendeiros do agronegócio pop e predador, porque no fim tudo é a mesma coisa.

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Não há mais, em lugar algum, espaço para conversinhas construtivas de centristas em dúvida sobre o que serão na vida quando crescerem. Se a sabedoria estava mesmo no centro, adeus sabedoria.

Aconteceu no Chile, onde o centro se esfarelou, começou a acontecer na Argentina, acontece há muito tempo no Peru e está consagrado no Brasil. O Uruguai de Luis Alberto Lacalle Pou talvez seja uma exceção.

A extrema direita puxou Mauricio Macri para seus braços na Argentina, devorou o território de Sebastián Piñera no Chile, cooptou o ex-presidente Carlos Mesa na Bolívia.

Uma marcha boliviana iniciada nesta terça-feira no vilarejo de Caracollo, em direção a La Paz, pretende ir juntando gente pelo caminho. O presidente Luis Arce e o ex-presidente Evo Morales abriram a marcha, que chegará ao destino na segunda-feira.

É uma caminhada do Movimento ao Socialismo, que voltou ao poder depois do golpe, e dos movimentos sociais contra a ameaça de golpe. Que golpe? O próximo.

Até Mesa, um sujeito de centro-direita, toca hoje a corneta dos golpistas de Luis Macho Camacho, governador de Santa Cruz de la Sierra. Camacho, líder do levante militar de 2019 contra Morales, puxou a direita boliviana para o fascismo.

No Brasil, o centro engolido por Bolsonaro é hoje uma foto num álbum do século 20 e uma miragem com alcance apenas na faixa intermediária da representação parlamentar. Não há mais chance para centristas em eleições majoritárias com cachorros grandes. Nem para senador.

Agora, são as esquerdas contra a extrema direita. Eduardo Leite, o tucano que tenta atropelar João Doria e surpreende líderes do PSDB com seu ímpeto bolsonarista, entendeu que esse é o único jeito de sobreviver. Escrúpulos não ganham eleição, nem as internas.

A direita acomoda-se na extremidade, para criar base e a partir dali alargar seus abraços. É preciso marcar posição, fidelizar a base do eleitorado que elegeu Bolsonaro e só depois andar em direção ao que sobrou do centro dos ricos e da classe média ressentida.

Um candidato de uma pretensa centro-direita hoje não terá amplitude se tentar sustentar sua conversa como centrista. Ninguém à direita quer saber de proposições vagas e agregadoras.

A chance de um Rodrigo Pacheco, com seu estilo parem-com-isso, é hoje quase zero. Foi por causa dessa morneza, por falta de assertividade, que Huck e Mandetta não prosperaram nas pesquisas.

O eleitor antitudo quer alguém que lhe assegure o direito de obter licença de colecionador para ter muitas armas em casa, que defenda não só o seu direito de aceso a um emprego, mas antes sua vocação para o empreendedorismo, que combata cotas e ProUni e exalte a meritocracia.

O eleitor quer um discurso radical, se possível religioso, contra liberalidades pedagógicas nas escolas, contra a linguagem neutra e contra o prolongamento de isolamentos e restrições de controle da pandemia.

O bom candidato de terceira via deve sair gritando que a pandemia acabou, a vida já voltou ao normal, que irá governar com os militares (para que Bolsonaro não fique de dono dessa fala) e que nossa bandeira nunca será vermelha.

O bom candidato da terceira via deve buscar a orientação de marqueteiros, para que seja inventada uma nova mamadeira de piroca. Deveria pensar até em algo que possa ser premeditado e tenha o efeito mágico da facada de 2018.

A terceira via será o espaço daquele que conseguir passar confiança como alguém que pode vencer Lula, para então tirar Bolsonaro da jogada, apossar-se do seu espólio e das suas vestes e incorporar um personagem semelhante, mas com outros disfarces.

A terceira via só existirá, como farsa, como imagem e semelhança de Bolsonaro. Todos os que estão hoje nessa via imaginária poderão, com pequenos ajustes, por vocação e por temperamento, cumprir esse papel.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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