A ultradireita veio salvar o mundo em que eles que são as ameaças

"Para poder impor a prioridade da “lei e da ordem” Trump tem que pintar um Estados Unidos e um mundo que estaria à beira da perdição. Disfarçadas de defensoras dos interesses das mulheres, na verdade os movimentos feministas atacariam os valores das mulheres, das famílias e das crianças". escreve Emir Saderc

Trump diz que minimizou coronavírus pois não queria criar pânico, segundo livro de Bob Woodward
Trump diz que minimizou coronavírus pois não queria criar pânico, segundo livro de Bob Woodward (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)
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Para poder impor a prioridade da “lei e da ordem” Trump tem que pintar um Estados Unidos e um mundo que estaria à beira da perdição.  Disfarçadas de defensoras dos interesses das mulheres, na verdade os movimentos feministas atacariam os valores das mulheres, das famílias e das crianças. Os movimentos negros colocariam a perder as necessidades dos negros. Os movimentos de juventudes pregariam valores que degradam a crença e a esperança das novas gerações.

Tudo se perverte e se degrada em um mundo que seria controlado pela esquerda, pelos movimentos sociais, pelos intelectuais acadêmicos. Pintar esse quadro é indispensável para que o líder carismático que a ultra direita apresenta possa ser indispensável, possa representar segurança para os mais indefesos, para a “maioria silenciosa”,  violentada por conquistas que afetariam os valores que lhes dariam confiança, suas famílias, sua segurança e seu futuro.

Ainda que estejam no governo nos Estados Unidos e no Brasil e, portanto, responsáveis pelo que acontece nesses países nestes últimos anos, necessitam pregar que a violência e a desordem estão tomando conta desses países e somente a liberação do acesso dos cidadãos às armas e do direito da policia de praticar violência sem contenção, poderia salvar os países da desordem e da violência generalizada, praticada pelos movimentos sociais.

Para isso eles tem que se propor a representar à maioria, que teria assistido calada e impotente  a movimentos a favor do aborto, da liberação dos costumes, da contenção da ação das polícias, do acesso dos cidadãos às armas, para que possam defender-se da violência praticada pelos bandidos que teriam livre acesso aos armamentos. Que teriam assistido à degradação dos costumes penetrar nas escolas e, em particular, nas universidades, que se teriam transformado em antros de bacanais e consumo de drogas. Com professores que pregavam contra os valores das famílias que mandam seus filhos às universidades, esperando que fortaleçam os valores da família e da ordem, mas que receberam mensagens na direção oposta.

É como se a maioria silenciosa tivesse que assistir a minorias de mulheres, de negros, de jovens, de educadores, que teriam imposto a violação dos valores tradicionais, como se representassem o interesse da maioria, que não se havia mobilizado para se defender.  

Os líderes de ultra direita assumem a defesa dessa suposta maioria, para o que precisam violar supostos princípios intocáveis, mas que feriram as maiorias caladas e as instituições que garantem a ordem na sociedade: a família, a escola conservadora, a policia. Tem que fazer passar que representam a maioria. Esses líderes demonstram a coragem de dizer barbaridades do ponto de vista dos direitos humanos, fazer a apologia da tortura, atacar as mulheres e os negros, fazer afirmações que até pouco tempo eram inaceitáveis, atacar valores e pessoas que representam  a democracia, os direitos humanos, o antirracismo, para desmontar um mundo que teria se tornado perverso para a maioria calada e conservadora.

É como se os valores de uma  maioria racista e violenta tivessem sido violados por movimentos que se apresentavam como maioritários, mas não o eram.  Esses líderes dizem descaradamente o que os pais de família diziam reservadamente, sem ousar dizê-lo publicamente, sobre a necessidade das mulheres terem-se a suas funções domésticas, a que os negros são inferiores, a que os homossexuais tem que ser reprimidos, a que teria os jovens têm que ser educados e enquadrados conforme os valores tradicionais dos seus pais. O que a policia é garantia da ordem e deve atuar sem limites para impô-la. O de que a liberdade de expressão deve servir para que se digam supostas verdades que os direitos humanos querem limitar. A maioria seria de homens machistas, racistas e violentas, que tem que ser representados por esses líderes. 

Os ultradireitistas exploram a sensação de que o mundo está’  cada vez pior, atribuindo essa deterioração aos movimentos de direitos humanos, aos intelectuais acadêmicos, à mídia crítica, à liberalização dos costumes. Sem os líderes ultradireitistas, o mundo degeneraria inevitavelmente nas mãos das mulheres liberadas e sem limites, dos jovens drogados e sem obediência a seus pais, a família se desagregar, assim como a ordem pública, com policiais impedidas de agir.

Tudo isso, quando na verdade são Trump e Bolsonaro as verdadeiras ameaças ao mundo, com suas políticas de enfraquecimento da educação pública, dos movimentos ecológicos, dos movimentos que reivindicam os direitos das mulheres, dos negros, dos jovens, dos homossexuais. Sua política de Estado mínimo promove retrocessos de direitos elementares que tinham ganho espaço, para proteger aos mais humildes e desamparados, às chamadas minorias, que no seu conjunto compõem a maioria da sociedade.

Projetam um discurso reiterado do “pega ladrão”,  desviando para forças democráticas a responsabilidade de degradação dos sistemas políticos, da promoção da violência e do armamento generalizado da população. Seu discurso autoritário e violento incentiva e multiplica o autoritarismo e a violência contra  as mulheres, os negros, os jovens, os homossexuais, os defensores dos direitos humanos.

Esses líderes têm que ser desmascarados pela denúncia reiterada das suas pregações de degradação da convivência pacífica e da justiça social, mobilizando antes de tudo as principais vítimas dos seus discursos e das suas políticas – as mulheres, os jovens, os negros, os homossexuais, os estudantes, os educadores.

Mostrar que é falso que nossas sociedades são majoritariamente conservadores  e violentas, que não é verdade que os movimentos feministas pregam a dissolução da vida familiar, que os jovens vivem uma vida degradada, que as escolas, ao invés de promover valores democráticos e de liberdade, seriam agentes de dissolução e de imoralidade, que os negros são maioria nas nossas sociedades e são vítimas e não promotores da violência.

Que sociedades democráticas não apenas são possíveis, como representam à maioria, que os valores da solidariedade e dos direitos de todos podem e devem presidir nossas sociedades, que a grande maioria não aceita nem tolera as barbaridades que esses líderes pregam e praticam.  Que fora deles, com líderes como eles, é que predomina a violência, a discriminação, o racismo, o machismo, os piores valores, de um passado que eles pregam como se tivesse sido melhor, quando foi superado pela luta de todos por um mundo melhor, solidário, menos desigual, mais humano. 

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