A velha ditadura de volta?

Aquelas condições do golpe, que se apresentava como uma revolução no primeiro de abril de 64, por mais atrasadas sejam as características dos grupos de bolsonaristas, não se repetem. Hoje, a aliança se volta contra o fascista no poder, que marcha para o STF como ameaça de um ditador que impõe a sua ordem

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O amigo Carlos Roberto me dirigiu esta pergunta sobre os penúltimos atos de Bolsonaro: “Como pode haver tanta imbecilidade em uma pessoa só? Eu já vivenciei tantos desgovernos, porém igual a esse nunca! Parece uma coisa orquestrada para que o exército tome conta de novo. Será que estamos rebobinando a fita da história, amigo?”

Na hora, vi que a resposta era impossível em 1 minuto. Mas pude ver que a pergunta era importante demais para um possível artigo, que esboço em traços rápidos a seguir. E vamos adiante como uma percepção do abismo. 

Sabemos todos que o desejo de volta da ditadura está presente em muitas cabeças do Planalto, a começar do criminoso de plantão na presidência. Por atos e falas, por suas agressões à humanidade feitas com ar de deboche e cinismo, sentimos a interrogação do amigo em nossas mentes nestas horas de angústia. Então, se nesse rumo vai a presidência, e se assim caminham seus ministros cujo outro nome é indignidade, e se assim o espectro do fascismo ronda nossos corações, como não acreditar que a velha ditadura vem de volta?  

Nestes dias de falecimentos de artistas de nosso lado, nestas horas em que amigos de valor ficam deprimidos, eu não quero ser um otimista do gênero de Pangloss, aquele que falava diante das maiores desgraças: “todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis”. Neste, hoje, da extrema-direita no poder, em meio a uma pandemia, não. Mas bem podemos ver que não é possível voltar à ditadura de antes. A sociedade e a história não se repetem, apesar do bufão no Planalto, como a encarnar aquela frase de Marx: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. 

Aquelas condições do golpe, que se apresentava como uma revolução no primeiro de abril de 64, por mais atrasadas sejam as características dos grupos de bolsonaristas, não se repetem. Naquele tempo, houve uma aliança entre conservadores de toda sorte e azar, da imprensa à igreja e classe média. Hoje, a aliança se volta contra o fascista no poder, que marcha para o STF como ameaça de um ditador que impõe a sua ordem.  

Mas se ao primeiro de abril de 64 não se volta, ainda assim crescem uns restos de fantasmas. A saber, os assassinatos de presos políticos continuam em mortes no campo, nas execuções e nos que caem sob as balas “perdidas” da polícia. Se não temos mais um coronel Villocq, cão babando de raiva sobre o homem Gregório Bezerra, hoje vemos um inquilino no Planalto que recebe o major assassino de guerrilheiros desarmados no Araguaia. E se não temos intelectuais a tramarem um golpe, temos uma Regina Duarte cujo caráter porcino nunca nos enganou. Então notem que o militar, temente à civilização, encontra pessoas de sua altura intelectual de caricata ou ética, nos postos de ministros e secretários. E com esses quadros ele não conseguirá dobrar tudo que acumulamos de artistas, escritores, cientistas e homens públicos ao longo dos tempos, nos intervalos fora dos golpes de Estado. O animal tentará, é certo. Mas ao golpe de 64 ele não volta. Ou melhor, pode até voltar, numa camisa de força no papel-mor de Napoleão de hospício. 

Não sei se respondi a meu amigo. Mas alguma coisa me diz que a resposta ficou a meio caminho, incompleta. Se ao golpe de 64 não voltamos, isso quer dizer que não poderemos ter uma outra ditadura, mais estúpida e ridícula,  que a de antes? Uma ditadura com nome de “Nova Democracia”, por exemplo. Não vamos dar ideias à extrema-direita, amigo. Console-nos o pensamento de que Bolsonaro não sobreviverá a qualquer outro regime político que poderá vir. Certeza, ou terei caído na pele de um novo Pangloss. 

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