A verdade, nada mais do que a verdade sobre a morte de Marielle Franco

"A prisão de cinco milicianos mostra que os indícios sobre a execução de Marielle Franco devem passar por uma investigação isenta e responsável", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do Brasil 247. "Depois que o ex-ministro Raul Jungman declarou que 'políticos poderosos' estavam atrapalhando a investigação, o pior que pode acontecer é colocar um crime dessa envergadura no esquecimento deliberado, o mesmo que escondeu por  44 anos um documento da CIA que mostrava a cumplicidade de Geisel e Figueiredo com o assassinato de adversários políticos durante a ditadura". 

A verdade, nada mais do que a verdade sobre a morte de Marielle Franco
A verdade, nada mais do que a verdade sobre a morte de Marielle Franco

 

Num país onde a violência criminosa de agentes do Estado é conhecida pela impunidade, cabe reconhecer a importância de se apurar a fundo os indícios que podem levar aos responsáveis pela execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

O país possui um antecedente recente a esse respeito. Graças aos arquivos da CIA, os brasileiros puderam conhecer as responsabilidades de Ernesto Geisel, o general-ditador que governou o país entre 1974 e 1979.

Normalmente associado à abertura política que antecedeu a democratização do país, um memorando assinado por William Colby, um dos principais operadores da agência na América do Sul, mais tarde seu diretor-geral, revelou que Geisel tinha um comportamento meticuloso no trabalho de perseguir e eliminar adversários. Fazia questão de aprovar, em companhia do chefe do SNI João Figueiredo, seu sucessor na presidência da República, os nomes dos militantes e oposicionistas que seriam executados pelo aparelho de repressão.

Divulgadas 44 anos depois, em maio de 2018, as gravíssimas revelações do documento produziram poucas consequências práticas.

Embora a Constituição de 1988 tenha definido a tortura e demais crimes hediondos como  "inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia", o relatório só veio a público 44 anos depois de ter sido escrito, quando a morte de Ernesto Geisel completava 22 anos e a de Figueiredo, 19.

Mesmo assim, o documento de Colby confirmou velhas convicções e fundadas suspeitas de adversários da ditadura e lideranças  ligadas aos direitos humanos. Mostrou que a prática da crime da tortura e do assassinato frio haviam penetrado nas profundezas do regime.

O calendário de 2018 mostra que a execução de Marielle ocorreu numa conjuntura marcada por tensões políticas permanentes, nos meses que antecederam uma sucessão presidencial que deu no que deu.  No início do fevereiro, a Paraíso do Tuiutí animou o carnaval carioca -- e do país inteiro -- com um maravilhoso samba de protesto e denúncia. Dias depois, Michel Temer assinou e o Congresso aprovou o início da intervenção militar no Estado.

A execução de Marielle ocorreu em março, chamando a atenção, desde o início, pelos traços de um assassinato planejado e cronometrado para eliminar uma vida de modo covarde, animalesco, um típico crime hediondo, na opinião do constitucionalista Pedro Serrano.

Em abril, ocorreu a decisão de 6 a 5 do Supremo contra o pedido de habeas corpus de Lula, que abriu as portas para que fosse preso dias depois e excluído da campanha presidencial. 

Em 18 de maio, o pesquisador Mateus Spektor, da Fundação Getúlio Vargas,  divulgou a descoberta nos arquivos da CIA. Recebeu aplausos gerais de um país carente de informações confiáveis sobre um período terrível. 

 Uma das raras reações de crítica à divulgação do documento partiu do futuro presidente da República Jair Bolsonaro. Em campanha em Belo Horizonte, ele deu uma entrevista à rádio Itatiaia, diminuindo a importância da descoberta: 

-- Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? O que pode ter acontecido com este agente da CIA? Quantas vezes você falou num canto ali que tem que 'matar mesmo,'tem que bater', 'tem que dar canelada.' Ele deve ter ouvido uma conversa como esta, fez um relatório e mandou.

 Quando a entrevista chegou à guerrilha do Araguaia, Bolsonaro também disse, repetindo uma argumentação que já se tornara uma marca política: "O momento era outro. Ou a gente botava para quebrar ou o Brasil estava perdido".

Dez meses depois da morte de Marielle e Anderson, as investigações apontam para aquele universo criminoso do Rio de Janeiro formado por milicianos e bandidos disfarçados de políticos que se dedicam a explorar a miséria da população favelada. 

A descoberta de que Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente, empregou em seu gabinete a mulher e a mãe de Adriano da Nóbrega, policial acusado de comandar milícias, que se encontra foragido, tendo sido julgado e condenado numa chacina ocorrida em 2003, abriu um caminho para a apuração. Flávio Bolsonaro chegou a convocar homenagens aos envolvidos com milícias. Em 2007, quando a Assembléia Legislativa debatia a instalação de uma CPI sobre o assunto, votou contra. 

Apontada pelo COAF, há até uma ligação material entre os personagens. Uma das contratadas fez um deposito de R$ 4600 na conta bancária de Fabrício Queiroz, o assessor acusado de movimentação financeira "atípica" em suas contas no valor de 1,2 milhão de reais entre 2016 e 2017. A própria polícia admite que um grupo de cinco milicianos que foram presos ontem podem ser considerados suspeitos pelo assassinato. 

Em novembro do ano passado, com a eleição presidencial definida, o ainda ministro da Segurança Pública, o ministro Raul Jungman fez uma afirmação inesquecível. Disse ao repórter Luiz Kawagutti, do UOL que estava convencido de que "políticos poderosos"  atrapalhavam as investigações sobre a execução.   

Passados três meses, cabe constatar que deveriam ser mesmo poderosos -- já que o ministro da Segurança Pública, despediu-se do governo  sem divulgar seus nomes nem formalizar qualquer acusação. 

Durante a campanha eleitoral do Rio, atos de crueldade simbólica contra a memória Marielle chamaram a atenção. O candidato a governador Wilson Witzel, que seria eleito por larga margem de votos, estava presente a um ato no qual candidatos a deputado pelo PSL destruiram uma placa em homenagem a vereadora. "Ali perdi meu pai", protestou Erick Witzel, filho do governador. 

Em nenhum momento Jair Bolsonaro fez qualquer manifestação de solidariedade a Marielle, gesto humanitário que é uma tradição entre políticos brasileiros, independente de origem, classe social, cor ou preferência partidária.

Não custa sublinhar que até o momento, não há nenhuma investigação capaz de apontar quem pode ser alcançado pelo emaranhado de fios fios que ligam a execução da vereadora e o mundo dos "poderosos" de que falou Jungman. É este o motivo para uma investigação isenta e responsável, capaz de esclarecer o caso, localizar provas e definir responsabilidades individuais, como determina o Estado Democrático de Direito. 

Mais do que nunca, o Brasil tem o direito de saber -- em todos os níveis -- quem são os responsáveis pela morte de Marielle Franco.  

Alguma dúvida? 

 

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