A volta dos galinhas verdes?

"Em pouco mais de 30 minutos, Ernesto Araújo desfia um rosário de frases sem sentido, elocubrações ocas e citações fora de contexto, numa fala delirante no conteúdo e gongórica na forma, nos moldes de um beletrista almofadinha dos século 19", analisa a jornalista e escritora

A volta dos galinhas verdes?
A volta dos galinhas verdes? (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

O querido e sábio Florestan Fernandes, um dia comentou que a erudição, em si, nada significa. Se ela não for utilizada para concatenar pensamentos e formular ideias, torna-se tão estéril quanto um livro nunca aberto.

Lembrei-me disso ao escutar o discurso de posse do ministro de Relações Exteriores. Em pouco mais de 30 minutos, Ernesto Araújo desfia um rosário de frases sem sentido, elocubrações ocas e citações fora de contexto, numa fala delirante no conteúdo e gongórica na forma, nos moldes de um beletrista almofadinha dos século 19.

Para começar, elogia o trabalho do ex-guerrilheiro e golpista de primeira hora, Aluisio Nunes Ferreira, que lhe passou o cargo, selando um pacto sem resquício de dignidade e jogando de vez a sua trajetória na lata de lixo. Em seguida, o orador saúda cada membro da família, da esposa aos pais e sogros, faltando apenas agradecer o próprio cachorro. Tem inicio, então, o verdadeiro show de abobrinhas que faria as delícias de Stanislaw Ponte Petra. Com o uso de recursos em latim - sim, o diplomata afirma dominar várias línguas antigas - ele interpreta os fatos históricos a seu modo bastante peculiar. Ficamos sabendo que os portugueses aportaram no Brasil não por ganância ou por um erro de Cabral, em busca da rota para as Índias, mas graças ao “amor”. Isso mesmo, o amor que nos salva, assim como a Verdade, com V maiúsculo, após termos enfrentado uma fase de “desesquecimento”, para nos encontrarmos com nós mesmos.

São abundante as menções a Lethe, um dos cinco rios do mundo inferior de Hades, que precisaríamos atravessar para descobrir a nossa identidade, supostamente confiscada, bem como a aletheia, em grego clássico correspondente a “verdade”. Verdade que libertaria um Brasil “que estava preso fora de si mesmo (sic)”. Repetidas à exaustão, as citações revelavam o menino precoce, sempre o primeiro da classe, que passou de ano com louvor.

Infelizmente, o cabedal que o chanceler exibia como sendo enciclopédico, não o impediu de cair em diversas contradições. O termo “liberdade”, por exemplo, desgastou-se ao longo do tempo (sic2), mas preservou uma força incrível, “que acende o coração das pessoas”. E seria ninguém menos do que o presidente Bolsonaro quem estaria libertando o Brasil, por meio da Verdade. E como chegar a ela? Através do Amor, conforme pregava Renato Russo, ali citado. Fórmula a qual acrescentou “coragem” e “fé”, numa referência enfatizada pela Ave Maria proferida em Tupi, de autoria de um jesuíta, não por acaso responsável pela doutrinação indígena e a destruição do seu patrimônio étnico e cultural.

Mas o espetáculo prossegue. O novo nascimento da Pátria se dará por meio da verdade que se alcança pelo amor. (sic3). Porque, conforme afirmara Dom Sebastião, o medo não tem cor. Nem azul, rosa e muito menos laranja, arriscaríamos a acrescentar. Neste ponto, alerta que o povo deveria ler menos o New York Times e mais José de Alencar e Gonçalves Dias, e ouvir menos a CNN e mais Raul Seixas (sic4). Pois, segundo ele, a instituição que coordena não existe para a ordem global, mas para o Brasil, não mais dividido por uma “ideologia perversa” (sic5).

“A partir de hoje o Itamaraty regressa ao seio da pátria amada”, diz ele, ao citar Dom Quixote, pagando tributo ao pseudo-filósofo, responsável por alimentar 10 entre dez cabeças do governo recém empossado. Reafirmando, então, parcerias e alianças com a mais tacanha extrema-direita internacional - Israel, cujo exemplo admira, bem como os EUA, Hungria, Polônia e a nova Itália, além dos países da América Latina que se “libertaram do Foro de São Paulo”, promete apoiar os que, na Venezuela, lutam contra a tirania.

Porém, no fundo de tudo, alerta o prodígio, dorme o dragão a quem pretende combater sem trégua: a Teofobia, o ódio contra Deus, uma “Teofobia horrenda e gritante não só no Brasil, mas em todo o mundo”, proveniente “não se sabe de onde, e canalizado por todos os códigos de pensamento e de não pensamento que perfazem a agenda global”. E, sem definir o que entende pelo termo, cujo significado confessa desconhecer, prega que o tal globalismo constitui-se no “ódio contrário à nação, à natureza e ao próprio nascimento humano”.

Dentre as pérolas sem pé nem cabeça, entremeadas de vocábulos em grego, para dar um verniz letrado ao douto palestrante, vale citar a alusão à rainha da Inglaterra, que ele comprara a Bolsonaro, na sua ânsia de amar e cuidar dos brasileiros. Comentário que seria cômico, se não fosse trágico. Diferentemente do presidente, a monarca sabe portar-se em público, fazendo jus à liturgia do cargo. Nunca se ouviu dos lábios da soberana, algo do tipo: “Ele está comendo o cu de curioso”, conforme Jair respondeu a um repórter que indagou sobre o paradeiro do motorista Queiroz.

Finalizando com um Anauê que, no cenário desta geleia geral pode ser tida como uma retomada da saudação dos galinhas verdes, os integralistas tupiniquins, o ministro deixa um gosto amargo na boca de quem, como eu, teve estômago para ouvi-lo até o fim. Seu pronunciamento desatinado paira no ar como um imenso vazio, feito um dicionário do qual escapam palavras e conceitos aleatórios, sem que se consiga desenhar nenhum pensamento coerente e lógico.

Sob o risco de fazer par com a ministra da goiabeira, sua excelência deveria gastar um pouco do tempo que dedica ao estudo das línguas mortas e ler um pouco de Marx, para criticar com certa propriedade e, de quebra, dar uma dicas ao patrão de maneira a evitar tantos vexames grotescos. Aulas de português também seriam recomendáveis, a fim de aprender a formular parágrafos minimamente inteligíveis. Mas talvez um mergulho na última flor do Lácio, inculta e bela, não traga grandes resultados. Como dizia Sartre, quem pensa torto, escreve torto. Sem nexo, de nada adianta enfeitar as frases de penduricalhos parnasianos, pois permanece, entre nós, a nítida impressão de que Araujo falava grego.

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