Agatha e Greta, meninas diferentes num mundo estranho

"Capaz de influenciar o debate sobre o pacote anti-crime de Sérgio Moro, o impacto da execução de Agatha, 8 anos, mostra um país onde o grito de dor do povo só costuma ser ouvido diante do sangue de uma criança pobre", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

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Enquanto o mundo podia admirar a aparição de uma adolescente como  Greta Thumberg, capaz de atravessar o oceano para defender uma causa que tornou-se a prioridade de sua existência, os brasileiros e brasileiras  choravam a execução  de Agatha Felix, 8 anos, que queria ser bailarina e fazer uma faculdade, como sonhava o avô.

A distância entre as duas meninas se traduz em muitos aspectos, mas basta pensar num ponto essencial, o tratamento diferenciado que as duas sociedades reservam às suas crianças, para se compreender o mais importante. 

Na Suécia, o atendimento às necessidades na infância é tão eficiente que, mesmo sofrendo da Sindrome de Asperger, uma forma de autismo, Greta foi estimulada a buscar seu desenvolvimento pleno como ser humano -- como o mundo inteiro pode acompanhar em Nova York.  Entre os suecos, o esforço para impedir um tratamento violento às crianças também é antigo e radical -- a tal ponto que  castigo corporal é proibido em lei desde a década de 1950.

No Rio de Janeiro, Agatha foi morta por um tiro de fuzil, constituindo a quinta morte de crianças em ações da Policia Militar, só em 2019.  Não se pode imaginar uma única razão aceitável para um PM atirar na direção de uma kombi que atravessa uma favela, alvejando uma criança a caminho de casa. Diante da coreografia exibida nos dias seguintes  pelas autoridades, tudo indica que  nunca poderemos conhecer as circunstâncias exatas de uma tragédia que constitui uma banalidade na infância pobre do país. 

É certo, de qualquer modo,  que tanta violência traduz um imenso desprezo por aquelas vidas frágeis, que parecem andar pelo mundo sem um único direito -- nem mesmo de respirar, sorrir e alegrar a família num universo de muitas carências, como fazia Agatha.

Num mundo  habituado a celebrar indivíduos excepcionais, os destinos de Greta e Agatha serão ainda mais inspiradores se nos ajudarem a pensar nas duas sociedades -- brasileira e  sueca --  para entender situações  diversas. Talvez seja a melhor forma de homenagear aquela que terminou no lado triste  dessa história.

Embora padeça, hoje, de diversas gangrenas presentes nos centro do capitalismo mundial,  o bem-estar da Suécia de Greta  se alimenta dos benefícios e conquistas construídos ao longo dos 50 anos em que o povo, os sindicatos e os governos ergueram um eficiente regime de distribuição de renda e proteção social.

A tragédia de Agatha simboliza o cotidiano de um país no qual, o povo até foi capaz de abrir caminho para menores desigualdades e mais prosperidade, mas os retrocessos recentes apontam a fragilidade dos avanços alcançados.

A morte de Agatha teve um preço, porém.  Nos dias seguintes à tragédia, verificou-se que os cabelos encaracolados e aqueles dentinhos  infantis que surgiram nos jornais e na TV serviram de argumento num debate político essencial para o controle da violência policial nas grandes cidades brasileiras.

Num Congresso que debatia o pacote anti-crime de Sérgio Moro, a morte infame de uma criança ajudou a derrubar  uma proposta de "excludente de ilicitude"  que representava um perdão preventivo para matadores de pessoas indefesas do povo. 

Como falta uma decisão em plenário, a decisão não é definitiva mas uma virada ficou muito mais difícil agora.   

Como lição maior,  a  semana produziu  uma reflexão  sobre nosso país. A trágica morte de Agatha lembra que, no Brasil do século o grito de dor  do povo só é ouvido diante do sangue de uma menina pobre e preta. 

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