Agora, vai

Foi só 2015 acabar para todos os problemas desaparecerem num passe de mágica

Foi só 2015 acabar para todos os problemas desaparecerem num passe de mágica
Foi só 2015 acabar para todos os problemas desaparecerem num passe de mágica (Foto: Camilo Vannuchi)
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Pronto. Chegou ao fim o ano que, para muitos, nunca deveria ter começado. Não é o meu caso. É verdade que 2015 foi um ano difícil, talvez o mais difícil de todos, mas nem de longe pensaria em suprimi-lo. Mudei de casa, lancei um livro, defendi um mestrado e entrei no doutorado, virei colunista do Pautando Minas e do Brasil 247, ajudei a organizar um troço chamado Jornada pela Democracia, com três edições ao longo do ano, e pude curtir à beça meus pequenos: as primeiras palavras da Bruna, os primeiros mergulhos do Daniel. No conjunto da obra, no entanto, o saldo foi mais negativo do que positivo para a maioria, eu sei.

A boa notícia é que 2016 está aí. Tardou, mas não falhou. Com a chegada do Ano-Novo, todos os nossos problemas ficaram para trás. Porque os problemas não são você, nem eu, nem qualquer um de nós. O problema era o ano. Sempre é. Por isso há tantos fogos de artifício na hora da virada: uma forma de agradecer ao gênio que inventou o calendário e instituiu essa pedalada fenomenal que é o reveillon. Daqui pra frente, tudo parte do zero, como a tabela do Paulistão ou os pontos zerados na carteira de motorista.

A partir de hoje, a dívida pública vai cair, não haverá mais inchaço na máquina, a inflação retornará aos 5% ao mês e o dólar custará no máximo R$ 3. O Copom vai abater uns 3 pontos percentuais da taxa Selic, o desemprego ficará abaixo dos 5% e as agências internacionais de rating pedirão desculpas por terem, em algum momento, duvidado da capacidade brasileira de honrar compromissos. O pibinho tomará uma dose de Viagra de chacoalhar vulcão extinto e nunca mais será preciso pedalar nem fazer concessão a banqueiro.

A partir de hoje, água limpa e de boa qualidade voltará a jorrar das torneiras de São Paulo com pressão normal, 24 horas por dia, sete dias por semana. Não haverá racionamento institucional. Tampouco racionamento disfarçado. Os jornais não precisarão mais se submeter ao vexame de esconder o número de bairros nem o volume total de pessoas afetados pela seca, nem chamar seca de crise hídrica, nem comemorar com letras garrafais uma elevação ridícula no nível do volume morto no início do verão, quando sabemos que é no período de inverno, no meio do ano, que a estiagem torna a situação preocupante.

A partir de hoje, a lama tóxica do Rio Doce terá desaparecido do mapa, das bacias hidrográficas e do oceano. Empresas de metalurgia e mineração voltarão a receber elogios e isenções do poder público pelos esforços prestados. Toda a vegetação destruída nos longos incêndios na Chapada Diamantina e na Amazônia será automaticamente recomposta, bastando para isso a troca de ano.

A partir de hoje, o Congresso Nacional será palco exclusivamente de altos debates em torno de projetos de lei de absoluta relevância. Cada legislador pensará unicamente no bem comum, no progresso do país, na garantia das liberdades individuais e da democracia. Ninguém mais ouvirá discursos em favor do Dia do Orgulho Hétero ou da redução da maioridade penal. Ninguém mais demonstrará indignação com as cotas e outras políticas afirmativas, ou dirá que racista é quem discrimina o branco ao favorecer o candidato negro num processo de seleção, ou que vivemos numa ditadura gayzista, ou que não existe feminicídio uma vez que morrem mais homens do que mulheres no Brasil.

A partir de hoje, ficam abolidas as expressões "Bolsomito", "feminazi", "petralha", "bolivariano", "gente de bem" e "amigo do Lula". Também fica proibido chamar de fascista quem escrever impropérios em caixa alta nas redes sociais: fascismo é um pouquinho mais grave do que isso. Pede-se a gentileza de não usar mais do que três hashtags por post ou tuíte e, se for marcar conhecidos na publicação para que tomem conhecimento do assunto, que seja usado o campo dos comentários. Finalmente, fica confirmada a convocação extraordinária, com edital publicado no Diário Oficial da União, conclamando os brasileiros a encontrar um substituto para o termo "coxinha". Por motivo de: injustiça.

A partir de hoje, Aécio Neves reconhecerá o resultado da eleição de 2014. Dilma Rousseff fará discursos claros e inteligíveis. José Serra deixará de fiscalizar quem namora, fica, beija, fode ou trepa. Michel Temer volant. Eduardo Cunha será coisa do passado, como 2015.

A partir de hoje, deixaremos de ter policiais que batem em professores e em estudantes, que mantêm índices alarmantes de letalidade e violência policial, que cegam manifestantes e fotógrafos ao usar balas de borracha e apertar o gatilho mais do que deveriam, que praticam uma matança generalizada de jovens pretos e pobres nas periferias, acobertados pelo salvo-conduto dos autos de resistência, que plantam drogas e armas, adulteram cenas do crime e ainda contam com a benevolência de um sistema condescendente, alinhado com uma secretaria de segurança pública que camufla dados e adultera estatísticas a fim de escamotear uma política homicida e vergonhosa.

A partir de hoje, mulher nenhuma será obrigada a explicar que ninguém merece ser estuprada. Mulher nenhuma terá contestada sua autonomia sobre o próprio corpo. Mulher nenhuma será impedida de tomar a pílula do dia seguinte ou receber orientação médica adequada na impossibilidade de registrar boletim de ocorrência contra seu agressor. Mulher nenhuma terá primeiros assédios para revelar. Mulher nenhuma tomará os espaços ocupados por homens na imprensa, porque a elas caberá metade de todos os espaços. Mulher nenhuma terá de recorrer à legislação para ver garantida sua representatividade no Senado, na Câmara dos Deputados ou nas Câmaras Municipais, porque mulheres serão tratadas com equidade pelos partidos, pelos diretórios e comitês, e apoiadas, e votadas, e eleitas sem nenhuma desvantagem em relação aos homens. Mulheres serão sempre convidadas para debater em congressos, seminários e programas de TV. E nenhum homem terá chilique quando uma mulher lhe disser que o melhor a fazer é ficar calado, quietinho, porque todo protagonismo é delas.

A partir de hoje, está aberta a temporada de epifania: Lobão e Roger voltarão a pensar prioritariamente em música; Marcelo Madureira entenderá que sua vocação é de humorista; Ivan Lins recobrará os sentidos e desdirá o que tem dito; Sardenberg, Merval Pereira, William Waack, Raquel Sheherazade e Augusto Nunes agirão mais como jornalistas do que como cabos eleitorais da direita conservadora. Sobretudo, a expressão "li na Veja" será oficialmente reconhecida como um atestado de analfabetismo funcional. Ou uma deixa para gargalhadas.

A partir de hoje, e para todo o ano de 2016, fica valendo o ensinamento máximo atribuído a Buda: "Tente não ser cuzão".

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