Ah, Glória Maria...

Associar caráter e honestidade ao politicamente correto, é um dos equívocos mais assertivos que já vi alguém cometer

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Quando ouvimos frases do tipo: “O mundo está muito chato”, “Hoje em dia tudo é racismo” e “Essa coisa do politicamente é um porre”, logo associamos tais falas à pessoas que compactuam com ideologias supremacistas e segregacionistas. Bolsonaristas, por exemplo. Porém, me surpreendi – na verdade, nem tanto – ao ouvir a grande jornalista Glória Maria verbalizar tais pensamentos, os fazendo reverberar equivocadamente numa sociedade já suficientemente equivocada, quanto aos seus conceitos.

Quem sou eu na fila do biscoito, para ensinar alguma coisa para uma das maiores jornalistas do país. No entanto, acho importante e inadiável que façamos observações acerca de opiniões pessoais, que não representam os interesses da coletividade. Pelo contrário, servem apenas para minimizar a luta por direitos igualitários. Durante muito tempo, Glória Maria foi a “preta da casa” no telejornalismo brasileiro. Não no sentido pejorativo. Me refiro a representatividade. Isto, numa época em que o racismo era, digamos, “legal”.

Época em que “Os Trapalhões” era o grande sucesso do humor brasileiro, enchendo nossas mentes com piadas racistas, sexistas, homofóbicas e de preconceito regionalista. Como eu entendo que humor é atemporal, é fácil avaliarmos a qualidade desse trabalho como uma simples pergunta: Faria sucesso hoje? Se você conseguir permanecer por mais de cinco minutos em frente à TV, assistindo a um programa de humor onde um preto é chamado de “tiziu”, ‘tição”, “macaco”, “suco de asfalto” e “azulão”, é porque você é um verdadeiro trapalhão.

Por ser a única preta naquele pedaço normalmente ocupado por brancos, Glória Maria pode ter se deixado, ou, até mesmo sido forçada a se aculturar, para permanecer nele. Isto inclui aceitar piadas racistas e reproduzi-las contra os irmãos da mesma raça, entender adjetivação preconceituosa como apelidos “carinhosos”, submeter-se a tratamento desigual para não criar problema e tudo aquilo que os pretos costumam enfrentar, quando estão num ambiente que não é o “deles”. Estranhamente, as pontuações que acabei de fazer, e que deveriam lhe servir de combustível para abastecer a luta por igualdade racial, foram convenientemente absorvidas e hoje são usadas por ela para favorecer a estrutura racista cordial instituída no Brasil.

Ainda sobre ser o único preto do lugar, essa exclusividade pode dar uma conotação de superioridade sobre os demais da raça, se o “privilegiado” não possuir consciência étnica. Claro, que devemos levar em consideração os mal intencionados. E eles existem entre os nossos. O atual presidente da fundação Palmares é um exemplo. Mas, creio que não seja o caso de Glória Maria. Sua representatividade preta na TV sempre foi muito importante. Demais até, para que ela venha a público desfazer tudo o que conquistou para muitas outras mulheres pretas, que a tem como inspiração. Torna-te responsável por aquilo que cativas, Glória. Você deve ter lido o pequeno príncipe.

Ainda na Live com a jornalista Joyce Pascowitch, Glória externou a sua saturação com aquilo que considera chato demais, fazendo a seguinte colocação: “Existe uma cultura hoje que nada pode. Tem que ter uma diferenciação, não dá para generalizar tudo. O politicamente correto é um porre. Acredito que o politicamente correto é o caráter, a honestidade. Esse mundo que a gente está vem muito da amargura das pessoas, não aceito.” A frase expõe um dilema inconsciente que ele deve enfrentar, que ainda não permitiu que ela entende que o racismo e todo o tipo de preconceito, se manifestam justamente por causa da amargura histórica da nossa branquitude.

É um misto de ódio, crueldade e inadequação ao processo civilizatório, que fez pessoas se imporem sobre outras, usando a raça como critério de exclusão. Amargura esta que é transmitida de geração em geração, como conservadorismo, tradição e bons costumes, perpetuando injustiças morais, raciais e sociais em nossa sociedade. Isso é que não pode mais ser aceito e tolerado. Isso é que é um porre, Glória. Saco é um preto ter que se posicionar como um negacionista daquilo que sofre, para ganhar um biscoito e ser bem visto na rodinha dos seus escarnecedores. Talvez, isso seja o verdadeiro politicamente correto, para aqueles que preferem ignorar a realidade ao seu redor, lavando a alma dos racistas, e, se possível, a própria.

Associar caráter e honestidade ao politicamente correto, é um dos equívocos mais assertivos que já vi alguém cometer. Ser político sempre foi sinônimo de fazer média, de evitar conflitos, de não se expor, de saber circular em todos os ambientes sendo visto e avaliado da mesma forma. A questão é que não existe politicamente correto na causa antiracista. Essa expressão foi cunhada pelos negacionistas, afim de relativizar e tirar a legitimidade dos movimentos pretos e minimizar as questões abordadas nas pautas raciais. Quem defende uma causa não está preocupado em fazer média com quem ignora a sua luta. Essa é a melhor maneira de perceber a diferença de caráter e de honestidade entre as pessoas.

Não estou sugerindo o cancelamento de Glória Maria, e agora é a minha vez de achar alguma coisa um porre. Cancelar pessoas é uma bobagem. Também não me atreverei a dizer que ela não aceita a sua condição. Seria outra bobagem, uma vez que ela faz questão de se colocar em outro patamar. Distanciar-se de tudo que possa identifica-los com aqueles que sofrem opressão e marginalização, por vezes é um instinto de defesa. Não deixando de ser também uma alienação. Fato é que não podemos deixar de rebater declarações como esta, se quisermos realmente modificar a configuração racial do nosso sistema social. Irmãos negacionistas e relativistas que adotam o discurso do opressor, nos ensinam como não devemos nos portar na luta por igualdade e equidade. Não são tão confiáveis.

Em suma, entre brancos e pretos, pobres e ricos, famosos e anônimos, a verdade é que todos precisam ganhar um biscoito de vez em quando para sobreviverem. O sabor da guloseima fica a critério do gosto e da satisfação pessoal de cada um.

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