Além da guerra: Maduro e as outras armas do imperialismo

"Se o presidente venezuelano venceu a batalha de 23 de fevereiro, o povo venezuelano segue condenado a enfrentar uma guerra prolongada pela sobrevivência", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247. "Numa atitude coerente com a hipocrisia de quem se esconde atrás de denúncias de cunho humanitário para obter objetivos políticos e econômicos, o cerco econômico  será reforçado e, através dele, um sofrimento poucas vezes visto na história recente pode ser imposto ao país"  

Além da guerra: Maduro e as outras armas do imperialismo
Além da guerra: Maduro e as outras armas do imperialismo (Foto: CARLOS BARRIA)

Adversário assumido do delírio genocida que estimulava uma intervenção militar na Venezuela, o vice presidente Hamilton Mourão ajudou a lembrar um ponto essencial no futuro próximo da América do Sul.

Se Nicolás Maduro venceu a batalha de 23 de fevereiro, o povo venezuelano segue condenado a enfrentar uma guerra prolongada pela sobrevivência,  que pode levar a sacrifícios ainda mais dolorosos daqui para a frente.  

Se a obra do barão von Clausewitz ajudou a humanidade a compreender que a guerra é a política por outros meios, o discurso de Mourão  sobre a crise venezuelana inverteu o sinal, para mostrar que a política pode ser  outro meio de fazer a guerra.  

"À luz dos acontecimentos acumulados há mais de uma década, sabemos reconhecer que a Venezuela não conseguirá se livrar sozinha da opressão do regime chavista," disse o vice-presidente, na frase que resume o sentido de sua intervenção no encontro.

Com a postura de quem se coloca no direito de  intervir em outro país para mudar "o regime chavista", Mourão  reproduz o alinhamento histórico com Washington que marcou os militares brasileiros responsáveis pela ditadura de 1964-1985, quando o alinhamento automático deu origem ao conceito de sub-imperialismo.

Não alinhado a Washington numa intervenção militar, o vice-presidente conceituou a relação histórica Brasil-EUA nos últimos 70 anos, período que inclui a pressão militar pelo suicídio de Vargas em 1954 e o movimento que levou ao golpe de 64. Falou de " países irmãos". Retomando o vocabulário típico  do anticomunismo puro e duro, que serviu de pretexto para ataques profundos ao regime democrático em vários  países do continente. Referindo-se a União Soviética, a China e Cuba, lembrou que essa cooperação "afastou do hemisfério potências alheias à cultura e valores compartilhados".  

Derrota indiscutível como tentativa de encurralar um adversário político, a jornada de 23 de fevereiro escancarou a fraqueza sem retoques  da oposição venezuelana e sua dificuldade para caminhar pelas próprias pernas.  

Em nenhum momento os adversários de Maduro estiveram perto de atingir o plano traçado por Juan Guaidó, que consistia em abrir as fronteiras em ambiente de espetáculo cívico e levantar o país com manifestações de rua. Para tanto, imaginava-se a realização de grandes mobilizações nas cidades próximas da Colômbia e do Brasil, senha para uma mobilização geral. 

Apesar de cenas previsíveis de baderna, o cidadão comum manteve-se indiferente. Em Caracas e outras cidades, foi a mobilização chavista que surpreendeu pelo vigor. Chegou-se, assim, a uma conclusão fácil de apontar.

Se o 23 de fevereiro foi planejado como uma operação decisiva na guerra contra Maduro, a recíproca também é verdadeira. O cenário do conflito sofreu alterações depois de sábado. 

O fiasco reforçou a desconfiança de governos que já hesitavam em jogar homens e armas num conflito de resultado duvidoso, e explica o distanciamento do grupo de Lima a retórica guerreira trazida pelo vice-presidente dos EUA, Mike Pence. Com exceção da Colômbia, que construiu um histórico de dependência com poucos paralelos com os EUA, nenhum outro país do grupo de Lima  mostrou disposição de acompanhar a postura de Washington.   

Mobilizando apenas uma massa de descontentes -- profissionais e também amadores -- que promovem permanentes conflitos de rua no país, sempre com máscara no rosto, pedras e coquetéis molotov na mão, o 23 de fevereiro sublinhou o voluntarismo de Guaidó e seu círculo.

Desde  o primeiro dia, quando  se apresentou ao país como "presidente interino" ele enfrenta críticas dos setores mais tradicionais da oposição ao chavismo,  que condenam a ausência de um trabalho de primeira necessidade -- garantir a adesão de uma parcela significativa das Forças Armadas, sem a qual nenhuma mudança parece possível. Ontem, num discurso no qual se dirigiu aos oficiais venezuelanos em tom de ameaça e rendição ("se vocês mantiverem o apoio a Maduro perderão tudo e serão responsabilizados"), Mike Pence insistiu num argumento incapaz de surtir efeito num conflito no qual o orgulho nacional desempenha um papel tão importante.

Embora o risco próximo de uma intervenção militar tenha sido afastado, Maduro  enfrentará uma onda de novas dificuldades pela frente.

Numa atitude coerente com a hipocrisia para quem se esconde atrás de denúncias de cunho humanitário para obter objetivos políticos e vantagens econômicas -- como a maior reserva de petróleo do planeta -- o cerco econômico a Venezuela será reforçado e, através dele, um sofrimento poucas vezes visto na história contemporânea pode ser imposto ao país. Será difícil pensar numa saída a margem de uma grande solidariedade internacional. 

Este é o mundo do imperialismo por outros meios.

Alguma dúvida? 

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