Além de censurar petistas, Globo exclui cientistas da programação

Em nome da minha saúde física e mental não assistia a Globo há muitos anos, em que pese, por dever de ofício, tenha que tomar conhecimento do que ela noticia. Não alimento, porém, a mais pálida ilusão sobre a possibilidade de Globo se pautar um dia pelos preceitos mais comezinhos do jornalismo

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As duas faces da mesma moeda global da censura:

1- No começo da pandemia de coronavírus, praticamente não havia telejornal ou programa de jornalismo da Globo sem a presença, muitas vezes ao vivo, no estúdio, de conceituados médicos e cientistas, tais como Amilcar Tanuri (virologista da UFRJ), Roberto Medronho (infectologista e professor titular da UFRJ) e Margareth Dalcolmo (pesquisadora da Fiocruz). Mas, de uns dez dias para cá, esses e outros ilustres doutores desapareceram do noticiário dos canais do sistema Globo.

2- O PT é o maior partido do país em número de filiados e capilaridade nacional, possui a maior bancada na Câmara dos Deputados, seis senadores, cinco governadores, além de deputados estaduais, vereadores e prefeitos espalhados pelo país. O PT governou o Brasil por quase 13 anos e é referência mundial em termos de partido de esquerda. Contudo, suas principais lideranças, como os ex-presidentes Lula e Dilma, o candidato a presidente em 2018, Fernando Haddad, além de sua presidenta Gleisi Hoffmann, são abertamente censurados pela emissora dos Marinho. O bloqueio atinge também toda e qualquer iniciativa e ação parlamentar de seus deputados e senadores, por mais relevantes que sejam. A situação, de tão esdrúxula do ponto de vista do interesse jornalístico, foi objeto de matéria publicada pelo Portal UOL, neste domingo (26).

Voltando à questão do sumiço da visão científica dos noticiários da Globo, cabe destacar que ele coincide com o vazamento de uma carta de um diretor da empresa, no qual o executivo anuncia que, embora a corporação tenha lançado mão de todas as opções para não demitir funcionários (férias, licenças, etc), o corte de salários e a dispensa em larga escala serão inevitáveis, já que a crise econômica gerada pela pandemia causou forte queda no faturamento, aponta o texto.

A partir de então, os reiterados e embasados apelos dos cientistas para que as pessoas fiquem em casa, como única saída para achatar a curva de contágio, foram substituídos pela ampla cobertura das propostas de relaxamento do isolamento feitas por governadores e prefeitos.

Ou seja, a pregação global diuturna, amparada na ciência, em defesa da preservação da vida, durou até a página 2. Quando a pandemia começou a sangrar suas receitas, o pseudo compromisso com a saúde da população brasileira esfarelou-se. Dá para imaginar o cálculo frio e mórbido da direção da Globo: “se continuarmos dando espaço para médicos e pesquisadores, eles seguirão afirmando que o pico da doença ainda está distante e, por isso, afrouxar o confinamento equivale a aumentar o já elevado número de doentes e mortos. Vamos evitá-los na programação.”

No tocante à censura ao PT, não dá para deixar de observar as distorções da realidade que ela acarreta. Um marciano que aqui desembarcasse seria instado e crer, a partir da cobertura política da Globo, que a Rede Sustentabilidade e o PSB são os dois grandes expoentes da oposição brasileira, partidos com expressivo capital social, eleitoral e político, tal o número de vezes que o senador Randolfe Rodrigues e o deputado Alexandro Molon são entrevistados e têm suas declarações divulgadas

A novidade é que a GloboNews também embarcou nessa. Até há pouco o modus operandi era assim: o Jornal Nacional e o Fantástico, na TV aberta, excluíam o PT (menos, é claro, com o recorde de horas dedicadas ao noticiário negativo envolvendo o partido), enquanto a GloboNews abria uma ou outra exceção para a veiculação de informações sobre o PT. Agora, uma espécie de ordem unida para todo o grupo vem sendo cumprida à risca, evitando uma simples menção ao partido. 

Em nome da minha saúde física e mental não assistia a Globo há muitos anos, em que pese, por dever de ofício, tenha que tomar conhecimento do que ela noticia. Com as redes sociais, isso se tornou fácil. No entanto, o confinamento e a necessidade de informações a respeito da pandemia me levaram a sintonizá-la. Não alimento, porém, a mais pálida ilusão sobre a possibilidade de Globo se pautar um dia pelos preceitos mais comezinhos do jornalismo.

Penso ainda que a perseguição sofrida pelo PT por parte da líder do oligopólio midiático significa medalha no peito do partido. Afinal, não é pouca coisa ser o alvo principal da maior inimiga do Brasil e dos brasileiros.

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