Alimentação é algo complexo; muito complexo

Cozinhar a nossa própria comida a partir dos elementos naturais, não industrializados, é um ato sustentável, saudável para o meio ambiente e para o nosso corpo

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“Falar de alimentação é falar de cultura, meio ambiente, relações de poder, sustentabilidade, afeto, prazer, tradição, além do aspecto mais óbvio: o impacto daquilo que comemos na nossa saúde”.

O parágrafo acima é o início do texto de Apresentação feito pela socióloga Paula Johns para o livro “Uma verdade indigesta – Como a indústria alimentícia manipula ciência do que comemos”, de Marion Nestle (nada a ver com a multinacional Nestlé), professora emérita da Faculdade de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova York. Paula é diretora-presidente da ACT Promoção da Saúde, organização não governamental que atua na promoção e defesa de políticas de saúde pública.

Parece simples, mas não é

Viajando por tantos temas, a alimentação se mostra como algo muito complexo. Pode parecer simples, mas não é, pois não envolve apenas o ato de comer.

A comida é, por exemplo, uma coisa muito lucrativa. E se é lucrativa, envolve, obviamente, dinheiro. E se envolve dinheiro, envolve poder. E se envolve poder, envolve política. E vai por aí.

“Os mais lucrativos, de longe, são os alimentos e as bebidas ultraprocessados, que são ricos em calorias, mas têm baixo valor nutricional”, diz Mariion Nestle em seu livro. E mais “O fornecimento de alimentos nos Estados Unidos provê cerca de quatro mil calorias por dia per capita [...]. Isso é o dobro da necessidade média de uma pessoa”, diz.

Para se ter uma ‘pequena’ ideia no negócio, estima-se que, só com a marca Knorr, que incluem os famosos caldos em cubinhos e sopas desidratadas (tudo ultraprocessado), vendidos em quase 100 países, a Unilever fatura mais de três bilhões de dólares/ano. É muita grana!

Outro negócio muito lucrativo é o dos fertilizantes químicos e dos agrotóxicos. Só esse negócio envolve, no mínimo, quatro setores importantes da sociedade: a agricultura, o meio ambiente, a saúde pública e a política. A agricultura usa os agrotóxicos, que, por sua vez, afetam negativamente o meio ambiente e, direta ou indiretamente, a nossa saúde. 

No Brasil, para defender seus interesses, os grandes produtores de alimentos, de fertilizantes químicos, de agrotóxicos contam com a preciosa ajuda da poderosa Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que, atualmente, conta com a participação de 39 senadores (48% do total) e 241 deputados federais (47% do total). E, nesse caso, estamos falando de política e de economia. E de lobby, muito lobby. É a maior bancada do Congresso.

Alimentação envolve ciência, pesquisa, algumas sérias, como a que o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens/USP) está fazendo, o Estudo NutriNet, que vai acompanhar, durante 10 anos, a relação entre alimentação e doenças crônicas – como diabetes, hipertensão, obesidade, doenças cardiovasculares e câncer – no Brasil. E outras menos sérias, e até fajutas, como as apresentadas por Marion Nestle em seu livro (tema de um próximo artigo).

Comida é cultura

Comida também é cultura. Enquadra-se em muitas outras coisas, como história, turismo e até como alimentação. Mas é por intermédio de sua cultura que um povo, uma região, define sua relação com o alimento.

Cozinhar é um ato político

Cozinhar a nossa própria comida a partir dos elementos naturais, não industrializados, é um ato sustentável, saudável para o meio ambiente, saudável para o planeta, saudável para o nosso corpo, para a nossa mente, para a nossa autoestima. É um ato ecológico. Político, portanto.

Alimentação é tudo isso. E muito mais.

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