Almas lavadas na Praça dos Três Poderes

Ninguém convocou. Eles foram chegando por conta própria, sem bandeiras e sem camisetas, alguns de terno e gravata, saindo do trabalho. Não havia lá nenhum líder partidário, embora alguns portassem bandeiras do PT ou do PC do B. Muito poucos. Quase todos queriam era desabafar, soltar um grito de alívio.  Não havia lá sequer um megafone rústico. Com os acessos à Praça dos Três Poderes bloqueados nos dois sentidos,  quem foi de carro teve que deixá-lo no alto da Esplanada e descer a pé.  Com o Planalto cercado por um forte aparato policial, a multidão estava ali para lavar a alma, celebrando por antecipação o fim de um pesadelo.

E lá ficou, gritando “Fora Temer” ou “renúncia-já”  e batendo com pedrinhas portuguesas tiradas do calçamento na cerca de metal que os isolava. Não havia comando, não houve discursos. As palavras de ordem brotavam aqui e ali, desorganizadamente.  Perto da uma da manhã começou a cair uma chuva fina, embora já seja maio, início da seca em Brasília.  Alma lavada e roupa molhada, os grupos começaram a subir a Esplanada. Assim deve ter sido também na Paulista.  As pessoas se reuniram para lavar a alma, para dizer tudo o que pensam de Temer. "Temer, ladrão, vai sair de camburão" era uma das palavras de ordem mais frequentes. Pode não ser de camburão mas com certeza será pela porta dos fundos da História.

Houve ainda um buzinaço meio tímido no subir da Esplanada. De um carro, soava alto uma música que muita gente ali gostava de ouvir em outro tempo, o da ditadura militar. “Apesar de você”, na voz do próprio Chico, prometendo para amanhã um outro dia.

Estamos no outro dia. Ninguém sabe se Temer vai renunciar, se sofrerá impeachment, se será afastado pelo STF ou se ficará para o TSE a tarefa de afasta-lo. Mas é certo que Temer e seu governo ilegítimo acabaram.  Os que apoiaram o golpe e o governo golpista agora defendem a saída imediata de Temer e pedem diretas-já, como se não tivessem tido nada a ver com o pesadelo que durou um ano. Mas não é hora de acertar contas. É hora de virar a página e restabelecer a democracia.

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