Almoço de domingo no Alvorada: “papai, por que estão todos contra nós?”

"Em tempo, antes que me acusem de fake news. Este é um texto de ficção. O anão não existe. Qualquer semelhança com personagens reais deve ser mera coincidência. Ou não", adverte o jornalista Ricardo Kotscho sobre sua nova crônica

Eduardo, Jair, Flavio e Eduardo Bolsonaro
Eduardo, Jair, Flavio e Eduardo Bolsonaro (Foto: Família Clã Bolsonaro)

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o  Jornalistas pela Democracia   

Brasília tem um anão falastrão que se esconde debaixo das mesas dos palácios para ouvir as conversas das excelências e depois sai contando tudo, desde o tempo em que trabalhei no Palácio do Planalto.

Fazia tempo que não o encontrava, e ele foi logo perguntando:

_ E aí, chefia? Tá sabendo do almoço de domingo da família no Alvorada?

_ Não, há muito tempo não vou a Brasília. O que houve?

_ Rapaz, o negócio foi pesado, quase se pegaram a tapa. Não fosse a primeira dama aquilo ia acabar na delegacia…

Parece até que o anão gravou a conversa, pois reproduziu em detalhes os diálogos entre pai e filhos. Abaixo, um breve resumo (alguns palavrões foram censurados para manter o decoro do blog):

B. – Que semana pesada da porra, meninos! Mais uma dessas, eu pego meu boné, largo esta merda e vou pescar em Angra bem naquele local proibido, só de marra, hahaha…

C. – Papai, por que estão todos contra nós? Não é só a imprensa… É Polícia Federal, Receita Federal, Coaf… Todos pegando no pé da gente. Bando de comunistas, vermelhos safados.

B. _ Você não pode falar nada porque meteu o nome do teu irmão 01 numa lista de deputados investigados no caso do laranjal da Assembléia, aquele do maldito Queiroz.

C. _ Que Queiroz? Nunca ouvi falar. Mas, papai, o 01 está na lista, o que eu posso fazer? Bem que eu queria ser candidato ao Senado, mas o senhor preferiu ele.

B. – Quer dizer que foi vingança, 02? Era só o que faltava nesta zona. Porra, agora é irmão contra irmão, já não bastam nossos inimigos?

E. _ Calma, pessoal, eu só vim aqui para saber como está aquele lance da embaixada que o senhor me prometeu ainda na campanha.

B. – Porra! Até vocês vêm aqui fazer lobby pra cima de mim? Eu não aguento mais isso, talkey? Quem manda aqui sou eu!

F. – Por falar em lobby, o senhor já decidiu quem vai colocar na PGR? Tem que ser alguém da nossa confiança. Gostou daquele nome que te indiquei, o subprocurador Antonio Carlos Martins Soares, chapa do nosso advogado Frederick Wassef?

B. – Ainda bem que pedi para o GSI investigar a ficha desse cara. É ficha suja, tem um processo por falsificação de documentos que foi parar no STF. Quem manda aqui sou eu!

F. – Mas já prescreveu, papai. Se for investigar, não vai sobrar ninguém, nenhum desses nomes que o senhor está analisando. Vai acabar ficando aquela Rachel Dodge, que está doida pra não largar o osso, faz qualquer negócio.

B. – Pensando bem, não sei, vou ver, melhor consultar o Olavão. Quem manda aqui sou eu!

E. – E a minha embaixada?

C. – O negócio lá no Senado não tá favorável, mano. Andei investigando também, tem muito comunista lá. Eles vão querer tirar uma onda pra cima do papai.

B. – Acho melhor você cuidar das nossas redes sociais, deixa o Senado comigo. Está me botando em cada fria.. Já estão dizendo por aí que aquele vídeo da caçada de baleias não é na Noruega, mas numa ilha dinamarquesa, alguma coisa assim.

E. – Noruega, Dinamarca, tanto faz, é tudo a mesma coisa, países asiáticos lá do norte da África. Disso eu entendo. E a minha embaixada?

B. – Vai se (*) você também 02, que só pensa nisso. Vai fritar hamburguer, pô. Quero  saber que informações vocês têm sobre o Moro. Ele continua muito bravo comigo? Tá achando que eu quero (*) com ele? E daí, hahaha. Quem manda aqui sou eu!

C. – Esse (*) não quer mais ir pro STF, não, papai. Ele quer é o teu lugar em 2022, ou antes, se possível… Só isso. Já tem o apoio daqueles comunas da Globo. Tá se fazendo de morto pra comer o (*) do coveiro…

F. – Será que ninguém aqui tem alguma notícia boa pra nós?

E. – Tem sim. Mais dia, menos dia, eu vou ser embaixador nos Estados Unidos e todos os nossos problemas estarão resolvidos.

B. – Os nossos, não, só o teu, hahaha! E eu vou ficar aqui me (*) sozinho, tendo que demitir um monte de gente em todo lugar para salvar a cara do 01… Me passa o leite condensado. Quem manda aqui sou eu!

C. – Papai, não me leve a mal, mas toda imprensa tá perguntando que fim levou o Queiroz.

B. – E eu vou lá saber? Que Queiroz? Não conheço, nunca vi na vida, e não quero nem saber. Isso é treta do 01, não tenho nada com isso. Quem manda aqui sou eu!

E. – E a minha embaixada? Quando vai sair? Tá demorando muito…

B. – Querem saber de uma coisa? Vão todos tomar no (*) que agora vou estrear meu novo videogame e quero que o mundo se (*). Quem manda aqui sou eu!

F. – Mas ninguém obedece…

Em tempo, antes que me acusem de fake news. Este é um texto de ficção. O anão não existe.

Qualquer semelhança com personagens reais deve ser mera coincidência. Ou não.

Vida que segue.

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