Alternativas ao genocídio

"O Brasil não pode continuar a depender de um governo central que já era um desastre em 2019 e que agora se transformou numa calamidade sociopática", escreve o sociólogo Marcelo Zero. "Precisamos salvar vidas. Precisamos salvar os empregos e a renda. Precisamos salvar a democracia", conclama

(Foto: André Penner/AP | Reprodução)
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Jair “la Constitution ces`t moi” XIV, da ilustre Casa de Intolerância, é o maior patife político da história do país.

Despreparado, desqualificado, mentiroso, hipócrita e, last but not least, sociopata, Jair foi um mau militar, um deputado medíocre e é (pasmem!) um péssimo presidente. Quem diria. Ninguém podia prever.  

Não sabia governar antes da pandemia. Agora, muito menos.  

Muito mais preocupado em salvar as suas chances eleitorais em 2022, Jair XIV está se lixando para a democracia, para as instituições e para a vida dos brasileiros.    

Quer se aproveitar da crise para colocar a culpa nos seus adversários e se apresentar como um falso “salvador da Pátria”. Completamente falso, pois o negócio dele é America First, Brazil Last.

Para tanto, Jair XIV pretende romper com a ciência, a OMS e o bom senso e retirar o país, de qualquer jeito, sem qualquer planejamento, do isolamento horizontal.  

Claro está que o isolamento social estrito não poderá perdurar eternamente. Embora os estímulos contracíclicos à demanda possam e devam permanecer por muito tempo, a coisa não é tão simples de resolver pelo lado da oferta (produção), que sofre muito com lockdowns e o isolamento social horizontal.

Mesmo com isolamento estrito e extenso, há cadeias que precisam continuar a funcionar a contento, como a produção, distribuição e comercialização de alimentos, de medicamentos, de insumos hospitalares, de energia e combustíveis etc. Do mesmo modo, serviços essenciais precisam continuar a operar, como os de energia elétrica, de telecomunicações, de abastecimento de água, de esgotamento sanitário, de coleta de lixo, de transporte (principalmente mercadorias) etc.  

Ademais, cadeias produtivas e serviços não essenciais não podem permanecer totalmente paralisadas por muito tempo, pois isso imporia um custo inviável e poderia afetar também a produção de bens e serviços essenciais. A falta de produção de insumos agrícolas, por exemplo, poderia acabar afetando, em prazo mais longo, a produção de alimentos.  

Um limite claro para o isolamento é dado pela ameaça do desabastecimento e pela carestia, que afetaria mais os setores pobres da população. Assim, em algum momento mais à frente, o país terá de começar a flexibilizar o isolamento e partir para outras fases do combate ao Covid-19.  

Mas isso tem de ser feito de forma planejada e muito cautelosa, no momento adequado, seguindo as diretrizes da OMS e os embasados conselhos dos verdadeiros cientistas. “Doutor Bolsonaro” não conta.  Flexibilizar de qualquer forma, para ser obrigado depois a fechar tudo de novo, seria um desastre, tanto sanitário como econômico.

A experiência da gripe espanhola nos EUA demonstra que as cidades que se recuperaram mais rapidamente, do ponto de vista econômico foram justamente aquelas que agiram mais precocemente nas medidas de isolamento e prevenção.  

Alguns países da Europa, como Áustria e Dinamarca, que estão numa fase diferente da epidemia que o Brasil, já tentam iniciar seus cautelosos processos de flexibilização. Esses países, graças ao isolamento, já entraram numa curva descendente de novos casos. O mesmo também começa a acontecer em alguns estados dos EUA, menos afetados pela pandemia.  

Entretanto, tais processos causam compreensível temor e resistência. Na Dinamarca, por exemplo, as mães se insurgiram contra a abertura de escolas e iniciaram o movimento “Meu Filho Não Será Cobaia”. No estado da Georgia, EUA, os prefeitos se insurgiram contra a decisão do governador de acabar com o isolamento horizontal e continuam recomendando que a população permaneça em casa.

A questão essencial para se iniciar qualquer processo de flexibilização é a informação. Não se pode planejar nada sem informação fidedigna. Por isso, qualquer tentativa de flexibilização do isolamento social horizontal pressupõe, como condição sine qua non, uma ampla disponibilidade de testes rápidos para a detecção precoce de infectados. Sem isso, qualquer tentativa de flexibilização é um perigoso salto no escuro.  

Há até países que conseguiram controlar sua epidemia do Covid-19, sem recorrer a lockdowns extensos, com base numa estratégia baseada em informação e ampla testagem.

É o caso da Coreia do Sul, que passou de quase um milhar de novos casos por dia, no início da epidemia, para menos de 50, atualmente.   

A estratégia da Coreia do Sul baseia-se no seguinte tripé:

  1. Ampla testagem da população
     
  2. Rastreamento intenso e rápido de possíveis infectados, via tecnologia digital, de modo a eliminar as hotzones  
     
  3. Imposição de quarentena para os infectados  
     

A Coreia do Sul testou e testa mais de 10 vezes que a média dos países europeus e, como é uma sociedade hiperconectada pelas redes sociais, desenvolveu formas eficientes de rastreamento digital de possíveis infectados.   

Mas isso não é tudo. A Coreia do Sul estava mais preparada para lidar com o Covid-19, pois tinha passado pela epidemia da MERS (Middle East Respiratory Syndrome), uma doença também causada por um tipo de coronavírus semelhante ao Covid-19, em 2015.  

O surto coreano de MERS ocorreu devido à inexistência de testagem e informação. Os primeiros pacientes, vindos do Bahrein, onde supostamente não havia MERS, foram tratados como vítimas de gripe comum, o que acabou levando à morte de 36 pessoas.  

A Coreia do Sul aprendeu a lição e agora testa massivamente. Até o final de fevereiro, a Coreia do Sul já havia testado quase 50 mil pessoas, ao passo que os EUA haviam testado apenas 426. Até 21 de abril, a Coreia do Sul já havia testado mais de 571 mil pessoas, numa população de aproximadamente 50 milhões de habitantes. Proporcionalmente, o Brasil teria de testar ao redor de 2,4 milhões de pessoas para chegar ao nível da Coreia do Sul. Além disso, a Coreia do Sul desenvolveu respiradores de custo barato (US$ 200,00), em 2016.

Outros fatores também explicam o sucesso da estratégia “flexibilizada” da Coreia do Sul.  

O primeiro deles tange ao fato de que se trata de um país geograficamente pequeno (pouco menos de 100 mil quilômetros quadrados) e com hiperconectividade digital, o que facilita muito o rastreamento de novos infectados e a eliminação precoce de hotzones. A Coreia do Sul já desenvolveu aplicativos que permitem a conexão via bluetooth de celulares e que informarão aos usuários se eles interagiram com pessoas infectadas, nos últimos 14 dias.

O segundo diz respeito ao seu sistema de saúde. A Coreia do Sul tem 12,3 leitos de hospital para cada grupo de 1.000 habitantes, enquanto a média da OCDE é de 4,7. A Itália tem ao redor de 3 e o Brasil apenas 1,95. Na realidade, muitos países do mundo, mesmo os mais ricos, andaram sucateando seus sistemas de saúde, como o Reino Unido, por exemplo,  o que explica muito dos gargalos criados pelo Covid-19. Aparentemente, a Coreia do Sul não seguiu esse caminho. A China, outro exemplo de sucesso no combate ao Covid-19, fez o contrário: investiu muito em saúde.

A Coreia do Sul realiza 16,6 consultas médicas anuais per capita. A média da OCDE é de 6,8 consultas, o mesmo índice da Itália. Nos EUA, país onde a medicina é privada e muito cara, são apenas 4 consultas anuais per capita.  

Trata-se, portanto, de uma realidade completamente diferente da realidade brasileira. Muito embora o Brasil ainda tenha o SUS, que o próprio Mandetta tencionava desconstruir, houve grande desinvestimento recente no sistema e o programa Mais Médicos, que levava assistência médica básica aos mais carentes, foi paralisado por motivos puramente ideológicos. Ademais, nosso país é continental, ainda pobre e com enormes desigualdades sociais e regionais.  

Nessas condições estruturais e conjunturais (falta de testes, falta de informação, ausência de rastreamento etc.) flexibilizar precocemente e sem qualquer planejamento é crime de genocídio. Simples assim.  

Contudo, como assinalamos, o Brasil precisará, mais à frente, fazer um planejamento sério e cauteloso da saída gradual e segura do isolamento horizontal.

A questão essencial é: quem fará isso?  

Parece-me que o governo Bolsonaro não tem competência e vontade política de fazer a coisa certa, no momento certo.

Caberia, portanto, aos governadores, prefeitos e a outros poderes, como o Congresso Nacional, começar a desenvolver para o país alternativas racionais e viáveis à loucura genocida de Bolsonaro et caterva. Essa é uma missão histórica que cabe a todos os brasileiros responsáveis.  

Uma primeira etapa desse processo poderia ser a elaboração de diretrizes e condições seguras para o início de qualquer flexibilização gradual do isolamento horizontal estrito, como:

  1. Haver ampla disponibilidade de testes e capacidade operacional de realizá-los.  
     
  2. Ocorrer a implantação de um banco de dados fidedigno, transparente  e auditável sobre a epidemia.  
     
  3. Existir mecanismo eficiente de rastreamento de possíveis infectados e de eliminação precoce de hotzones.
     
  4. O número de novos casos registrados, após amplas testagens, estar em nível baixo e descendente.  
     
  5. Os hospitais estiverem com reservas seguras de equipamentos (respiradores, leitos de UTI, etc.) para o atendimento de novos casos.  
     
  6. A decisão de flexibilizar ou não, e em que extensão fazê-lo, teria de caber, em última instância, aos governadores e prefeitos, face à realidade muito desigual do Brasil, e teria de estar baseada em dados cientificamente sólidos, respeitadas todas as diretrizes cautelares.  
     

Além disso, o país tem de começar também a monitorar mais eficientemente todas as cadeias produtivas essenciais, de modo a evitar qualquer ameaça de desabastecimento, bem como reprimir remarcações abusivas de preços.  

Nosso país tem cientistas preparados para fazer esse trabalho de desenvolver um planejamento seguro e racional para as novas fases do combate ao Covid-19. Eles só precisam de respeito, apoio e liberdade para trabalhar sem pressões eleitoreiras e ideológicas dos ignorantes de plantão.  

O Brasil não pode continuar a depender de um governo central que já era um desastre em 2019 e que agora se transformou numa calamidade sociopática.  

Precisamos salvar vidas. Precisamos salvar os empregos e a renda. Precisamos salvar a democracia. Precisamos salvar o Brasil dos vírus e dos abutres. Com ou sem impeachment.  

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