Alvo prioritário e fogo de barragem

Professor e jornalista Julian Rodrigues escreve sobre os desafios do movimento LGBTI em meio à onda neofascista

www.brasil247.com -


Por Julian Rodrigues 

(Publicado no site A Terra é Redonda)

O governo Bolsonaro não é um governo “normal” – está fora do âmbito do arco democrático-liberal. Trata-se de um movimento neofascista, com conexões internacionais. É disruptivo, autoritário. O programa ultraliberal de Bolsonaro (Guedes) permitiu sua vitória em 2018 – havia uma expectativa entre as elites de que poderia ser contido. Não foi o que aconteceu.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A destruição operada pelo bolsonarismo não tem precedentes. Trata-se não só do ataque às liberdades democráticas e aos direitos sociais, ambientais, trabalhistas como também à promoção do discurso de ódio e da discriminação como políticas de governo. A cultura, a educação, o meio ambiente, a pluralidade e os direitos das mulheres, negros e LGBTI são alvos prioritários dos ataques neofascistas.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O bolsonarismo firmou uma forte aliança com o fundamentalismo religioso, com os mercadores da fé e com a direita cristã (não só evangélica). Desde pelo menos 2010 há uma ascensão conservadora, que cresceu entre 2013 e 2015, quando a falácia da “ideologia de gênero” foi o gatilho que amalgamou o pânico moral e retirou dos Planos Educacionais quaisquer menções às políticas de igualdade de gênero de diversidade sexual e de gênero.

A “cruzada anti-gênero” não é invenção de Bolsonaro ou Malafaia. Está articulada internacionalmente, tanto com a cúpula da Igreja Católica – que elaborou o conceito, quanto com os governos e movimentos reacionários na Europa, EUA e toda América Latina. Paradoxalmente, essa cruzada obscurantista acontece no momento em que o movimento LGBTI conquistou suas três principais bandeiras. Junto ao STF. Conseguimos, desde 2011: (a) casamento igualitário; (b) liberdade identidade de gênero; (c) criminalização da discriminação contra LGBTIs. Para não mencionar a vitória na doação de sangue, as decisões que barraram leis da “escola sem partido” entre outras.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Nossas conquistas no Poder Executivo, em todos os níveis, se concentraram entre 2003 e 2012. A começar pelo ousado e inédito Brasil sem Homofobia em 2004, passando pela Conferência LGBT em 2008 – e a criação de órgãos, planos e políticas em diversos Estados e municípios. Dois destaques: Rio Sem Homofobia e as políticas do governo de Fernando Haddad, do qual tive o privilégio de participar na elaboração das políticas e na criação do Transcidadania (foi o que mais investiu, chegando a R$10 milhões no último ano de governo).

Ao mesmo tempo, a situação só piora no Congresso Nacional, que nunca aprovou nenhuma lei pró-LGBT em todos esses anos.

A década de 2000 foi marcada pelos avanços no governo Federal e nos executivos. A década de 2010 foi marcada pelas vitórias no Judiciário. A situação é muito contraditória porque além dos avanços no Judiciário, conquistamos também muita visibilidade positiva e aprofundamos nossa articulação com o mercado. Sobretudo com a mídia. A visibilidade positiva das LGBTI cresceu.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ao mesmo tempo, cresceram o preconceito e os discursos de ódio promovidos pelas lideranças cristãs reacionárias articuladas com Bolsonaro. Uma rede de vereadores, deputados estaduais, deputados federais, “influencers” digitais se dedica diuturnamente a atacar as LGBTI, a inventar e propor leis restritivas, a disseminar discurso de ódio.

O “pânico moral” continua firme e forte, mobilizando milhões de trabalhadoras, pobres, periféricos, pessoas do povo que se assustam com os discursos deles. Gayzismo, ditadura gay, mamadeira de piroca, transformar meninos em meninas, femininazis, e todo tipo de manipulação. As políticas educacionais estão no centro da guerra por direitos hoje, contra o avanço neofascista e fundamentalista religioso.

A extrema-direita veio para ficar. Derrotar o Bolsonaro nas urnas em 2022 é bem menos difícil do que derrotar o neofascismo, que hoje é uma corrente de massas no Brasil.

Os direitos sexuais e reprodutivos, a luta feminista, a luta LGBTI são alvos prioritários do bolsonarismo. Mas nós também estamos entre os setores mais organizados e dinâmicos da sociedade civil. Temos bala na agulha para enfrentar essa direita tresloucada. Simultaneamente somos “saco de pancada” e também uma barreira civilizatória. Nos cabe um papel fundamental: ajudar a interromper o avanço dessas ideias autoritárias, racistas, machistas, homofóbicas e transfóbicas.

O que fazer?

O cenário da comunidade e do movimento LGBTI de maneira ampla mudou demais. O primeiro passo é tentar entender tais transformações para nos reposicionarmos. É preciso reforçar a centralidade, organicidade, unidade, foco, discursos e estratégias comuns. Sob o risco de nos dispersarmos em uma sopa digital. A “lacrolândia” (onde predominam o individualismo, a vaidade, a caça de cliques, a despolitização, a falta de rigor acadêmico, a ausência de pactos coletivos) não pode ser a direção concreta, objetiva do nosso movimento. Um baita desafio aí.

A comunicação nas redes, criando o “gabinete do amor”, uma “Plataforma do Respeito” deve ser um esforço coletivo e central do movimento. Outro foco do movimento deve ser a formação ativista. Para uma nova geração militante e orgânica, é preciso uma formação que não seja aquela disponibilizada fragmentariamente por influencers digitais. Temos que ter uma política de formação de ativistas, nacionalmente articulada.

A prioridade, obviamente, é fazer todos os esforços para derrotar Bolsonaro. Agora ou nas urnas. No segundo turno, o movimento deve se engajar no apoio ao candidato anti-bolsonarista, que provavelmente será Lula. No DataFolha de 15 de setembro, Lula aparece com 60% de intenções de voto entre homossexuais e bissexuais – um verdadeiro ícone LGBT.

As cruzadas anti-gênero tem o foco nas políticas educacionais. Cabe ao movimento organizar uma estratégia de incidência política com foco aí um Plano de Promoção da Igualdade de Gênero e do Respeito à diversidade sexual e de gênero na Educação.

Estamos sentindo o efeito de um fortíssimo backlash, conceito que não tem uma boa tradução em português. Trata-se da reação, de onda conservadora ressentida – poderoso sentimento que gera uma contra-mobilização. Como aquelas ondas fortes que nos jogam de volta à areia da praia.

A pauta LGBTI não está restrita aos círculos da esquerda/centro-esquerda – é abraçada e disputada pelos neoliberais progressistas, pelo mercado, pela Globo, Facebook, partidos de centro-direita e direita liberal. Ou seja, cresce a polarização, mas também a possibilidade de alianças.

“Nestes últimos vinte anos
Nada de novo há
No rugir das tempestades
Não estamos alegres,
É certo,
Mas também por que razão
Haveríamos de ficar tristes?

O mar da história
É agitado.
As ameaças
E as guerras
Havemos de atravessá-las.
Rompê-las ao meio,
Cortando-as
Como uma quilha corta
As ondas.”

(Vladimir Maiakóvski, 1927).

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email