Análise e perspectivas do novo governo

nfelizmente, o senso comum do povo brasileiro parece convencido de que atropelar garantias fundamentais, encarcerar em massa e enfrentamento bélico à violência urbana vão resolver problemas como a corrupção e a segurança pública

Análise e perspectivas do novo governo
Análise e perspectivas do novo governo (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Vivemos tempos difíceis em todo o mundo. A conjuntura global aponta que estamos encerrando um ciclo inaugurado no pós-guerra fria, onde a política multipolar dava o tom do debate. Hoje, pode estar se abrindo um ciclo parecido com o que precedeu a primeira guerra mundial, de potências ameaçadas de decadência por conta da ascensão de outras. Sem contar, é claro, com a estagnação da economia global que abre caminho para governos de extrema-direita.

É preciso ter clareza que o Brasil e seu governo eleito é uma frente dessa conjuntura global. E os objetivos do governo Bolsonaro são ambiciosos. Porém, o novo governo se divide em núcleos de poder.

Pelo núcleo liderado pelo "chicago boy" Paulo Guedes, pretende-se retomar o crescimento econômico e o emprego a partir de uma agenda ultraliberal de redução do papel do estado e supressão de direitos trabalhistas e previdenciários que irão destruir o sistema de seguridade social inaugurado há 30 anos, na Constituição de 1988.

Pra essa agenda econômica ser levada à cabo, o governo precisará uma maioria fiel no parlamento e recorrer sempre aos aparatos de repressão, pois enfrentará uma forte oposição não só no Congresso mas sobretudo nas ruas. Daí o modus operandi de formar uma base de apoio a partir de bancadas temáticas (bala, boi, bíblia, etc) pautada por interesses econômicos e culturais. É uma aposta. Se vai dar certo, é outra coisa. Mas essa estratégia exigirá que o governo continue polarizando, esticando a corda como se ainda estivesse em campanha.

Pelo campo dos costumes, sob comando do clã dos Bolsonaro e orientados pelo ideólogo Olavo de Carvalho, o objetivo é promover uma guerra cultural, disputando valores capazes de orientar a sociedade e consolidar a ideia de que é preciso expurgar o "marxismo cultural" das universidades e instituições brasileiras.

No que talvez seja o poder central desse novo governo. o núcleo liderado por Sérgio Moro, o objetivo é instituir o estado policial inaugurado na Operação Lava Jato, criminalizando a atividade política, a começar pelos partidos de esquerda, centrais sindicais e movimentos sociais. Tende a ser uma ofensiva de ações judiciais orientadas pela teoria do domínio do fato e por prisões seguindo o padrão ilegal e arbitrário, destruindo a oposição e colocando aliados vacilantes nas cordas. Tudo isso protegido pela narrativa de combate à corrupção e a ilusão de que a Justiça é aplicada a todos.

A política externa, por sua vez, com o tosco chanceler Ernesto Araújo, e também sob a égide do ideólogo Olavo de Carvalho, promete romper com a tradição multilateralista do Itamaraty e se pautar por um bilateralismo anacrônico. Em outras palavras, retomar o papel de republiqueta subserviente aos interesses dos Estados Unidos, numa espécie de "America first. Brazil second". Nesse ponto, medidas como a transferência da embaixada de Israel para Jerusalém, a saída do acordo do clima de Paris e o rompimento com o pacto da ONU sobre a migração são alguns exemplos do que pode vir por aí.

Fato curioso nas reuniões de transição, Bolsonaro e Guedes pressionam os aliados ao dizerem que o governo não pode dar errado, caso contrário o PT volta. Não é pra menos. Depois de 14 anos, a última coisa que essa turma quer é devolver o governo para a esquerda em 2022. O PT, por exemplo, saiu da eleição combalido mas continua a ser o maior partido de oposição, com a maior bancada apesar do forte cerco midiático e judicial. Daí a narrativa em tom apocalíptico.

A oposição ao governo Bolsonaro está dividida. Pelo menos, por enquanto. A formação de uma coalizão democrática que defenda a Constituição de 1988 é fundamental para conter o desmonte do estado brasileiro e quaisquer investidas autoritárias por parte do novo governo.

Infelizmente, o senso comum do povo brasileiro parece convencido de que atropelar garantias fundamentais, encarcerar em massa e enfrentamento bélico à violência urbana vão resolver problemas como a corrupção e a segurança pública. Neste momento político, tal narrativa ajudou e está ajudando aos que chegaram ao poder. Mais adiante, quando a conta chegar, talvez esse senso comum mude. No México mudou.

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