André Lara Resende Rousseff?

Um dos cérebros do Real e do Cruzado assume perspectiva econômica semelhante ao governo Dilma Rousseff, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Paulo Moreira Leite, André Lara Resende e Dilma Rousseff
Paulo Moreira Leite, André Lara Resende e Dilma Rousseff (Foto: Brasil 247 | Reprodução)
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Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

A  seguir a lógica sem escrúpulos que levou a Folha de S. Paulo a publicar o editorial "Jair Rousseff, " (21/8/2020), num esforço maligno para embelezar a imagem de um candidato a ditador com a biografia de uma presidente deposta sem crime de responsabilidade, cabe perguntar o destino reservado a outro personagem relevante de nosso debate econômico, que tem assumido um ponto de vista semelhante em vários pontos essenciais.

Estamos falando de André Lara Resende,  um dos criadores do plano Cruzado, no governo Sarney, e depois do Real, de Fernando Henrique Cardoso. Hoje, numa demonstração rara de honestidade intelectual e compromisso com o mais legítimo aspecto do debate econômica -- crescimento da renda e a criação de empregos -- Lara Rezende tem-se dedicado a passar a limpo as próprias ideias dos anos 1980 e 1990.  E não demonstra receio de assumir seu lugar no coro daqueles que criticam os alicerces da política econômica Bolsonaro-Paulo Guedes, herança do neoliberalismo instituído por Temer-Henrique Meirelles, onde sobrevivem muitos pontos de vista que ele defendeu no passado.  

Na manifestação mais recente, em entrevista a colunista Maria Cristina Fernandes publicada na edição de  hoje do Valor Econômico, Lara Rezende questionou a emenda constitucional que criou o Teto de Gastos, herança de Michel Temer-Henrique Meirelles que foi abraçada por Paulo Guedes e Jair Bolsonaro e até hoje é apresentada  como um pilar essencial de uma política economica saudável.

Numa entrevista sem declarações entre aspas, onde suas opiniões são traduzidas pelo teclado da jornalista, descobre-se que Lara Rezende considera que a política econômica de Guedes tornou-se vítima de um "sequestro mútuo, sem vítimas inocentes", onde o teto de gastos ajuda as partes a usufruir de vantagens às custas do marasmo econômico e do sofrimento do povo.

"O mercado se ampara no teto de gastos porque acredita que o Brasil tem de continuar a remar contra a maré mundial e usa o fantasma da confiança  do investidor para pressionar o Congresso a manter barreiras artificiais contra o gasto público", escreve Maria Cristina Fernandes, num texto que deixa claro que, para Lara Resende,  o debate econômico deve ser visto como um baile de máscaras, onde cada um veste a fantasia conveniente a seus interesses particulares, sem dar importancia as necessidades do país e possibilidades reais de crescimento, desde que se produza uma nova orientação econômica.

Ao bater no teto de gastos, Lara Resende exibe autoridade de quem fala por dentro do assunto. Possui a memória de quem conhece as decisões em debate e até há pouco foi interlocutor da maioria dos personagens envolvidos -- com os quais dialogava ora como executivo do mercado, ora como integrante  do primeiro escalão do Ministério da Economia. Fazendo uma revisão em profundidade das principais ideias de política econômica recente, nos últimos anos ele  questionou os dogmas sagrados do conservadorismo econômico, como programas de austeridades e ajuste que jogaram vários paises no atoleiro após o colapso de 2008-2009.

Ao entrar no debate sobre teto de gastos, Lara Resende assume uma visão que dialoga com o espírito desenvolvimentista de Dilma Rousseff, economista formada  numa escola de pensamento que teve em Celso Furtado um de seus principais inspiradores. É ali, diante do precipício em que o neoliberalismo de Bolsonaro-Guedes jogou o país, que o governo atual procura uma boia de salvação para sobreviver até 2022.

Quem fala em Jair Rousseff não entendeu nada e sequer compreende a profundidade da própria ignorância. Por coerência, deveria rebatizar um dos pais do Real e do Cruzado como André Lara Resende Rousseff.

Alguma dúvida?

(Agradeço a Leonardo Attuch, editor do 247, várias sugestões que permitiram este artigo).

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