Anotações de um confinado

"O isolamento de Jair Messias passou a ser radical. À exceção de Augusto Heleno, o general empijamado cuja estatura moral consegue ser ainda menor que a física, há um silêncio estridente dos outros fardados abrigados no Palácio do Planalto", escreve Eric Nepomuceno, do Jornalistas pela Democracia

O poder militar no governo Bolsonaro.
O poder militar no governo Bolsonaro. (Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia - Segunda-feira passada eu saí de Araras, o distrito de Petrópolis onde estou isolado em casa, e dirigi uns 20 quilômetros até Itaipava, distrito vizinho. Fui buscar dinheiro num caixa eletrônico.

Terça, lá pelas oito e meia da noite, disparei até a padaria aqui ao lado para reforçar meu estoque de cigarros antes que ela fechasse. Em Buenos Aires ou qualquer outra cidade argentina eu teria sido preso na segunda. E em Santiago do Chile, na noite da terça. O esquerdista Alberto Fernández impôs uma quarentena feroz na Argentina: quem sai de casa sem ser para ir ao supermercado ou à farmácia é preso na hora. E o mais que direitista Sebastián Piñera decretou o toque de recolher das oito da noite às cinco da manhã na capital chilena. O governo da Índia, também de direita, pôs em quarentena a população inteira do país: um bilhão e trezentos mil. Quer dizer: na visão de Jair Messias, são três nítidos exemplos de irresponsáveis que ficam espalhando mentiras sobre a gripezinha e incentivam a histeria em seus países. Por prescrição médica imposta por mim mesmo, não vejo televisão. Mas por vício profissional acabo acompanhando as andanças de Jair Messias pela internet.  Vi, por exemplo, o ataque histérico dele contra João Dória. E acompanhei a fala de Ronaldo Caiado, governador de Goiás, rompendo durissimamente com seu mito e mentor. Depois da fala dele na noite da terça, Jair Messias repetiu tudo, com muito mais ênfase, na manhã da quarta. A reação foi geral e especialmente crítica aos seus giros paranoicos e mais boçais que nunca. 

Houve alguma exceção? Claro: Regina Duarte. Mas a estas alturas da vida, ela tem no cenário brasileiro o mesmo peso que tenho eu na Finlândia.

Ou seja: o isolamento de Jair Messias passou a ser radical. À exceção de Augusto Heleno, o general empijamado cuja estatura moral consegue ser ainda menor que a física, e que rompeu a quarentena pela metade para se reunir com o presidente, há um silêncio estridente dos outros fardados abrigados no Palácio do Planalto. Se até a terça o país estava à beira do abismo, Jair Messias acabou de nos empurrar para dentro. Aqui na serra de Petrópolis, a tensão no ar é palpável ainda mais, pela altitude em que estamos. A única certeza concreta é que almoçarei raviólis no molho de manteiga e cheiro verde. E que jantarei um pargo assado. Ah, sim, ia esquecendo: além dos óbvios profissionais da saúde e de funcionários de supermercados, na Argentina os jornalistas têm trânsito livre. Outra prova concreta da insanidade do presidente Fernández: por Jair Messias, eles sim, deveriam ficar confinados em casa. E para sempre.

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