Apesar do 'apoio divino', parece inevitável a queda de Jair Messias, o ungido

"No próximo domingo será o primeiro grande teste do presidente, em termos de respaldo popular. Grupos aliados prometem ir às ruas defender o governo e atacar os opositores (...) a ideia de lotar as ruas e pintá-las de verde e amarelo pode ser um tiro pela culatra. A depender do tamanho do fiasco, um tiro letal", diz Gilvandro Filho, do Jornalistas Pela Democracia

Apesar do 'apoio divino', parece inevitável a queda de Jair Messias, o ungido
Apesar do 'apoio divino', parece inevitável a queda de Jair Messias, o ungido (Foto: Marcos Corrêa/PR)

Por Gilvandro Filho, para o Jornalistas pela Democracia - Se dependesse das "majors" do fanatismo pentencostal, o Brasil não teria presidente da República, mas sim um "bispo-mor" ou um "apóstolo supremo". É o que se tira das declarações dos grandes potentados da máquina evangélica quando eles falam de Jair Bolsonaro. Para esses pastores milionários e suas igrejas igualmente abarrotadas mais de dinheiro e de suspeitas do que de ventura e graça, Bolsonaro é o próprio Cristo descido à Terra. A defesa intransigente do ungido é coerente. É um espelho, um reflete o outro.

Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória Em Cristo, tem sido o anjo guardião do ex-capitão do Exército que, no momento, exerce a presidência do Brasil. Foi ele um dos patrocinadores do batismo de Bolsonaro e é dele boa parte da base política em que se apoia o presidente e seus filhos para eleger Israel como a base espiritual do Brasil. Para o pastor, Bolsonaro foi eleito por interferência de Deus, e pronto. Quem está contra Bolsonaro, condenado está ao inferno, pois vem de Satanás todas as críticas e contestação ao seu "escolhido".

Discurso semelhante foi orado pelo pastor africano Steven Kunda. Congolês radicado na França, o religioso, do alto de sua "autoridade", decretou que Deus escolheu Bolsonaro para guiar o Brasil e os brasileiros. A fala do pastor Kunda foi exibida em uma das emissoras de TV evangélicas e, de imediato, reproduzido no tuíter de Bolsonaro. É uma pérola de ignorância e de exagero religioso: "...aceitando ou não, você seja de esquerda ou de direita, o senhor Jair Bolsonaro é o Ciro do Brasil. Deus o escolheu para um novo tempo, para uma nova temporada no Brasil". O Ciro aí não é o do Ceará, mas o rei persa que salvou os judeus do exílio, na Babilônia).

Outro profeta do Apocalipse, quando a onda é espinafrar os adversários do ungido Bolsonaro, é o fundador e líder da maior igreja evangélica brasileira, a Universal do Reino de Deus, o bispo Edir Macedo. Esta semana, o bispo - que já foi flagrado ensinando pastores a explorarem fiéis na hora de cobrar o dízimo e não dispensa um passaporte diplomático -, não apenas levou seu eleito às alturas como deliberou o castigo sobre quem é de oposição.

Para Macedo, os opositores devem ser retirados do caminho por Deus. É dele essa antológica maneira de orar e de encarar a democracia, aquele regime em que coexistem governo e oposição. "Remova aqueles que querem impedi-lo de fazer um excelente governo. Ele pegou esse País, meu Pai, caído, quebrado, assaltado, roubado, espoliado, desgraçado, para mudar a história dele, meu Pai". Um verdadeiro louvor à intolerância e à insensatez.

Normalmente unida, a bancada evangélica apresenta raros momentos de dissidência. Um desses momentos ocorre agora, na tramitação do Decreto da Morte que flexibiliza a compra, posse e uso de armas de fogo. Há quem aposte, no entanto que esta rusga seja passageira e que, na hora H, os evangélicos vão mesmo é apoiar a proposta de Bolsonaro. Até para não desperdiçar um momento histórico como este em que o chamado segmento cristão está, verdadeiramente, no poder.

O andar da carruagem mostra, no entanto, que será preciso mais que a providência divina para salvar um governo a caminho do fim como o de Bolsonaro. A cada dia mais afundado em tropeços, com um apoio popular em dissolução crescente e um time de ministros que não ajuda, nem parece que o presidente só está no poder há apenas 4 meses e 23 dias.

Acrescente a tudo isto, a desenvoltura danosa dos três filhos do presidente. Performance que era só folclore, mas que agora descamba para a seara policial. Um deles, Flávio, é acusado pelo Ministério Público de ser o chefe de uma organização criminosa e é suspeito de ligação com os milicianos donos do Rio de Janeiro. Foi quem trouxe para a cena política do governo do pai a figura do ex-faz-tudo Fabrício Queiroz, aquele que operava todo o esquema que joga o senador do PSL no olho de furação que pode levar junto o governo de Bolsonaro.

No próximo domingo será o primeiro grande teste do presidente, em termos de respaldo popular. Grupos aliados prometem ir às ruas defender o governo e atacar os opositores, um ato que foi gestado no Palácio do Planalto e cuja grande dúvida é a própria presença de Bolsonaro, que disse não vai (mas, dizer e desdizer é a marca dele). Pelas pesquisas de opinião pública mais recentes, a popularidade do presidente escoa pelo ralo. A ideia de lotar as ruas e pintá-las de verde e amarelo pode ser um tiro pela culatra. A depender do tamanho do fiasco, um tiro letal.

E aí, não vai ter oração ou discurso evangélico que salvem o Messias; o Jair, claro.

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