Argentina: Bolsonaro continuará a chamar a vizinhança para a briga?

"Não se sabe ainda como serão as relações bilaterais entre Brasília e Buenos Aires a partir do ano que vem. Alberto Fernández visitou Lula na prisão, o que deve ter causado acessos de raiva no Planalto. Resta ver se o clima de hostilidades que a diplomacia brasileira tem adotado terá efeitos concretos no comércio entre os dois países", aponta Gilberto Maringoni

Bolsonaro será Macri amanhã
Bolsonaro será Macri amanhã

Há que se tirar o chapéu para Jair Bolsonaro. O celerado presidente está conseguindo transformar a provável vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner à presidência argentina, no domingo (27), numa derrota sua. Pessoal e intransferível. Ou seja, depois de implodir seu partido, o PSL, de ser obrigado a recuar na tentativa de aboletar o 02 na embaixada brasileira em Washington, de passar carão na indicação do Brasil para a OCDE, o Messias agora quer engrossar com a vizinhança. Sem motivo racional algum.

Vale repetir: só um cataclismo poderá tirar a vitória peronista no outro lado do rio da Prata. O jornal Carín, de Buenos Aires, publicou na sexta (18), uma compilação de projeções de sete institutos de pesquisa. A vantagem de Fernández e Kirchner é – até aqui – irreversível. A maior diferença para com a postulação de Mauricio Macri é de 22 pontos e a menor de 16.

DEPOIS DE PAULO GUEDES ter gritado em dezembro, para uma jornalista do La Nación, que “Mercosul não é prioridade", seu chefe resolveu bancar o valente. Em junho, Bolsonaro afirmou o seguinte: “Cristina Kirchner foi aliada de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff. (…) Espero que o povo argentino reflita muito sobre isso nas eleições”. Não contente, dois meses depois, em terras gaúchas, o disparo veio com chumbo grosso: “Se essa ‘esquerdalha’ voltar na Argentina nós poderemos ter, sim, no Rio Grande do Sul um novo estado de Roraima e não queremos isso”.

Há uma espécie de pacto não escrito na diplomacia. Diz-se que líderes institucionais de países com boas relações entre si não palpitam sobre a vida interna do outro. Com tais declarações – juntamente com o apoio à derrubada de Nicolás Maduro – o Brasil protagonizou ação inédita desde o fim da Guerra do Paraguai, em 1870: tomou parte em uma disputa interna de outro país. Agiu como parte interessada.

SE ALGUM DIA PASSOU OS OLHOS pela Constituição brasileira, o capitão deve ter pulado o trecho sobre relações internacionais. Lá está escrito:

“Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
(…)
III – autodeterminação dos povos;
IV – não-intervenção”

É algo que vem dos primórdios da República. Ou seja, o presidente afrontou uma das bases constitucionais de nossas articulações globais há mais de cem anos.

O mais grave, contudo, foi o anúncio – em março – de que o Brasil importará 750 mil toneladas anuais de trigo, sem cobrança de taxas aduaneiras, dos Estados Unidos. Atualmente, nosso maior fornecedor do produto é a Argentina. O montante representa cerca de 10% de nossas importações, realizadas com taxas aduaneiras também de 10%. É algo que faz diferença para um exportador que tem sua economia mergulhada em recessão.

NÃO SE SABE AINDA como serão as relações bilaterais entre Brasília e Buenos Aires a partir do ano que vem. Alberto Fernández visitou Lula na prisão, o que deve ter causado acessos de raiva no Planalto. Resta ver se o clima de hostilidades que a diplomacia brasileira tem adotado terá efeitos concretos no comércio entre os dois países. Relações internacionais são o terreno do pragmatismo. Tomara que o desequilíbrio emocional e o comportamento de capacho de Trump exibido pelo governo brasileiro não contamine a vida prática.

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