Argentina de novo na encruzilhada

"O presidente Alberto Fernández se tornou, primeiro aos poucos, e depois rapidamente, uma figura que de isolada passou a ser simbólica", escreve Eric Nepomuceno

www.brasil247.com - Alberto Fernández
Alberto Fernández (Foto: Reprodução)


Por Eric Nepomuceno, para o 247

Na Argentina, ainflação que não parou de crescer fechou o primeiro semestre com um aumento de 36%. E em dezembro agora deverá rondar a casa dos 70% ao ano.  

No mercado paralelo, o dólar vale mais que o dobro do câmbio oficial. As reservas em divisas continuam se esvaindo numa sangría desatada, as fontes de crédito externo ou secaram, ou gotejam com altíssima taxa de juros.    

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A pobreza chega a 37% dos 47 milhões de habitantes, e a miséria engoliu outros 10%. Quer dizer: vivendo afundada entre pobreza e miséria está quase a metade da população do país.

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O número de pedintes não parou de crescer, assim como os moradores de rua que são visíveis em número crescente nas ruas e praças da capital e das maiores – e mais ricas – ciudades do país.  

O desemprego é agravado pela inflação que resiste, impávida, às medidas tentadas até agora pelo governo.  

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E enquanto isso, espalhando um mar de estridente contradição, a economía cresce.

Em semelhante cenário o presidente Alberto Fernández se tornou, primeiro aos poucos, e depois rapidamente, uma figura que de isolada passou a ser simbólica.  

Deverá permanecer assim, um ser inanimado e decorativo, até o final do seu mandato, que termina no ano que vem. Mas pelo menos conseguiu afastar a expectativa de uma renúncia vexaminosa.   

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Hoje, o que se vê como resultado de sua fraqueza e sobretudo sua inércia diante de um dramático quadro social é um governo desmoralizado e um país destroçado.

Pois nesse mesmo cenário aparece o novo super-ministro de Economia, Sergio Massa. Com toda pompa e circunstância, ingressa num campo semeado de emergências.    

Ele assumiu na quarta-feira três de agosto com amplos poderes e, principalmente, com o aval – ao menos por enquanto – de Cristina Fernández de Kircher, a mais que poderosa vicepresidente, viúva daquele Nestor Kirchner que em seus tempos de presidente levou ao país brisas de bonança.   

O novo ministro é um político experiente, um negociador hábil, com bom trânsito no empresariado, no agronegócio, e no Congresso. E, claro, com os dois olhos cravados nas eleições presidenciais do ano que vem.

Resta ver se tem visão suficientemente límpida para enxergar o dramático quadro social enfrentado pelos argentinos e propôr soluções viáveis e rápidas.

É um liberal na acepção mais pura do termo, ligeiramente inclinado a um modesto conservadorismo, a milhas de distância da ala esquerda do peronismo.

Se essa ala está hoje em dia concentrada básicamente no kirchnerismo, é na ala mais próxima do centro-direita que se abriga Massa.  

Até quando o equilíbrio registrado hoje entre esas duas alas vai durar, ninguém sabe.

Conforme o previsto, as primeiras medidas anunciadas por Sergio Massa foram de austeridade. O objetivo declarado é, de saída, ordenar as finanças públicas, estancar a sangria de dólares e pôr um freio na inflação.  

Aumentou as tarifas de energía elétrica e gás para quem consumir acima de determinada marca, congelou a contratação de funcionários públicos, e reafirmou a meta de redução do déficit fiscal para 2,5% do PIB.  

Essa última medida, aliás, integra o acordo confirmado há pouco junto ao FMI, para o qual a Argentina deve bilhões de dólares de um empréstimo contraído lá nos tempos de Mauricio Macri (presidente entre dezembro de 2015 e dezembro de 2019).  

Nenhuma palavra sobre renegociar condições, nenhuma palavra sobre o sumiço de mais da metade dos 44 bilhões de dólares tomados emprestados.  

Outro ponto delicadíssimo se refere às reservas em divisas, cada vez mais esquálidas. Parte da solução viria das exportações, mas o velho hábito – principalmente no agronegócio – de atrasar ao máximo a entrada no país de dólares obtidos pelas vendas ao exterior à espera de mais desvalorização do peso argentino continua imperando.

Questões como reajuste aos salários corroídos, a auxílio extra para os aposentados e os mais pobres, enfim, o que fazer contra a tremenda crise social, ficaram para ser negociadas a partir de agora.

É esperar para ver.

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