As escolhas americanas do pós-Trump

Trump é um presidente questionado no sistema mundial, mas pode surpreender, por exemplo, ao pacificar relações com Rússia e China

Presidente eleito dos EUA, Donald Trump, em evento eleitoral em Nova York, Estados Unidos 09/11/2016 REUTERS/Mike Segar
Presidente eleito dos EUA, Donald Trump, em evento eleitoral em Nova York, Estados Unidos 09/11/2016 REUTERS/Mike Segar (Foto: Leopoldo Vieira)

Donald Trump venceu a eleição no Colégio Eleitoral por 306 a 232, mas perdeu no voto direto por 47.7% a 47.5%. Não há o que se questionar, pois são as regras democráticas do País.

Todavia, se mais 1% de Trump se deslocasse favor de Hillary Clinton, toda a análise e narrativa seria distinta da que corre solta. Só se pode falar da opção inquestionável de uma nação quando a vantagem é considerável.

Melhor o que constatou The Economist antes da votação, de que a disputa não acabaria neste 08/11, que o final não seria feliz porque os candidatos ergueram muros na sociedade, extremamente dividida.

Sem nenhuma dúvida, pode-se dizer que metade dos americanos apoiam a recuperação econômica dos Estados Unidos e o pleno emprego vigente, além da expansão dos direitos civis, que marcaram a Era Obama. Tal como a outra metade, desaprova.

O que definiu a pequena margem percentual determinante para a eleição de Trump? Muito se pode dizer: desde a insatisfação dos trabalhadores brancos com a qualidade de seus empregos e pela concorrência de imigrantes e negros, até os votos despejados nos candidatos alternativos (verde e libertário). Cabe tudo neste percentual.

Há que encanta este autor: Obama foi anti-establishment em 2008 e, por isso, venceu as primárias Democratas e a eleição em si contra dois candidatos da "política de Washington". Desta vez, entre os elefantes e na eleição em si, Trump desempenhou o mesmo papel de Obama há oito anos atrás.

Melhor pôr na conta que, ante o fato de o voto ser facultativo, a paixão pelo anti-candidato Republicano mobilizou pequena margem a mais.

Trump sabe deste impasse e já fez a escolha por chamar a união nacional, elogiar Hillary e se encontrar com Obama e, após a reunião, disse pretender trabalhar mais com o líder Democrata. O presidente, por sua vez, sinalizou que antes das diferenças partidárias há o patriotismo americano, recebeu o eleito e constituiu a transição de governo. Hillary reconheceu a derrota e ligou para parabenizar o vencedor.

Na outra ponta, reações esperadas de setores da base Democrata reagiram com manifestações pós-eleitorais anti-Trump, destacadamente em torno das pautas mais sensíveis encampadas por ele na campanha eleitoral.

Os Estados Unidos tem dois caminhos.

O preferido de pessoas como Slavoj Zizek e Michael Moore é o caos político e social. O primeiro declarou que Hillary era o mal, sonhando em implodir os Estados Unidos por dentro. O segundo, depois de supostamente profetizar a vitória do Republicano, agora diz que os Democratas devem obstruir tudo que venha do novo governo no Congresso, tornando a vida dele um inferno. Dá a linha para o sonho de Zizek.

A base de Bernie Sanders ou do Occuppy deve embarcar nessa.

O que Trump parece perceber, assim como Obama, é que deve haver e um mínimo de entendimento para evitar este caos, mas isso só será possível se Trump moderar bastante seu ímpeto. Nas palavras de José Serra, parafraseando o ex-jogador da seleção brasileira de futebol, Didi, saber que treino é treino e jogo é jogo.

Ao ex-establishment Republicano, caberá ajudar Trump nesta direção. Aos Democratas receber os sinais de moderação para poderem construir uma oposição que não seja na base do tudo ou nada.

O candidato Trump só pode ser impedido com a reconstrução de novos consensos ao centro, só que sob as novas bases que emergiram das urnas.

Nesta direção, uma questão central que dividiu a eleição é o cansaço dos americanos em sustentar guerras, investimentos militares de proteção a países aliados no exterior - ainda que sem guerras no horizonte das respectivas regiões geopolíticas - e a exportação de empregos para a China, por exemplo.

Esta é a base que dá fôlego para retórica xenófoba. A machista, homofóbica, fundamentalista religiosa e racista é parte da disputa política que distingue (e como!) Republicanos e Democratas.

Em paralelo, o tradicional voto útil de setores da esquerda americana nos Democratas historicamente argumentavam a tese do "mal menor", apoiando a plataforma social liberal do partido, mas muito contrariados com as guerras, como um outro exemplo.

Os Democratas, assim, tem uma ótima oportunidade de fazer uma revisão de seu endosso àquelas posições, enquanto reforça na disputa (e mediação) parlamentar e social, a defesa do seu legado histórico (e de Obama) em relação ao combate ao desemprego, crescimento econômico, políticas sociais expandidas (como o Obamacare) e os direitos civis.

Trump é um presidente questionado no sistema mundial, mas pode surpreender, por exemplo, ao pacificar relações com Rússia e China. Obama, por seu governo, seu símbolo e pelo resultado eleitoral, segue sendo um líder muito forte, que pode liderar este diálogo nacional e, ao mesmo tempo, este avanço programático entre os Democratas.

Isso ajuda, inclusive, a ampliar a aliança internacional dos progressistas, pois há ainda muita desconfiança sobre o quão mesmo o Partido Democrata é diferente do Republicano, ainda mais quando se observa a partir do que se chamava de países subdesenvolvidos e/ou emergentes.

E esta aliança será imprescindível para barrar o efeito Trump no mundo, agora não mais como modelo, mas como caso de eventual sucesso para a extrema-direita convencer o planeta de que é uma alternativa de poder real.

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