As Forças Armadas e a falácia do nacionalismo

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, afirmou que há uma identificação da população com os valores das Forças Armadas e uma ânsia pelo restabelecimento da ordem. Qual ordem, general? Aquela que permite o cárcere do principal líder político brasileiro e inevitável presidente da República?

Confesso que nunca consegui entender o significado da palavra nacionalismo, sob a ótica das Forças Armadas. Para eles, tudo se resume ao papel vigilante e esquizofrênico contra uma ameaça comunista – ou em suas variantes -, que ponha em risco a família e a propriedade. Os generais aceitam calados a entrega de nossas reservas naturais (minérios, petróleo, biodiversidade) aos magnatas do capitalismo norte-americano, a "doação" de empresas públicas estratégicas para o desenvolvimento de tecnologias de ponta, como a Embraer, a corrupção desenfreada da elite rural, oligárquica e monopolista, o desmantelamento da proteção ao trabalho, a agiotagem dos banqueiros, o crime organizado encastelado nas altas rodas da sociedade, mas basta a simples perspectiva de um governo de esquerda, que rompa com essa estrutura carcomida, para se arvorarem em defensores da democracia e da Constituição.

Se fossem realmente defensores da Carta Magna de 1988, não enviariam mensagens com ameaças veladas de ruptura institucional, caso um partido de esquerda volte a ocupar novamente a presidência da República. Se fossem realmente nacionalistas, manifestariam indignação com as decisões de lesa-pátria do governo Michel Temer. Se fossem democratas, se manteriam nos limites estabelecidos pelo Estado Democrático de Direito, que não lhe atribui o poder de intervir na vontade soberana do povo.

Nesse contexto, a palavra nacionalismo só ganha alguma coerência se as Forças Armadas considerarem o Brasil uma colônia dos Estados Unidos. Será que é isso que ensinam aos alunos da Academia Militar das Agulhas Negras? Em que livros eles encontram referências que associem políticas de distribuição de renda, redução das desigualdades sociais, políticas fundiárias que democratizem o uso da terra, taxação de grandes fortunas, entre outras causas importantes para o desenvolvimento econômico e a justiça social como coisas de comunistas?

Quando olho para a base da hierarquia militar, o que vejo são soldados, cabos e sargentos vindos das favelas, dos guetos, da miséria epidêmica causada pelo capitalismo tupiniquim, onde seis abastados concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre do povo brasileiro. O resultado dessa conta desigual se percebe nas ruas, com 30 milhões de desempregados, um número igual de pessoas abaixo da linha da pobreza, o crime e a violência como únicos recursos de sobrevivência.

O comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, afirmou que há uma identificação da população com os valores das Forças Armadas e uma ânsia pelo restabelecimento da ordem. Qual ordem, general? Aquela que permite o cárcere do principal líder político brasileiro e inevitável presidente da República? Aquela que reprime as lutas sociais legítimas, como a dos caminhoneiros, depois que os milionários conseguiram diesel subsidiado, dinheiro tirado da educação e da saúde, para circularem com suas Land Rover e Amarocks? O senhor se sente confortável para falar em restabelecimento da ordem, tendo de bater continência para Michel Temer?

Me desculpe, mas até onde minha vista alcança, o que consigo enxergar no seu discurso é um comportamento servil aos interesses dos norte-americanos em assuntos internos e lesivos ao povo brasileiro. Sei que esse pensamento é fruto de um processo histórico deturpado sobre o papel das Forças Armadas, que ao longo de quase dois séculos se notabilizou pela ingerência equivocada e truculenta na política. O muro de Berlim caiu, a União Soviética foi varrida do mapa, a China de hoje não tem mais nenhum resquício maoísta, e essa cantilena de ameaça comunista sobrevive no Brasil sob qual pretexto? Quem hoje, de fato, corrói a soberania do nosso país? Espero não ser sequestrado pelo aparato de tortura e morte que vez por outra vocês montam, como confessou o ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra, por este artigo. Não sou comunista. Sou apenas um brasileiro, consciente do meu papel como cidadão, e não preciso da tutela do Exército para entender que estou do lado certo da História. Ainda dá tempo para o senhor, caso queira, também mudar de posição.

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