Atentados contra o Brasil: de Vargas a Lula (Parte 3)

"Convém mencionar, no entanto, o paralelo escandaloso entre o tiro em Lacerda e a facada em Bolsonaro: a inconsistência em torno das armas dos crimes".

Facada errada em Bolsonaro: o deus do homicida e o da vítima é o mesmo
Facada errada em Bolsonaro: o deus do homicida e o da vítima é o mesmo
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O velho barbudo, Karl Marx, escreveu que a história se repete: a primeira vez como tragédia, a segunda vez como farsa. Essa máxima é negada pelos historiadores, pois os acontecimentos da história jamais podem se repetir, de fato. Todavia, as estruturas (política, econômica, cultural e social, por exemplo) muitas vezes se mantêm intactas por longos períodos, conferindo aos eventos a aparência de repetição. Ao historiador, portanto, cabe construir hipóteses e comprová-las por meio de pesquisas e documentos que respaldem suas afirmações. Assim, se não é possível afirmar que o “atentado da rua torneleros” foi uma fraude e que as mortes de Lacerda e Jango foram, na verdade, assassinatos; se não é possível dizer que a facada contra Bolsonaro não passou de um auto atentado; se não é possível chegar às reais causas dos eventos mencionados, é inevitável e imprescindível analisar suas consequências para o Brasil e seu desenrolar para a história nacional.

Convém mencionar, no entanto, o paralelo escandaloso entre o tiro em Lacerda e a facada em Bolsonaro: a inconsistência em torno das armas dos crimes. Lacerda se recusou a entregar a arma que usava no momento do atentado, criando narrativas diferentes para o evento a cada entrevista que deu ao longo do tempo; a faca supostamente utilizada por Adélio Bispo não possuía suas digitais e foi aceita como “arma do crime” apenas pelo fato de possuir o DNA de Bolsonaro em sua lâmina, o que pode indicar que tratava-se de um objeto plantado na cena para legitimar a narrativa oficial disseminada pela grande mídia durante as eleições de 2018.

Do tiro à facada contra a soberania nacional

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O tiro no pé de Lacerda buscava pôr fim ao governo Vargas que estava calcado num projeto de soberania nacional e independência em relação aos Estados Unidos, tendo a exploração do petróleo, através da Petrobrás, como lastro para garantir essa autonomia. O governo JK manteve essa mesma linha nacional desenvolvimentista que teve em Brasília o seu principal símbolo. Acossado por Foster Dulles (representante do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América) que incitou ao Brasil que encerrasse as atividades da Petrobrás, paralisasse a construção de Brasília e combatesse o comunismo, JK respondeu: “A Petrobrás é inegociável. O petróleo é brasileiro e fundamento para a soberania nacional”; “o Brasil não pode exportar apenas matéria-prima, mas deve ser um exportador de criatividade” e “o combate ao comunismo deve ser feito acabando com a pobreza”.

Do mesmo modo, a tentativa feita por Jango, ainda em 1964, de realizar as reformas de base (agrária, urbana, politica etc) poderia representar um marco no desenvolvimento nacional, colocando fim à desigualdade social e transformando o Brasil, rapidamente, numa importante potência mundial. Exilado, Jango foi proibido de retornar ao Brasil e morreu sendo comprovadamente monitorado pela Operação Condor. A ditadura militar, efetivada pelos grupos que se comportavam (e até hoje se comportam) como lacaios dos interesses estadunidenses no Brasil a fim de manter seus privilégios de classe, assassinou os grandes líderes políticos brasileiros do período anterior a 1964 e que poderiam, através de sua grande influência popular, conduzir o Brasil à abertura democrática fora do controle das Forças Armadas e dos interesses estrangeiros. Suas mortes garantiram a continuidade da mesma ordem econômica, política e social no período pós-1988, assim como manteve inimputáveis todos os responsáveis pelos crimes da ditadura militar.

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Com a eleição de Lula, em 2002, e de Dilma, em 2010, houve uma mudança, pela via eleitoral, do caminho traçado pelos grupos dominantes. A ampliação dos direitos e a melhora nas condições de vida da população não eram mudanças estruturais mas, no longo prazo, poderiam significar inevitáveis transformações na sociedade brasileira. A utilização da Petrobrás como empresa estratégica para o desenvolvimento nacional foi reforçada a partir da descoberta dos poços do Pré-Sal. Por isso o golpe de 2016, travestido de impeachment, foi o “plot twist” na política nacional. Não demorou para a perseguição jurídica e midiática se voltar contra Lula, o principal líder desse projeto soberano, preso ilegalmente, em 2018, impedido de ser candidato à presidência, o que pavimentou o caminho para a vitória ilegítima do atual presidente. Tudo isso viabilizado pela Operação Lava Jato, com apoio da mídia, através do ex-Juiz Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol que agiram como agentes dos Estados Unidos no Brasil. Hoje já é comprovada a interferência estadunidense na política brasileira, com interesse na Petrobrás, através da “República de Curitiba”. Com a mesma bandeira de combate à corrupção, içada nos anos 1960 para derrubar Jango, a Lava Jato quebrou as empresas de engenharia do Brasil, descredibilizou o sistema político, viabilizando a chegada de Bolsonaro ao poder e o consequente desmonte da Petrobrás. 

Nesse ínterim, a facada sofrida por Bolsonaro, no contexto das eleições de 2018, se deu num momento em que as pesquisas eleitorais indicavam que ele perderia, no segundo turno, para qualquer um dos candidatos na disputa. Após o ocorrido, seus 8 segundos garantidos na televisão, através da propaganda eleitoral de seu partido, se transformaram em 24 horas de notícias que mostravam um candidato ferido e fragilizado devido ao atentado cometido por uma figura, apresentada pela grande mídia, como desequilibrada e ligada aos partidos da esquerda. Como mostrou o documentário realizado por Joaquim de Carvalho, há muitas evidências que não foram apuradas e indicam a hipótese de um auto atentado para construir um fato político que beneficiasse a candidatura de Bolsonaro.

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É possível afirmar, portanto, que o episódio da facada serviu a três propósitos: 1) martirizar Bolsonaro; 2) criminalizar a esquerda; 3) garantir sua eleição e a efetivação de um governo neoliberal, subordinado aos Estados Unidos. Do mesmo modo, é preciso lembrar que - como Jango e Lacerda – Hugo Alexandre Ribeiro, o responsável por imobilizar Adélio Bispo no momento do atentado, e Gustavo Bebianno, ex-Secretário Geral da Presidência e responsável pela campanha eleitoral, também morreram repentinamente de infarto. Não consta que qualquer um dos dois fosse cardíaco. Antes de morrer, Bebianno chegou a manifestar receio de que algo poderia lhe acontecer em razão de suas manifestações públicas a respeito do presidente e dos bastidores de sua eleição. Pode ser que a causa das mortes por infarto seja apenas uma coincidência. O que não é coincidência, de Lacerda à Bolsonaro, é o envolvimento da grande mídia (que garantiu a narrativa hegemônica), da burguesia (anti)nacional e dos liberais da direita (que mantiveram seus privilégios econômicos em relação ao restante da sociedade), e dos militares (braço armado de toda a conspiração e beneficiários dos sucessivos eventos aqui narrados). Como nos ensinou Tancredo Neves: “em política não há coincidência”.

Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Dilma Rousseff e Luís Inácio Lula da Silva não se curvaram aos interesses dos Estados Unidos e dos projetos antinacionais. Reconhecidos e admirados pelo povo, jamais aceitaram o papel de lacaios, mas se colocaram como líderes de uma nação que, por ousar ser soberana e verdadeiramente independente, entrava em rota de colisão com aqueles que conspiraram para persegui-los, difama-los e retirá-los da cena política: as forças armadas, a grande mídia, a burguesia (anti)nacional (hoje financeirizada) e a direita liberal. Estes sim, os verdadeiros inimigos do Brasil, dos brasileiros e da efetivação da democracia em nosso país.

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