Aviso prévio

De qualquer forma, não será a primeira vez que tiraríamos força de uma situação de fragilidade. Nunca se sabe o que nos reserva o amanhã. É possível que o aviso prévio repercuta em sentido contrário e invada o Palácio do Planalto com uma carga de sensatez, exigindo respeito, sem a necessidade de bater continência

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A instabilidade, enquanto fenômeno ou sensação, é algo que faz parte dos seres humanos. No plano da individualidade ou da sociedade ou da luta política, nunca sabemos o que amanhã nos trará. Quando tudo caminha bem, um golpe de má sorte, um tsunami, uma convulsão coletiva pode nos atingir e nos arrastar para a ruína. É, também, uma sensação que nos leva a produzir, encontrar meios de defesa e sistemas que nos garantam um lastro de sobrevivência e, se possível, uma realização. Fórmulas e métodos de governos têm a ver com o fato. E, entre eles, mais do que na monarquia ou na ditadura, a democracia, por força da liberdade e da discussão dos problemas, transmite a impressão de garantir, com instrumentos eficazes, a proteção individual ou coletiva. É bom saber que nossos vizinhos exercem com competência e habilidade o que a história lhes legou em termos de inteligência política. Tranquiliza. Oferece um fôlego renovador e nos estimula, igualmente, a preservar a saúde dos nossos equilíbrios de poder, prevendo malefícios e corrigindo o que pode e deve ser corrigido. O pior que nos acontecerá será copiar os erros que, eventualmente, nos conduzam ao abismo. 

A agitação nos Estados Unidos, com a contestação dos resultados eleitorais e a invasão do Capitólio para impedir a certificação de Joe Biden, repercutiu pelo que acumulamos de fé em relação às tradições e, lá, aos modos de lidar com os conflitos. Um alívio nos atingiu, quando se revelou o fracasso da insanidade e as iniciativas anunciadas contra os infratores, incluindo, se preciso, o Presidente em fim de mandato. Para os espectadores, crédulos ou incrédulos, o espetáculo da instabilidade abalava os alicerces da confiança. Pois foi num panorama assim que, como se desejasse nos publicar um aviso prévio, Jair Bolsonaro, posicionando-se contra as urnas eletrônicas, reafirmou a sua admiração por Donald Trump e “previu” os distúrbios que nos afligirão se insistirmos em nossas ferramentas para a captação dos votos. Soou como um menino rebelde que teme a derrota e não quer que a mesma o pegue de surpresa. Imagina que, por medo, e obcecados pelos fantasmas de Washington, dobremos a espinha, abrindo mão de um meio que já demonstrou ser rápido e eficaz. Deve pensar que se garante com o que faltou ao colega norte-americano: a adesão das forças armadas para a aventura quixotesca. Lá a massa supremacista e direitista teve de enfrentar a polícia e escorregou do pedestal da sua arrogância diante da força e da determinação de opinião afeita à noção da transferência do poder. “Instabilidade por aqui, não!” – parecia exclamar quem, nas circunstâncias, manteve a consciência do necessário para o bem-estar da nação.

No caso brasileiro, a tradição democrática engatinha, aos trancos e barrancos, por curto espaço de tempo. Ficamos sem saber como o povo e, sobretudo, as elites econômicas, agirão para combater a... instabilidade. Afinal, elegemos um Presidente que faz dela gato e sapato, provando a cada instante que pretende ser comandante de suas esquadras temerárias. Do quadro, não emanam eflúvios animadores. De qualquer forma, não será a primeira vez que tiraríamos força de uma situação de fragilidade. Nunca se sabe o que nos reserva o amanhã. É possível que o aviso prévio repercuta em sentido contrário e invada o Palácio do Planalto com uma carga de sensatez, exigindo respeito, sem a necessidade de bater continência.

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