Balança mas não cai

"Virou um Balança Mas não Cai e o síndico é o presidente. Os filhos são os zeladores da ordem e da faxina ideológica. As regras são aquelas que conhecemos. No condomínio não podem viver animais, índios, negros, LGBTs, esquerdistas, mulheres independentes e qualquer ser pensante", escreve o cartunista Miguel Paiva em referência ao governo Jair Bolsonaro. "Prefiro morar debaixo da ponte, quer dizer, se a ponte também não cair"

(Foto: Miguel Paiva)

A obra começa cedo. A barulheira é infernal. Todo dia alguma besteira é feita, algum tijolo cai do último andar, algum esgoto estoura, algum operário morre. Mas eles estão cons(des)truindo o país dos sonhos. Do jeito que nada que possa contestar, possa atrapalhar o projeto de arquitetura política original, contrabandeado do projeto Trump. O terreno onde o prédio está sendo construído é resultado do desmatamento desenfreado. No local havia uma floresta amazônica, índios e animais. Foi derrubada para erguer esse projeto de império fajuto. Os apartamentos são feitos com material malhado, terra misturada com cimento, cômodos apertados mas um sistema de vigilância digital à prova de hackers. A inauguração foi pomposa com cerimônia religiosa e intérprete de libras. Mas a obra continua e o prédio vai ficando feio por fora e horroroso por dentro.

Virou um Balança Mas não Cai e o síndico é o presidente. Os filhos são os zeladores da ordem e da faxina ideológica. As regras são aquelas que conhecemos. No condomínio não podem viver animais, índios, negros, LGBTs, esquerdistas, mulheres independentes e qualquer ser pensante. Nas reuniões de condomínio só fala o síndico e se alguém tiver alguma pergunta ele encerra a sessão. Tem até gente do grupo querendo se eleger para o cargo em 2022. Gente que pensa igual, portanto, o prédio vai continuar na mesma, cheio de problemas de vazamentos, infiltrações, estruturas ameaçadas, material de última, brigas entre condôminos, vagas na garagem só para os amigos e elevadores quebrados, menos o que leva até a cobertura. Os vizinhos que antes estavam gostando da novidade na região agora começam a reclamar também. O local passou a ser mal frequentado e à noite, se você não for um morcego, é perigoso sair na rua. Isso desvalorizou muito o empreendimento. 

Mas o pessoal da milícia adorou o lançamento imobiliário. É do jeito que eles gostam e se não desabar vai dar pra fazer bons negócios. Dizem até que o Queiroz está morando num dos apartamentos de fundos no décimo terceiro andar, bem na moita. Mas ele é visto na portaria batendo um papo e chupando laranja todo fim de tarde.

Como  não cabe todo mundo no edifício muita gente que ficou de fora ou que discorda da balbúrdia reinante está se organizando para tentar alguma medida. A prefeitura não conta, o edifício tem administração federal. O STF, funciona como uma espécie de fiscal de salão. O que for muito abusivo eles impedem. Ainda bem, mas até quando vamos aguentar viver assim, com um vizinho tão bizarro e com uma construção tão precária e ameaçadora? Vai ficar aquele prédio ali, no meio do nada, de um terreno baldio da democracia, cada vez mais condenado pela opinião pública e pelos organismos internacionais.

Será que valeu a pena? Será que viramos um paraíso onde ninguém rouba mais, a economia cresce, o povo está feliz e empregado nas ruas? Será? Sinceramente, você entraria para visitar esse empreendimento imobiliário? Aceitaria conhecer o mobiliado e fechar o negócio em prestações a perder de vista? Eu não. Prefiro morar debaixo da ponte, quer dizer, se a ponte também não cair.

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