Barack Obama (2008-2020), o cão que nunca foi pequeno, mas sempre foi menino

Adeus, Barackitcho. Obrigada por ter feito parte da minha vida

Por Cynara Menezes, no Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia - Ele nunca foi pequeno. Presente de um amigo, chegou em casa no final de 2008 com poucos meses de vida, mas já tinha bem uns 40 cm de altura. Logo se transformaria num cachorro enorme, com o tamanho, os olhos e o tom da pelagem que sempre me faziam lembrar um Quarto de Milha canela, sobretudo quando disparava pelo quintal. E como corria!

Os Rhodesian Ridgeback (ou Leões-da-Rodésia) podem fazer até 32km/h numa corrida. Eles se chamam assim porque, ao longo da coluna, possuem uma linha de pelos na contramão dos outros, característica da raça. “Ridge” quer dizer “crista”. Leio na Wikipedia que eles foram criados no atual Zimbábue pelo povo nômade Hottentot (ou Khoikhoi), através de cruzamentos seletivos entre cães vindos da Europa. “Um de seus ancestrais era um cão semi-selvagem (o Hottentot Dog) usado para a guarda. Acredita-se que esta raça tenha vivido no Egito Antigo, 4.000 a.C, já que cães com ‘cristas’ foram retratados em murais egípcios.”

Como o cãozinho tinha origem africana, quisemos dar a ele um nome africano. Decidimos por Barack Obama ou simplesmente Barack –o pai do então presidente eleito dos EUA era queniano. Algum tempo depois, na época do julgamento do mensalão, em 2012, vi fotos de rhodesians no gabinete do ministro do STF Ricardo Lewandowski, que me contou ser um criador e admirador destes caninos. E ele me explicou que os rhodesians são mais valorizados para cruzamento quando recebem nomes africanos… Vejam só.

Barack era tão grande que suas “brincadeiras” volta e meia machucavam alguém. Uma patada “carinhosa” era capaz de derrubar um adulto. Nos primeiros anos, ficava só no quintal, correndo feito um doido para lá e para cá. Nas poucas vezes em que nos aventuramos a levá-lo para passear na rua, era ele que nos guiava, e não nós a ele. Precisava de muita força para segurar a coleira. (Da última vez em que encontrei o ministro Lewandowski, ele me contou que um dos seus rhodesians quase o mata numa queda causada por um puxão em plena rua.)

Eu mesma, que nunca levei o menor jeito para animais, às vezes evitava ir ao quintal porque ele ficava simplesmente louco quando me via, e pulava em cima, alucinado. Com os anos, foi ficando mais tranquilinho e aceitando os carinhos na cabeça sem tanta empolgação. Quando derrubamos o murinho que separava a varanda do quintal, Barack se aproximou mais de nós e dos visitantes, convivendo junto com todos os amigos que vinham à nossa casa. A varanda virou o melhor lugar da casa para nós e para ele, que passou a dormir lá, por incrível que pareça encarapitado numa poltrona Gafanhoto, de pés-palito.

Nos últimos tempos, como se pressentisse a proximidade do fim e quisesse usufruir mais da nossa companhia, Barack começou a entrar na casa. Sempre adorou os pães que faço, e começou por colocar a cabeça na porta da sala de jantar no café da manhã, exigindo seu naco quentinho

O mais curioso é que, nos últimos tempos, como se pressentisse a proximidade do fim e quisesse usufruir mais da nossa companhia, Barack começou a entrar na casa. Ele sempre adorou os pães que eu faço, e começou por colocar a cabeça na porta da sala de jantar durante o café da manhã, exigindo seu naco quentinho. Depois, passou a entrar direto na sala de jantar. Na última noite em que estivemos juntos, entrou na cozinha e ficou deitado, me fazendo companhia enquanto eu lavava a louça. Em quase 12 anos, nunca havia feito isso.

Na manhã do dia 1º de janeiro, se aproximou de mim quando eu estava sentada no banco da varanda, pedindo carinho. Passei a mão na cabeça dele e o puxei em direção a mim. Lembro de mentalmente ter lamentado não conseguir abraçá-lo e beijá-lo, como faz uma amiga com quase todo bicho que conhece ou tem. Por que sou tão sem jeito com eles assim?

Barack era dócil, amoroso, brincalhão, um meninão. Talvez por isso eu não tenha me dado conta de que estava envelhecendo. Rhodesians vivem de 10 a 12 anos em média. Há cerca de um ano, seu andar ficou estranho, e apareceu gemendo. O veterinário deu o diagnóstico de câncer, mas nunca ficou muito claro para nós o que ele tinha. Seu crânio estava afundado do lado direito e tinha dificuldades para mastigar. As pernas de trás, antes tão fortes, pareciam cada vez mais fraquinhas. O jeito de menino, porém, não perdeu.

Há cerca de um ano, seu andar ficou estranho, e apareceu gemendo. O veterinário deu o diagnóstico de câncer, mas nunca ficou muito claro para nós o que ele tinha. As pernas de trás, antes tão fortes, pareciam cada vez mais fraquinhas. O jeito de menino, porém, não perdeu

Na tarde do dia 1º, Barack se negou a comer o pão que meu marido lhe dava com os remédios escondidos nele. Estava havia meses tomando vários comprimidos para aliviar a dor e que lhe deram uma sobrevida praticamente normal. Mas naquele momento não eram mais o suficiente, ele nos dizia com o corpanzil largado sobre o tapete da varanda, olhinhos fechados. Foi para a lateral da casa, como se estivesse se escondendo do mundo, e lá ficou, gemendo baixinho.

Decidimos levá-lo para a clínica veterinária, de onde não mais saiu. Me arrependo de não ter sabido deixá-lo morrer em casa, ao nosso lado. Eu nunca tinha perdido um bicho de estimação. Os cães que tivemos na infância foram doados quando mudamos sucessivas vezes de cidade (meu pai era bancário) e os gatos que tive quando morei em São Paulo fugiram de casa, também em mudanças. Barack é meu primeiro luto de quatro patas, e como dói… Não pensei que fosse doer tanto assim.

Eu, que nunca levei o menor jeito para animais, queria mesmo era que ele estivesse aqui para finalmente cobri-lo de beijos. Adeus, Barackitcho. Obrigada por ter feito parte da minha vida.

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