Barataria

"Ninguém aqui é a favor da corrupção, ninguém aqui é contra a Lava Jato, mas daí a dizer que ela é a esperança de acabar com a corrupção no Brasil porque está finalmente punindo a todos, grandes ou pequenos, anônimos ou famosos, doa a quem doer etc etc, com direito a capa de homem do ano para o juiz Sergio Moro vai uma distância daqui até à China", diz o colunista Alex Solnik

Brasília- DF- Brasil- 07/04/2015- O juiz federal Sérgio Moro participa de apresentação de um conjunto de medidas contra a impunidade e pela efetividade da Justiça, na sede Associação dos Juízes Federais do Brasil (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Brasília- DF- Brasil- 07/04/2015- O juiz federal Sérgio Moro participa de apresentação de um conjunto de medidas contra a impunidade e pela efetividade da Justiça, na sede Associação dos Juízes Federais do Brasil (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil) (Foto: Alex Solnik)
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Ninguém aqui é a favor da corrupção, ninguém aqui é contra a Lava Jato, mas daí a dizer que ela é a esperança de acabar com a corrupção no Brasil porque está finalmente punindo a todos, grandes ou pequenos, anônimos ou famosos, doa a quem doer etc etc, com direito a capa de homem do ano para o juiz Sergio Moro vai uma distância daqui até à China.  

  Se punição severa bastasse a corrupção já estaria extinta há muito tempo, quando seu nome era “barataria” e no primeiro conjunto de leis para puni-la, o Código Visigótico (649-672 d.C.) era reservada ao culpado pena de morte por afogamento, fogueira, soterramento, mutilação, forca ou guilhotina. O que aconteceu de lá para cá? A corrupção continuou, mas as penas foram, é claro, abrandadas (a não ser em países assumidamente cruéis). Pois constatou-se que se matava corruptos e corruptores, mas não se matava a corrupção.

   Precisa ficar claro que a Lava Jato vai acabar, no máximo, com a corrupção na Petrobrás. Não no Brasil. Essa não é a primeira, muitas vezes os brasileiros apostaram que a corrupção tinha sido varrida do mapa.  Getúlio matou-se com um tiro no coração para conter o mar de lama em que se afogava seu governo. Ele partiu, mas o mar de lama ficou. Veio o Jânio varrer com a sua vassourinha “toda a bandalheira”, mas o bandalho era ele. Ah, mas aí veio o golpe de 64 e uma das divisas era acabar com a corrupção. Acabar não acabou, mas cassou Adhemar, sem prender, no entanto. Mas escândalos financeiros de todos os calibres pipocaram durante todo o período ditatorial, tanto é que corrupção virou sinônimo de regime militar.

   Quando a ditadura acabou todo mundo relaxou, agora sim, teria fim a corrupção. Mas ela reapareceu com toda a força no governo Collor, sete anos depois da volta da democracia. Cassado Collor a nação suspirou – ufa! – agora sim, acabamos com a corrupção. Mas não acabou, é o que estamos vendo.

   A corrupção não acaba com a Lava Jato. Não acaba ao ser desmantelada uma quadrilha, essa que, no caso, se instalou na Petrobrás. Não acaba com milionários e políticos presos perpetuamente, por mais que isso  satisfaça o apetite de galeras parecidas com as que entre os romanos assistiam aos cristãos serem estraçalhados por leões famintos na arena. Não acaba porque os que a praticam terão medo de também serem punidos severamente.

   A corrupção acaba – ou diminui, porque acabar não acaba - quando toda a sociedade decide que não é por aí, que não é esse o caminho, que ele favorece alguns em detrimento da maioria, então não faz bem ao país. Enquanto a população não se der conta disso a corrupção vai ser praticada por mais Lava Jato que houver e por mais severas que sejam as punições - afogamento, fogueira, soterramento, mutilação, forca ou guilhotina.

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