Bestiário

Há uma estátua de um touro na rua, que nada mais é do que uma ode à cafonice e ao escárnio. Apressados transeuntes olham de esgueira e fingem não veem a aberração dourada a tomar-lhes o caminho. A corrida desesperada na busca por uma vaga de emprego não permite parar, nem por um minuto sequer, para ver atentamente a mais recente criação da genialidade às avessas da elite financeira brasileira

www.brasil247.com - Touro dourado instalado em frente à sede da B3, em São Paulo
Touro dourado instalado em frente à sede da B3, em São Paulo (Foto: Reprodução/Twitter)


Há uma estátua de um touro na rua, que nada mais é do que uma ode à cafonice e ao escárnio. Apressados transeuntes olham de esgueira e fingem não veem a aberração dourada a tomar-lhes o caminho. A corrida desesperada na busca por uma vaga de emprego não permite parar, nem por um minuto sequer, para ver atentamente a mais recente criação da genialidade às avessas da elite financeira brasileira. 

A estátua (todo nosso respeito a quem chama aquilo de escultura) pesa quase uma tonelada. Tem cinco metros de comprimento e, segundo a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, “simboliza o mercado financeiro e a força do povo brasileiro”. Sem dúvida, concordamos com a primeira parte da nota emitida pela Bolsa, contudo, “que representa a força do povo brasileiro” já é, como se diz no Nordeste, esticar demais a baladeira.

Diz-se que os responsáveis pelo tal touro não teriam consultado nem pedido autorização de reprodução, conforme noticiou a BBC, ao agente ou à família de Arturo Di Modica, “pai” do touro de bronze de Wall Street. A mesma BBC noticiou no dia 30 de março de 2016, que o artista holandês Florentijn Hofman acusou a FIESP de plagiar sua obra Rubber Duck (pato de borracha), exposta em São Paulo, no ano de 2008. Nada de novo sob o sol. Para quem não lembra, o tal do pato era o símbolo máximo da campanha “Não vou pagar o pato”. Desde lá, já sabíamos muito bem que seriamos nós, o povo brasileiro, a pagar o pato. Hoje, não só pagamos o pato, mas o touro, as mansões, as “motociatas”, as viagens de turismo para Dubai, as farras nos aviões da FAB etc e tal. E põe etc nisso!

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No país onde abundam cidadãos de bem, e a honestidade sai pelo ladrão, as acusações de plágio devem ser apenas inveja daqueles que não se esforçaram bastante para criar suas próprias “obras de arte” nem vencer na vida. No mais, enquanto o touro da B3 dormia, sem a menor preocupação de acordar de sonhos intranquilos, alguém foi lá (provavelmente um comunista) e colou à pele cor de ouro do touro um pequeno cartaz onde se lia a palavra “fome”. Onde já se viu! Como se o povo brasileiro estivesse comendo osso, vísceras de peixe e carcaça de frango.

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No dia seguinte, o animal de fibra de vidro foi ferrado com a frase “taxar os ricos”, como forma de denunciar a desigualdade social e a miséria que tomou conta do país; o que pode muito bem ser resumido na imagem que circula na Internet, na qual o/a fotógrafo(a) capturou, lado a lado, o touro e um catador de recicláveis, tal qual um centauro urbano, puxando seu carrinho de geladeira. Eis o paradoxo de uma nação!

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Neste bestiário, eis que ressurge a figura do marreco que, com o apoio que sempre teve da mídia corporativa e seus jornalistas de cativeiro, deseja mais que cinco minutos de fama. Por sua vez, do oriente Médio, especificamente do Catar, tem-se notícias do avistamento do Basilisco, o que nos faz recorrer a Jorge Luis Borges, quando em O livro dos seres imaginários (1974), diz que o Basilisco se modifica no decorrer das eras, crescendo em fealdade e horror. O que não muda é a virtude mortífera do seu olhar.A seus pés, continua Borges, caem mortos os pássaros e apodrecem os frutos; a água dos rios em que sacia a sede fica envenenada durante séculos. Em acréscimo, pode-se também afirmar que sua existência persegue e extermina povos ancestrais, incendeia as florestas, envenena a terra e transforma gente sadia em miseráveis. Em seu romance O Basilisco, Quevedo escreveu: “Se está vivo quem te viu, / Toda tua história é mentira / Pois se não morreu, te ignora, / E se morreu não o afirma”. O Basilisco só pode ser fulminado pela própria imagem, pois não suporta ver a si mesmo refletido em espelhos. O Basilisco gosta de desertos. Há um imenso deserto árido no Catar. Esse Borges escrevia cada coisa!

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