Biden, as eleições e a esquerda no Brasil

Não devemos esquecer que, dado o grau de interpelação econômica no mundo globalizado, o elemento externo pode, sim, influir no elemento interno

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Durante o episódio do atentado às Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova Iorque, o psicanalista Contardo Calligaris, então cronista da Folha de São Paulo, afirmou que estava fora de moda ser anti-americano. E que os críticos dos Estados Unidos estavam dominados por um sentimento de inveja do padrão de vida dos americanos do Norte. Por mais engenhosa que seja a análise de Calligaris, é inegável que o país ianque foi quem mais colaborou para a crítica à sua política externa, tanto quanto à política relacionada ao meio-ambiente, aos direitos humanos e aos imigrantes pobres do chamado “terceiro mundo”. 

Se se pode afirmar que a globalização fala a língua anglosaxã e é marcada pela livre circulação de bens, serviços e capitais oriundos da grande nação do norte, não há dúvida também de que muito dos malefícios em escala global tem a ver com o governo americano e suas empresas multinacionais. Assim, falar criticamente dos EUA, não é um mero exercício de inveja ou má-vontade. Sobretudo quando os problemas são reconhecidos por cidadãos e cidadãs americanas, como Gore Vidal, Susan Sontag, Sean Penn e outros.

Comentar a vitória de Joe Biden sobre o tresloucado Donald Trump tem uma importância geopolítica grande, porque há nuances que distinguem a política dos democratas e a dos republicanos. Num sistema político bipartidário e de eleições indiretas – como o americano – não há muita margem para inovações. Os partidos mantém um consenso básico sobre a ordem liberal-democrática e capitalista. Mas se diferenciam um pouco na política externa, na questão dos impostos, na proteção do meio ambiente e dos direitos humanos.

No que diz respeito ao resto do mundo, o governo americano tem sido pragmático. Defende os interesses dos cidadãos americanos e das grandes empresas e bancos. Neste aspecto, são muito preocupados em garantir e viabilizar o “american way life”, às custas das relações privilegiadíssimas que mantém com as demais nações. 

O problema da gestão de Donald Trump no quesito das relações internacionais é a questão do isolamento político dos EUA e a preservação de parcerias geopolíticas fundamentais, frente a países como a China, a Rússia, o Iran e a Coreia. Interessa muito a Washington manter ou ampliar essas parcerias para a promoção da hegemonia norte-americana no mundo.

 É aí onde entra o Brasil. Qual a importância geopolítica de nosso país na política americana global? – Desde a independência, nós gravitamos no espaço dos negócios e interesses estratégicos dos americanos. Eles foram os primeiros a reconhecerem a nossa independência. Rui Barbosa foi enviado aos EUA para copiar o modelo da constituição americana para a nossa República Federativa do Brasil. Temos orbitado em torno do país do norte durante a vida inteira. Foi o nosso maior parceiro comercial, hoje ameaçado pela China.

Em poucos e breves momentos, esboçamos um modelo de política externa independente e um comércio multilateral. Tivemos a idéia de ajudar no processo de integração latino-americana e fomos parceiros da “revolução bolivariana”. Parecia que seriamos um “global play” nessa nova ordem internacional. Aí veio o retrocesso. O desmonte da política interna e externa: e nossa submissão incondicional ao governo ultraliberal e conservador de Donald Trump. Ora, a vitória de Joe Biden muda sim esse cenário. Ele pode contribuir para o isolamento e sansões econômicas e comerciais do governo de Bolsonaro. 

Há divergências em algumas questões específicas (meio ambiente, direitos humanos, políticas de ação afirmativa) e é preciso saber trabalhar, sem sectarismo, o específico dessas questões. Restabelecer a autonomia da política externa, o comércio multilateral, a integração latino-americana, a política pacifista e voltada para a mediação dos conflitos.

 Mesmo se colocando no campo da esquerda ou centro-esquerda, é viável extrair as possibilidades dessa mudança de conjuntura internacional. Claro que a nossa prioridade é a política interna e sua evolução. Mas não devemos esquecer que, dado o grau de interpelação econômica no mundo globalizado, o elemento externo pode, sim, influir no elemento interno. 

Como diria o velho Lenin, se a Rússia não fosse um elo da cadeia imperialista do Ocidente, não teria sido possível a revolução de Outubro. Que fique, pois, essa lição.

 

 

 

 

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