Bolsonarismo: a maldade que (se) justifica pela cognição...[1]

... melhor dizendo: pela cognição em seu aspecto bruto que é carregado com o ser humano nos seus primórdios

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... melhor dizendo: pela cognição em seu aspecto bruto que é carregado com o ser humano nos seus primórdios e cuja urgência existencial requer forte investimento educativo, ou a educação nos seus múltiplos arquétipos, a saber: i) a sensitivo-emocional; ii) a ético-civilizatória; iii) a formal-política; iv) a empático-social. Somente um trabalho e intra-trabalho[2] de educação rigoroso transforma o humano “bruto”, um animal como outro qualquer, num ser frugal, prudente, respeitoso...

Dito isto, o Bolsonarismo[3] não é exatamente uma doença; entretanto, a ausência de educação. E neste caso, há uma culpa geracional, institucional e política.

São séculos de uma (atrasada) mentalidade colonizada, feita sob jugo e domínio autoritário, com pouco ou nada de espaços democráticos, isto é, de uma pedagogia democratizadora[4]. E nestes séculos, as forças hegemônicas do Estado foram sendo forjadas para servir a um conjunto de castas, a proteger os interesses desta hegemonia, do pensamento único e sectário; da riqueza expropriada e jamais partilhada; e da construção de uma estrutura serviente – como nação. Isto, portanto, consolidou-se numa política de chancela, manutenção e reiteração deste modelo civilizatório grotesco, apequenado e mesquinho.

Receio ter de reformar alguns de meus pensamentos, todavia, o Bolsonarismo não é somente a ausência de uma cognição política, ou a cognição social enviesada. Entretanto, é a própria natureza humana estacionada no espaço-tempo da existência e distribuída pela sociedade brasileira.

O Bolsonarismo é caótico! É intolerante! É esburacado! É frágil! É egoísta! É (do) mal, mas é especialmente o que temos de pior na natureza humana: o seu começo cru, sem aprendizado para que nos tornemos humanos, de fato. Portanto, o Bolsonarismo é desumano, ou habita o pré-humano, melhor dizendo.

Existem um sem-número de teorias filosóficas que se pretendem compreender o ser humano em suas infindáveis possibilidades existenciais e sociológicas. Não me atrevo aqui a explicar nenhuma delas. No entanto, vale-nos o respeito epistemológico comparativo ao que John Locke chamou por “Tábula Rasa”. Isto é, o ser humano ao nascer é como uma folha em branco, todavia, dotado de competências que, chocadas com a experiência (a realidade fática) faz com que adquira conhecimento. As ideias, para Locke, são a matéria do conhecimento e sua manifestação surge do empírico. Muito embora isso não negue a capacidade cognitiva do ser humano, permite dizer que ela por si só não forja o humano pleno, digamos assim.

Partindo desta inquietação inaugural, elaboro um esquema para melhor sistematizar o que gostaria com este texto. Senão, vejamos.

O ser humano é uma pedra bruta (pré-humano) rolando abaixo a montanha da existência (o viver). Algo sem qualquer controle intrínseco, contudo, fabricando seus “freios”, forjado durante a descida, para somente aí tornar-se um “Humano Líquido” (o que há de melhor em cada sujeito).

Mas o que chamo por “freios”[5]? Permita-me apresentar isso no fluxograma abaixo:

fluxograma

Extraídas acepções deste fluxograma, gostaria de não explorar todas as teses nele jorradas, entretanto, fixar, para este primeiro texto, apenas as vertentes sobre o que “É bom?” e o que “É mau?” do/no ser humano. Veja. Estes dias, minha filha (bebê) e eu, deitados na capa para coloca-la para dormir, começou a me dar pesadas no rosto. E repetia os gestos. E ria. Eu tentava me esquivar dos “golpes” aplicados, todavia, observava com singeleza a inocência e a diversão de minha criança. Ela não tinha noção de que aquilo de alguma forma era uma agressão e que, em certa medida doía em mim. Ele ainda não sabia o que era “bom”, ou “mau”.

Enfim, não é minha filha o objeto de nossa investigação, propriamente dito. Todavia, o exemplo da vida real me fará explicar melhor o que percebo no intrínseco de todos nós, humanos, em nossa concepção. Sim: não somos maus. Não: não somos bons. Tornamo-nos bons ou maus a partir do legado de nossas experiências, sobretudo, a partir de um processo de aprendizagem, intuitiva ou estimulada, socialmente construída, ou individualmente adquirida. É, portanto, a educação o vetor de transformação do(s) humano(s) em alguém bom, ou mau[6]. E a ambiência cognitiva, associada a uma dedicação maior ou menor, algumas competências éticas e estéticas, devotam a este humano (ou pré-humano) uma constituição melhor otimizada, para um lado ou outro. Até lá, apenas fazemos coisas más pelo instinto, buscando a sobrevivência. E o inverso (o bem) também é verdadeiro.

Neste sentido, aplicando o método aos seguidores implacáveis de Bolsonaro, esses humanos extremistas da nova “religião” chamada “Bolsonarismo” que praticam o mal e a intolerância; a arrogância e a hipocrisia; a negação do outro humano e o reducionismo inteligível-cultural, podemos perfeitamente dizer que eles não optaram pura e simplesmente por serem isto aí; são, na verdade um “produto” da falta de cognição sensível, de educação integral à constituição do sujeito, ou do humano líquido. 

Em suma, com o tempo [de educação], “ser bom”, ou “ser mau” é uma mera questão estética. Não está na ordem da pedra bruta humana, porém, de seu parâmetro estético. E chego a duvidar se habita o campo do prazer ou da energia necessárias ao ser humano. A educação – e não é um clichê avocando Paulo Freire – é libertadora. Ela nos resgata do “mal” e do “bem” e nos configura em HUMANOS, porque nossa condição essencial é, finalmente, ser... humano(s).

Por conseguinte, o conhecimento, neste caso, não é o mero saber “coisas”, todavia, a própria condição humanizadora, humanizante[7]. A educação (por seus arquétipos ora distribuídos) é o duto por que passa o conhecimento e significa o pré-humano em humano.

Por favor, ao concluir essa primeira etapa do trabalho aqui, peço que não veja este texto como uma justificativa ao mal praticado por quem quer que seja. Ninguém está autorizado a fazer o mal, a praticar a intolerância, a ser desrespeitoso. É abominável essa prática e injustificável. Contudo, o texto é para servir aos (já) lúcidos, aos (já) educados: precisa-se instituir uma política, uma estratégia de educação integral, composto e não menos desprezível à constituição do(s) sujeito(s). Quando ignoramos isso, estamos também a ignorar a própria lógica de constituição da sociedade. 

Não é compatível à configuração de um novo conteúdo civilizatório ao Brasil se, primeiro, não percebermos a lacuna deixada por nossos líderes lúcidos e educados (nessa premissa) a partir da não-implementação de uma política com esse viés; segundo, implementarmo-la e aplica-la, em si.

Este é tão somente um texto de diagnóstico e problematização. Cabe a quem lê-lo extrair o que for útil para lutar melhor qualificado pelo fim rápido deste mal contemporâneo estabelecido pelo Bolsonarismo e prevenir quaisquer outras formas de fascismo, ou mesmo de maus menores, contudo, revestidos de conteúdo anti-civilizatório, antiético e antiestético para nosso querido Brasil. 

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[1] Este texto na verdade é parte de uma hipótese que estou a apresentar que fará parte de um compêndio de ideias que avoca a constituição do “Humano Líquido”.

[2] Quero apenas me referir ao trabalho que realizamos em nós mesmos, uma visitação permanente no fluxo cognitivo individual para [re]ordenamento mental. Na tríade de Freud, a navegação pelo “Ego” (personalidade), pelo “Id” (desejos) e pelo “Superego” (auto-regulador), adquirindo capacidades interpretativas e aplicáveis ao “Ethos”, isto é, ao modo ser de cada sujeito perante à sociedade, seu caráter.

Sugiro, adicionalmente, o desenvolvimento individual a partir da permanente auto-pergunta: “Onde estou no percurso da evolução?”. 

Nos conselhos de nossos pais, sem qualquer epistemologia, mas carregada de sabedoria, simplesmente assim: “você precisa aprender com seus erros, menino, e não repeti-los mais!”.

Embora seja complicado aplicar a régua para o que venha a ser “ERRO”, por oposição óbvia, ao “ACERTO”, essa é a essência de significação humana. Dar consciência a isso é o grande desafio.

[3] Bolsonarismo, em linha bem geral, podemos chamar a tendência contemporânea atribuída aos seguidores mais exagerados do atual Presidente da República, Jair Bolsonaro. O que antes poderia ser tratado como um apoiamento normal, a partir da personalidade construída do líder, passou a se comportar como um extremismo ideológico, com métodos próprios e rigidez de devoção fundamentalista e fascista.

[4] Um neologismo que apresento para se pensar uma corrente com vistas à educação para a democracia e para a cidadania.

[5] “Freio” nada mais é que a CULTURA, todavia, estabelecida pelos fluxos educacionais de aprendizagens múltiplas. Isto que nos difere dos demais “bichos”: a capacidade de aprender e apreender cultura(s).

[6] Muito embora, ninguém “seja/esteja” somente bom, ou somente mal o tempo inteiro, oscilando mais ou menos acepção para um lado, conforme: i) criação (educação); ii) tendência (competências intrínsecas); e iii) escolhas (auto-deliberação ética).

[7] Não é nossa pretensão reiterar a metafísica do conhecimento em Aristóteles, ou mesmo em Descartes, para os quais, o conhecimento é o todo, a plenitude do ser, na primeira acepção, e a razão, a condição da própria existência, para o segundo teórico. Contudo, nossa proposta caminha ladeando a estrada destes filósofos, embora, fazendo um recorte mais sistematizado no sujeito sociológico, isto é, o que, da significação e ressignificação do ser o transporta para a experiência social e suas interlocuções?

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