Bolsonaro chega ao abismo da História

"Em minoria junto aos brasileiros, como indica recente pesquisa de opinião publicada pelo El País, tratado com distanciamento pelos comandantes militares atacados pelo guru pornógrafo, Bolsonaro tenta se descolar de manifestação anti-democrática que ele mesmo estimulou", escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia. "Depois de avalizar a fracassada operação Guaidó, na Venezuela, presidente deveria aprender a lição, respeitar a auto-determinação dos povos e calar a boca sobre eleições na Argentina"

Bolsonaro chega ao abismo da História
Bolsonaro chega ao abismo da História (Foto: Ricardo Moraes (Reuters))

Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia - No quinto mês do governo Bolsonaro, é fácil reconhecer que a democracia está sendo empurrada a um dos mais profundos abismos de nossa História.

Na sequência de um tenebroso documento distribuído pelo presidente da República, no qual se define a "ruptura institucional" como uma "hipótese nuclear", "irreversível, com desfecho  imprevisível", o próximo domingo, 26 de maio, é um dos pontos de passagem do período.

Tudo indica que a mobilização irá confirmar a fragilidade desorientada  dos movimentos interessados em estimular uma saída de inspiração fascista -- a palavra é essa -- diante do desmoronamento de um governo em minoria em seu próprio país, como apontam a mais recente pesquisa de opinião, Atlas Politico, publicada pelo El País: 28,6% dos brasileiros aprovam seu governo, enquanto 36,2% desaprovam. 

Depois de estimular a manifestação, como reação ao gigantesco  protesto de 15 de maio,  mobilização com base em reivindicações legítimas em defesa do ensino público, Bolsonaro anuncia que não irá participar do dia 26.

Considerando tantas mudanças de ideia que marcam seu curto mandato presidencial, é prudente aguardar para ver.   

A simpatia inicial diante de uma mobilização dessa natureza,  essencialmente contrária a Constituição e ao regime democrático, é sintoma de uma doença grave, porém.  

Isso porque ela representa um novo esforço de enfraquecimento das instituições, que há anos vem sendo dobradas por ataques duríssimos, como a deposição de Dilma, -- sem crime de responsabilidade -- e a prisão de Lula por "objeto indeterminado". É uma sequência, a continuidade na já duvidosa  glorificação de Sérgio Moro e da Lava Jato.  

Resignados diante da impossibilidade  de tutelar Bolsonaro e o núcleo palaciano, os comandantes militares, que assumiram os principais cargos e maiores responsabilidades na tomada de decisões na fase final da campanha eleitoral, já se descolaram do governo, como sintetizou o ex-ministro da Defesa Aldo Rebelo em entrevista a TV 247 (17/5/2019).

Não jogam contra Bolsonaro mas evitam  comprometer-se com ele. Também não se animam com os movimentos do vice Mourão, que tem exibido um comportamento considerado deslumbrado demais diante da gravidade da hora.

Mesmo alvejado pelo guru pornográfico e outros aliados do mictório palaciano, que cobiçam a totalidade da área de comunicação sob seus cuidados, mas temem a liderança de tropa conquistada no Haiti e no Congo, o ministro Santos Cruz foi preservado. Ha informação é que sua carta de demissão chegou a ser escrita, numa decisão que, se fosse consumada, poderia desencadear uma renúncia coletiva dos ministros fardados, hipótese captada e sugerida por articulistas de cabeceira do governo, que escrevem nos dois jornais tradicionais de São Paulo. Incluído na delegação que foi a Dallas com Bolsonaro, como uma forma de lhe dar prestígio, hoje Santos Cruz tira fotos sorridentes  com lideranças da bancada evangélica que há pouco faziam tiro-ao-alvo com sua reputação.  

Neste ambiente, há uma mudança na paisagem externa.

Vista como paisagem favorável no momento da posse de Bolsonaro, a tal ponto que permitiu a Ernesto Araújo anunciar bravatas intervencionistas contra Nicolas Maduro, há uma mudança em curso na conjuntura sul-americana. A campanha eleitoral argentina confirma o favoritismo de uma chapa com Cristina Kirchner, mesmo de vice.

Depois do recente fiasco da Operação Guaidó, o mais que possível retorno do peronismo ao governo representa uma alteração ainda maior na região. Mesmo sem as imensas reservas de petróleo venezuelano, a Argentina possui um peso econômico e diplomático respeitável, único, na região, superado apenas pelo Brasil. Na geopolítica, ocupa  uma posição decisiva no Atlântico Sul, de importância estratégica mundial.

Mais de uma vez, Bolsonaro chegou a falar, em tom de quem assopra apito de guarda noturno, sobre um possível retorno do peronismo a Casa Rosada. Os desastres recentes indicam que deveria ficar calado e respeitar o direito de auto-determinação do povo argentino.

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