Bolsonaro e a memória do Holocausto

"Apresentação de Jair Bolsonaro na Hebraica ilustra a contradição de lideranças que cultivam - com toda justiça - a memória das atrocidades do Holocausto nazista, mas partilham o mesmo campo ideológico de forças que representam a intolerância e a opressão mais selvagem de nossa época", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247; "Os elogios frequentes de Bolsonaro a Carlos Alberto Ustra, o coronel que se tornou o símbolo da tortura do regime militar, ofendem a memória de todos os brasileiros, inclusive cidadãos judeus que participaram da resistência a ditadura. Um deles, Chael Charles Schereier, participava da direção de uma organização armada ao lado de Dilma Rousseff", lembra o jornalista

"Apresentação de Jair Bolsonaro na Hebraica ilustra a contradição de lideranças que cultivam - com toda justiça - a memória das atrocidades do Holocausto nazista, mas partilham o mesmo campo ideológico de forças que representam a intolerância e a opressão mais selvagem de nossa época", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247; "Os elogios frequentes de Bolsonaro a Carlos Alberto Ustra, o coronel que se tornou o símbolo da tortura do regime militar, ofendem a memória de todos os brasileiros, inclusive cidadãos judeus que participaram da resistência a ditadura. Um deles, Chael Charles Schereier, participava da direção de uma organização armada ao lado de Dilma Rousseff", lembra o jornalista
"Apresentação de Jair Bolsonaro na Hebraica ilustra a contradição de lideranças que cultivam - com toda justiça - a memória das atrocidades do Holocausto nazista, mas partilham o mesmo campo ideológico de forças que representam a intolerância e a opressão mais selvagem de nossa época", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247; "Os elogios frequentes de Bolsonaro a Carlos Alberto Ustra, o coronel que se tornou o símbolo da tortura do regime militar, ofendem a memória de todos os brasileiros, inclusive cidadãos judeus que participaram da resistência a ditadura. Um deles, Chael Charles Schereier, participava da direção de uma organização armada ao lado de Dilma Rousseff", lembra o jornalista (Foto: Paulo Moreira Leite)

A presença de Jair Bolsonaro na Hebraica do Rio de Janeiro, onde produziu um espetáculo deprimente e previsível, ilustra a contradição que enfrentam determinadas lideranças da comunidade judaica no atual momento da evolução humana.

Ao mesmo tempo em que prezam -- com toda razão -- a memória das 6 milhões de vítimas do Holocausto nazista, partilham o mesmo campo ideológico de forças a que representam a intolerância e a violência contra populações discriminadas e oprimidas de nossa época.

Nascido em 1948 como um gesto de pacificação e reconhecimento das Nações Unidas, a política atual do Estado de Israel é dominada por Bolsonaros locais, que cultivam um programa de agressão e exclusão diante da população palestina.

Esta política tem sido condenada por sucessivas resoluções da ONU, pois contraria o espírito de concórdia que permitiu a partilha da antiga Palestina. 

O principal aliado do primeiro-ministro Benjamin Nethanyahu, no campo externo, é o governo de Donald Trump, cuja postura reacionária em relação a direitos humanos dispensa comentários.

Numa medida insólita, mas significativa, antes mesmo de tomar posse na Casa Branca Trump fez questão de anunciar a decisão de rever uma decisão de Barack Obama, que havia mandado a representação dos EUA abster-se numa votação Conselho de Segurança da ONU, num gesto simbólico que permitiu a aprovar  uma moção que condenava a política do governo de Israel. A decisão ajudou Trump a cultivar o apoio do grupo de pressão que atua a favor do governo israelense em Washington, onde exibe uma musculatura só inferior à dos aliados da indústria de armas.

As homenagens frequentes de Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra envergonham brasileiros que prezam os valores democráticas e honram a memória histórica. Mas são previsíveis, num dos raros países da América do Sul que não foi capaz de julgar nem condenar responsáveis pela tortura, da qual Ustra tornou-se o símbolo mais visível, embora nem de longe fosse o único responsável.

Entre as muitas vítimas de um massacre covarde e impune, dois judeus se tornaram personagens mais conhecidos.

O jornalista Vladimir Herzog, que foi diretor da TV Cultura, morto em 1975. Chael Charles Schereir foi morto em 1969, no Rio de Janeiro. Com o nome de guerra de "Joaquim", Chael participava da direção da organização armada Var-Palmares, da qual fazia parte Dilma Rousseff. A reação de brasileiros -- judeus ou não -- a morte de Chael foi um marco pioneiro da resistência na fase mais bruta da ditadura. Ele foi a primeira execução depois do AI-5, que soltou as feras do aparato repressivo. A indignação diante da morte de Herzog, onde o rabino Henry Sobel desempenhou um papel essencial, apressou o fim da ditadura. É um marco na história do país.

Mas não é só. Uma primeira versão desta nota já fora publicada quando militantes da luta pelos direitos humanos -- essa bandeira que Bolsonaro já definiu como coisa "de bandido"--  tiveram a gentileza de lembrar este blogueiro sobre a tragédia de duas mulheres judias que, lutaram contra a ditadura, e foram vítimas da covardia que o palestrante da Hebraica tanto elogiou. Uma delas foi Iara Iavelberg, perseguida de modo implacável na Bahia, quando o porão estava atrás de seu marido, Carlos Lamarca. Personagem central da obra-prima "K", de Bernardo Kucinsky, a professora da USP Ana Rosa Kucinsky foi sequestrada, torturada e morta na célebre casa de Petrópolis, matadouro humano usado para eliminar lutadores que condenados ao extermínio e ao desaparecimento.  

Com um discurso que não passa de uma colagem de insultos à condição humana, Bolsonaro não é apenas conservador, ou reacionário -- opção possível em toda sociedade democrática. É uma máquina de produzir ofensas à humanidade.

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