Bolsonaro envergonha o Brasil na ONU

Um discurso vazio, oco e movido pelo ódio destruiu um dos momentos mais importantes da projeção internacional que o Brasil tradicionalmente possui na Assembleia Geral da ONU

Bolsonaro discursa na Assembleia Geral da ONU
Bolsonaro discursa na Assembleia Geral da ONU (Foto: Carolina Antunes/PR)
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Um discurso vazio, oco e movido pelo ódio destruiu um dos momentos mais importantes da projeção internacional que o Brasil tradicionalmente possui na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York. O posto de destaque ocupado pelo nosso país, responsável pelo discurso de abertura do encontro, foi fortemente maculado na manhã de hoje após a fala do presidente Jair Bolsonaro. 

Em pouco mais de 30 minutos, Bolsonaro perdeu a chance de apaziguar ânimos e conter conflitos diplomáticos que se sucedem nesses nove meses de governo. Era a chance que tínhamos para apresentar ao mundo o interesse em parcerias com líderes internacionais. Mas o ódio, mais uma vez, falou mais alto. A crise econômica sentida por milhões de brasileiros país afora perdeu espaço para ataques sem nexo. 

Bolsonaro não falou para o mundo, muito menos para as autoridades ali presentes. Bolsonaro falou para o próprio eleitorado. Uma legião de indivíduos que, cegamente, recusam-se a enxergar que ataques rasos não constroem mandatos e não valorizam a dignidade de milhões de brasileiras e brasileiros que merecem emprego digno, saúde de qualidade e educação eficaz. Perdeu-se em críticas a uma guerra imaginária ao “socialismo” e em ataques desnecessários a países como Venezuela e Cuba. Faltou coragem para encarar a França de frente, mas coragem não é, definitivamente, atributo de quem falta com a verdade. 

Seus eleitores podem até achar que tiveram seus interesses ali preservados, mas a grande verdade é que o Brasil não sai vitorioso após uma fala que não reconhece os problemas vividos por um país que enfrenta a crise econômica. A população não vê investimentos em áreas como saúde, educação e proteção ambiental. O discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU era a ocasião perfeita para “limpar a barra” do país em uma das questões mais relevantes para a validação do acordo entre União Europeia e Mercosul. 

Mas não. Ao invés de anunciar investimentos em proteção florestal e reconhecer que o País falha ao recusar ajuda externa para proteger o meio ambiente, Bolsonaro impressiona negativamente o mundo com picuinhas que só colaboram com o isolamento diplomático que enfraquece as relações do Brasil com o mundo. A ausência de evidências e as palavras pautadas em achismos nos envergonha mundialmente.

A polarização como efeito de um discurso que ataca indígenas, idolatra a supremacia norte-americana e minimiza a contribuição positiva de centenas de cubanos que participaram do Mais Médicos só escurece a mancha que o Brasil carrega desde que a ultra-direita subiu ao poder. Bolsonaro é o presidente das contradições. Estufa o peito para dizer que protege indígenas, mas defende um governo com políticas que desmerecem as minorias. Ofende o programa que levou qualidade de vida à população que não tinha atenção médica, mas nada fez pela saúde pública no Brasil até agora. 

Ver exagero na cobertura midiática sobre os incêndios na Amazônia e minimizar constatações de que a floresta é o “pulmão do mundo” não nos ajuda em nada. Só fortalece, entre os líderes mundiais, a certeza de que o Brasil enfrenta um dos períodos mais sombrios de sua história. Não há troféu quando o tom beligerante camufla o congelamento de bolsas que favoreceriam o desenvolvimento científico e tecnológico do País. Não há triunfo quando cerca de 13 milhões de desempregados poderiam usufruir de parcerias que poderiam nascer a partir de um discurso pacífico. 

A verdade é que o discurso assistido por milhões de pessoas, hoje pela manhã, fechou portas. O dólar voltou a subir, o índice iBovespa caiu e a ausência de segurança para investidores internacionais voltou a despencar. Quando se mergulha em polêmicas desnecessárias, cria-se uma espaço para um acerto de contas irreal que desmerece as necessidades efetivas do nosso povo. Bolsonaro não manteve a boa imagem de país conciliador construída a duras penas ao longo de governos democráticos. 

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