Bolsonaro foi abandonado. É a hora da trégua

"É hora da trégua com aqueles que tentaram enxergar Bolsonaro no poder caminhando para o centro, mesmo que arrastando seu pesado histórico de atleta do submundo da política e seus vínculos com milicianos", defende o jornalista Moisés Mendes

Jair Bolsonaro sozinho no Palácio do Alvorada
Jair Bolsonaro sozinho no Palácio do Alvorada (Foto: Twitter/EmirSader)
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Por Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia 

Chegou o momento de tentar uma reaproximação com os que, por antipetismo, anticomunismo e antitudo, votaram em Bolsonaro e se arrependeram. É hora da trégua com aqueles que tentaram enxergar Bolsonaro no poder caminhando para o centro, mesmo que arrastando seu pesado histórico de atleta do submundo da política e seus vínculos com milicianos.

Esse eleitor arrependido já é maioria entre os que elegeram Bolsonaro. Ressentimentos e traumas familiares, entre colegas, amigos, vizinhos e conhecidos retardam a reaproximação com os que se extraviaram na eleição de 2018. É compreensível que seja assim.

Apostaram em Bolsonaro como uma saída antissistema para desalentos, medos, o receio da competição de status e mercado de trabalho com a classe C ascendente e outros fatores. Eram temores reais, diante da inexistência de opções ao centro, e eram também desculpas.

Bolsonaro foi no governo o que se sabe que seria. A pesquisa do Datafolha da semana passada acaba nos dizendo o seguinte: parem de brigar com os que votaram no sujeito e que não pretendem votar mais.

Bruno Boghossian, jornalista e cientista político, fez na Folha esse resumo do que aparece na pesquisa, a partir da principal informação: a desistência de 51% que não pretendem repetir o erro. Eis parte do resumo:

1. Nem metade dos eleitores que declaram ter votado em Bolsonaro no segundo turno da última eleição admite apoiá-lo no primeiro turno do ano que vem. Nesse grupo, ele teria 49% dos votos, enquanto os demais se dividiriam entre Lula (17%), Sergio Moro (9%) e outros candidatos.

2. Para comparação, eleitores de Fernando Haddad no segundo turno de 2018 escolheriam majoritariamente Lula no primeiro turno: 72%. Ciro Gomes receberia 8% e outros nomes teriam menos de 5% cada um.

3. Numa das simulações de segundo turno, 65% dos entrevistados desse grupo (que votou em Bolsonaro) repetiriam a opção pelo presidente, mas 24% escolheriam Lula, e 9% votariam em branco ou nulo. Outros 2% disseram não saber o que fariam.

4. Como esperado, os bolsonaristas confessos rejeitam Lula consideravelmente: 62% deles dizem que não votariam no petista de jeito nenhum. Apesar disso, 24% deles também responderam que se recusam a apoiar a reeleição do atual presidente.

Esse detalhe é importante. O que Bruno Boghossian enfatiza é que o abandono de Bolsonaro não se dá só pelos seus eleitores eventuais, mas também por bolsonaristas.

O eleitor se deu conta de que errou e vai mudar. Muitos são tucanos perdidos. O jornalista se concentra na possível migração do eleitor que votou em Bolsonaro. Mas a mesma pesquisa acrescenta muito mais.

Vamos relembrar alguns dados relevantes da amostragem, que sustentam as motivações para os arrependimentos. Para 58% dos brasileiros, Bolsonaro não tem condições de continuar governando o país. Apenas 36% entendem que ele ainda tem condições.

Outras conclusões do Datafolha. São hoje 49% os eleitores que concordam que Bolsonaro deve sofrer impeachment (46% acham que não deve).

Além disso 50% dizem nunca confiar nas declarações do sujeito, enquanto 34% dizem acreditar às vezes e apenas 14% responderam que acreditam sempre.

Bolsonaro acabou para o eleitor médio e está a caminho do abandono pelos empresários. Ficará apenas com o agronegócio, os grileiros da Amazônia, o Centrão alugado e os milicianos. Ele e a família não sabem até onde vai a instável fidelidade dos militares. E os estragos da CPI do Genocídio ainda nem começaram.

Há uma debandada. Mas é hora de parar de brigar com quem admite que votou errado. Se não admitisse, a pesquisa do Datafolha não teria esses resultados.

Comecem chamando aquele tio pelo telefone. Não usem o Whats. Falem, conversem, cedam, entendam, acolham e proponham o armistício.

Quando todos estiverem vacinados, façam um churrasco ou um café da tarde com aquela cuca histórica que sempre integrou a família e que reaviva laços e afetos. Se não der certo, façam uma guerra de cucas, mas tentem.

Chegou. Vamos tentar voltar ao normal. A extrema direita perdeu. E a maioria de nossos parentes, colegas, amigos e conhecidos não é de extrema direita.

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