Bolsonaro governa em coalizão. Com os filhos

"Ao chegar ao poder, Jair Bolsonaro não o fez sozinho. Levou junto três filhos que se assomam aos píncaros da glória e se consideram tão presidentes quanto o pai. Em termos de prejuízo à imagem do governo e do presidente, os três primeiros-filhos são mais proativos que todo o ministério junto", afirma o colunista Gilvandro Filho 

Bolsonaro governa em coalizão. Com os filhos
Bolsonaro governa em coalizão. Com os filhos (Foto: Reprodução/Rede Social)

Por Gilvandro Filho para Jornalistas pela Democracia - As especulações, até a noite dessa sexta-feira (15), eram sobre o papel que o presidente Jair Messias Bolsonaro tomaria nesse furacão que parou o seu governo frágil e sem rumo, há menos de 2 meses da posse. Se ele agiria como presidente e daria uma basta na guerra deflagrada pelo filho Carlos contra um ocupante do primeiro escalão do governo; ou se daria à Nação um atestado de que faz um governo de coalizão. Com os próprios filhos. Onde nem sempre é somente dele a palavra final.

Ganhou quem apostou na segunda hipótese. Ao demitir Gustavo Bebiano, Bolsonaro fez mais que explodir a pior crise do seu, até agora, breve mandato. Cortou a cabeça de um dos ministros funcionalmente mais próximos da Presidência da República – sua Secretaria Geral – e entregou-a numa bandeja de prata ao seu filho predileto.

Carlos Bolsonaro – que não exercia nenhum papel político relevante até esta semana, quando retomou seu mandato de vereador, no Rio de Janeiro – não dá as cartas somente na comunicação, nas redes sociais e nos eventos onde está sempre ao lado do pai. Zero Dois mostra que também influi de forma decisiva no governo, demitindo e, provavelmente, nomeando ministros.

Jair Messias Bolsonaro perdeu uma grande oportunidade de mostrar que pode ser um chefe de Estado e não apenas um chefe de família. Longe de supor que ele exerça da mesma forma os dois papéis. Como pai dedicado, ele já mostrou que confia, e muito, nos filhos. E parece haver uma recíproca completamente verdadeira. Isto não se discute. Como chefe de Estado, no entanto, ele deixa que o pai assuma as rédeas do processo mais do que devia. E um pai que, de tão extremado, não impõe o limite necessário entre os filhos e os principais auxiliares políticos. Aí, a coisa tem desandado.

Conheça o projeto Jornalistas pela Democracia -Abre parêntese. A demissão de Gustavo Bebiano não é nenhum absurdo. Muito pelo contrário. Ele presidiu o partido do presidente, o PSL, hoje enrolado em uma denúncia atrás da outra de irregularidades envolvendo dinheiro público do fundo partidário. Tanto que tem gente pensando que o "L" da legenda tem mesmo a ver com "laranja" que, além da fruta rica em vitamina C, na campanha era também, sabe-se hoje, uma espécie de pré-requisito para se registrar candidaturas fajutas. O presidente do laranjal, ou melhor, do partido é o deputado federal pernambucano Luciano Bivar. Mas era Bebiano, até um dia desses. Fecha parêntese.

Se Bolsonaro tivesse usado da mesma – tudo bem, vá lá - altivez com que se portou na campanha e mesmo antes dela, e batesse na mesa exigindo ordem na casa, a coisa seria outra. Poderia (até deveria) afastar Gustavo Bebiano para que as investigações corressem sem maiores problemas. E enquadrava o filho Carlos, mostrando a ele como está sendo inconveniente, metido e prejudicial ao governo.

O problema é que, ao chegar ao poder, Jair Bolsonaro não o fez sozinho. Levou junto três filhos que se assomam aos píncaros da glória e se consideram tão presidentes quanto o pai. Em termos de prejuízo à imagem do governo e do presidente, os três primeiros-filhos são mais proativos que todo o ministério junto. E olhe que estamos falando de um time que inclui figuras ímpares nessa seara, como Vélez Rodrigues, Ricardo Salles, Damares Alves, Ernesto Araújo, Marcelo Álvaro Antônio, além do próprio Bebiano. Para ficar só nestes, o que não é pouco.

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