Bolsonaro tem a caneta. Moro tem um dossiê. Façam suas apostas

"Não. A grande imprensa não foi atrás do ministro para saber o que continha o dossiê. Não. Ele também não abriu o conteúdo", escreve Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia. "Bolsonaro tem a caneta, mas um telhado de vidro tão fino que basta um seixo de rio para fraturá-lo. Moro tem um dossiê e um cargo estratégico"

(Foto: Adriano Machado - Reuters)

Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Nada abala Sergio Moro (só as vogais). Para melhor entender o porquê de Moro continuar com a Segurança Pública embaixo do seu balaio, volto pela quinta vez a um fato. Prometo. Não falo mais. Neste dia, porém, faz-se necessário resgatar novamente esta notícia: em primeiro de abril de 2019, às 05h da manhã, a coluna de Ancelmo Gois, em seu blog em O Globo, trazia a nota: 

“Sérgio Moro tem em mãos a história completa do caso Marielle.” E prosseguia no corpo da nota: “A Rádio Corredor do Ministério da Justiça e Segurança Pública diz que o ministro Sérgio Moro já tem na sua mesa a história completa do assassinato de Marielle e Anderson com os nomes de todos os envolvidos. Será?” (A notícia foi publicada também na edição impressa).

Não. A grande imprensa não foi atrás do ministro para saber o que continha o dossiê. Não. Ele também não abriu o conteúdo. A vida seguiu e continuamos ignorando o que continha o calhamaço que Sergio Moro mantém dentro da gaveta.

Sim. Era para continuarmos ignorando mesmo, porque aquela nota não tinha um objetivo apenas “noticioso”. Ela só circulou para garantir a permanência de Sergio Moro à frente da pasta de onde ele balançava, mas não caía. E não caía porque tinha nas mãos a Polícia Federal e um portentoso conjunto de informações sobre Bolsonaro, filhos e arredores. E porque possuía esta arma de persuasão.

Quem observa o ministro falando - mesmo sem ser terapeuta ou coisa que o valha – pode perceber nitidamente que o seu problema de fala tem a ver com “pressão”. Moro tem toda a pinta de alguém que cresceu sendo pressionado. Seja lá qual for o motivo. E, por isto, aprendeu a lidar friamente com as situações que o colocam contra a parede. Ele sabe escapar. Sabe ficar e sabe ter o controle do jogo. E mais: sabe onde quer chegar. Não podemos ignorar que este jovem jogou para o alto o emprego dos sonhos de qualquer advogado. A carreira de 22 anos como juiz. Ou seja, a perspectiva de vida
aparentemente tranquila e bem acima da média dos brasileiros em geral. O posto, porém, não traz junto holofotes e fama. E isto ele atraiu fazendo parcerias durante a Lava-Jato, com quem o pudesse projetar. A mídia, sua criadora.

Alguém que faz tal opção é preciso estar muito certo de que a política é o seu lugar e não a Justiça e seus meandros. Juntando a sua convicção na troca, o estoque de “poder” que acumulou - e ainda dá para o gasto – e a ambição que demonstra, ainda vamos assistir muitos rounds do embate Bolsonaro X Sergio Moro. Bolsonaro tem a caneta, mas um telhado de vidro tão fino que basta um seixo de rio para fraturá-lo. Moro tem um dossiê e um cargo estratégico. Façam suas apostas.

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