Bonjour or Guten Morgen?

Durante o processo de aprendizado de uma língua estrangeira, muitas metodologias acabam se esquecendo dessa naturalidade do aprendizado da língua materna

Durante o processo de aprendizado de uma língua estrangeira, muitas metodologias acabam se esquecendo dessa naturalidade do aprendizado da língua materna
Durante o processo de aprendizado de uma língua estrangeira, muitas metodologias acabam se esquecendo dessa naturalidade do aprendizado da língua materna (Foto: Marina Caetano)
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Mês passado saiu uma matéria na revista Crescer sobre Crianças Bilíngues, que trata dos benefícios de se aprender uma segunda língua ainda na primeira infância e, inspirada nessa reportagem, resolvi escrever sobre a minha experiência com o bilinguismo.

Já havia alguns anos que eu trabalhava como professora de inglês, quando resolvi fazer um intercâmbio como au pair na Alemanha. Para quem não conhece: o trabalho de um au pair envolve cuidar de crianças em outro país com o objetivo de assimilar outra cultura e consequentemente outra língua estrangeira. A família para a qual eu trabalhei era franco-alemã: o pai alemão e mãe francesa. Em casa se falavam as duas línguas (além do inglês, que era a língua secreta entre os pais quando eles queriam falar algo que os filhos não pudessem ouvir). E, antes de pisar em solo alemão, eu estava curiosa e desconfiada - como seria crescer numa casa onde se falam duas línguas? Haveria problemas na assimilação de uma ou mesmo das duas línguas? Já havia dado aula para crianças, e sabia que elas poderiam surpreender, mas ainda assim estava extremamente ansiosa para ver de perto toda essa configuração linguística completamente nova para mim.

Minha primeira surpresa foi a naturalidade com as quais as "kinder" trocavam de idioma. No café da manhã, sentávamos todos juntos com o pai em uma ponta e a mãe na outra e a conversa na mesa era uma grande e maravilhosa babel na qual eu amava me perder todos os dias... Mas, deixando a nostalgia de lado, voltemos ao que importa: os pais expuseram as crianças desde muito cedo ao convívio natural com as duas línguas, portanto as crianças demonstravam apreender aquelas duas línguas da mesma maneira que a maioria das pessoas aprende somente uma. As crianças aprendiam rápido com quem deveriam falar determinada língua: com a mãe e comigo era o francês, com o pai e com os amiguinhos em alemão. Além disso, ainda houve um contato com uma terceira língua, já que eu só conhecia cantigas de ninar em português; dentro de algum tempo me surpreendia com os mais novos cantarolando 'Teresinha de Jesus'. Portanto o aprendizado de uma terceira língua também acabou se tornando um processo natural e espontâneo, já que era de alguma forma, parecido com a aquisição das outras duas.

Ao voltar ao Brasil, continuei trabalhando com línguas e, em 2012, conheci o trabalho do BIA Interface e fui chamada para trabalhar numa escola infantil em um projeto bilíngue desenvolvido pelo curso. Estava extremamente empolgada com a possibilidade de trabalhar mais uma vez próxima ao bilinguismo, mas me encontrava novamente ansiosa pelo desafio. Jamais esquecerei meu nervosismo ao descobrir que a primeira aula teria como tema Guy Fawkes. "Mas como eu vou passar isso para crianças de 4 anos?" "Será que elas vão conseguir entender?" Nesses anos que venho trabalhando com criança, uma coisa eu aprendi como um mantra: "Jamais subestime o poder de aprendizado dos pequenos." Contrariando as minhas expectativas, os pequenos não apresentaram nenhum problema com o tema e muito menos com o vocabulário apresentado, porém não posso deixar de reconhecer que essa desenvoltura é também estimulada em grande parte pela maneira como se desenrola o aprendizado.

E a constatação que se seguiu é que a metodologia do projeto bilíngue do Bia Interface foi extremamente importante nesse desenvolvimento. Afinal o estímulo durante as aulas é fundamental para o aprendizado. A didática e a dinâmica das aulas possuem muitos aspectos em comum em relação à família bilíngue com a qual trabalhei e da qual eu destaco alguns pontos.

1. De novo o mantra: Não subestime o poder de aprendizado de uma criança, independente da idade.

2. Utilize a língua com naturalidade, evite traduções e diálogos sanduíches (Misturar palavras em inglês com português numa frase).

3. Dinâmica com músicas e livros. Nas aulas do BIA, assim como na criação dos pequenos germano-franceses, há sempre uma história ou música na língua que está sendo aprendida. Além disso, músicas e livros estão intrinsecamente relacionados à cultura, que obviamente é um fator importante no aprendizado.

Durante o processo de aprendizado de uma língua estrangeira, muitas metodologias acabam se esquecendo dessa naturalidade do aprendizado da língua materna e a aquisição de uma segunda (ou mesmo terceira) língua se torna algo um tanto ou quanto complicado e muitas vezes entediante. É só olhar o modelo de ensino de inglês da maioria das escolas brasileiras, nas quais se praticam apenas duas habilidades: leitura e gramática. Seja para crianças pequenas ou para os maiores pode-se perceber que os métodos tradicionais muitas vezes vão à contramão do aprendizado natural da língua materna. A proposta do aprendizado bilíngue é exatamente se utilizar as habilidades de aquisição da língua materna no aprendizado de uma segunda língua. Pode parece lugar comum, mas ainda vale ser repetido que para os pequenos aprender brincando, sem nem perceber que se está aprendendo, ainda é a melhor maneira de aprendizado.

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