Brasil: baixa reputação e renúncia ao papel regional

"Na soma de todos os comportamentos recentes do Brasil em relação ao continente, o que fica é a constatação de que o país abdicou de sua influência regional e de seu papel de mediador", escreve a jornalista Tereza Cruvinel ao comentar o papel do Brasil na invasãoà Embaixada da Venezuela em Brasília

A vergonhosa invasão da embaixada da Venezuela em Brasília aconteceu por razões bastante óbvias:  os apoiadores neofascistas do autoproclamado presidente Juan Guaidó sentiram-se com as costas quentes, contaram com o beneplácito do governo Bolsonaro, que horas antes apressara em ser o primeiro país a reconhecer a também autoproclamada presidente da Bolívia, Jeanine Áñez, depois de ter apoiado o golpe civil-militar contra o presidente constitucional Evo Morales.  Não reconhece Nicolás Maduro como presidente e acolhe representantes ilegítimos de Guaidó.

Em verdade, Bolsonaro e seu chanceler Ernesto Araújo criaram as condições ideais para o episódio. Só não esperavam que ocorresse na véspera da cúpula dos Brics, criando um dos maiores constrangimentos diplomáticos já vividos pelo Itamaraty.

Tendo anunciado que veio para destruir, Bolsonaro tem tido particular êxito na desmoralização da diplomacia brasileira, uma das mais respeitadas do mundo por seu profissionalismo. Ao longo de dois séculos, o Itamaraty conferiu ao Brasil o conceito de país negociador, respeitador do direito internacional e dos fóruns multilaterais,  buscando resolver pacificamente os conflitos e mantendo relações com praticamente toda a comunidade internacional.

Os diferentes governos sempre elegeram suas prioridades mas preservando princípios essenciais norteadores de uma política externa coerente, uma política de Estado. Sob Bolsonaro, tudo isso ruiu, e nesta quarta-feira o mundo precisou cobrar algo elementar do governo brasileiro, a observância dos princípios da Convenção de Viena, que rege  relações diplomáticas. Entre eles, a garantia da integridade das representações estrangeiras e do corpo credenciado.  Este vexame, juntamente com o início da cúpula dos Brics, é que forçou o governo a condenar a invasão que durou doze horas. Finalmente, a turba pró-Guaidó saiu pela porta dos fundos, sob escolta policial. Deviam ter sido presos, pois não são representantes diplomáticos de governo algum.

China e Rússia e demais Brics reconhecem Nicolás Maduro como presidente legítimo da Venezuela, ao passo que o Brasil reconhece Guaidó,  que não foi mencionado na nota palaciana, como presidente interino.  Não há salamaleques para a China, como os que ontem fez Bolsonaro, esquecido de tudo o que disse contra o maior parceiro comercial do Brasil durante a campanha, que dissipe o mal estar criado. Que país este, devem dizer os visitantes, onde uma embaixada é violada por extremistas? Por maiores que sejam as convergências econômicas e comerciais, as diferenças políticas dentro dos Brics aumentaram.

Na soma de todos os comportamentos recentes do Brasil em relação ao continente, o que fica é a constatação de que o país abdicou de sua influência regional e de seu papel de mediador, pois tornou-se parte de um lado dos conflitos que pipocam na região. Bolsonaro e seu chanceler Ernesto Araújo são aliados decididos das forças golpistas e reacionárias que buscam impor o neoliberalismo autoritário, seja no Equador, na Venezuela ou na Bolívia. A aliança estratégica com a Argentina foi esgarçada por seu alinhamento eleitoral com Macri e as hostilidades ao presidente eleito Alberto Fernandez.  Se amanhã estourar uma crise em qualquer outro país, a posição brasileira é previsível sem risco de erro.

Quando Bolsonaro e Araújo passarem, o trabalho de reconstrução será duro em várias frentes mas o Itamaraty terá uma das mais desafiadoras tarefas, a de resgatar o que foi construído em 200 anos e destruído em poucos meses.

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