Brasília, os ratos e a literatura



Dorrit Harazim é uma de minhas maiores admirações no jornalismo brasileiro. Ninguém, como ela, aproximou tanto jornalismo, literatura e História em textos que merecem muito mais que a cesta de jornais velhos.

Brasília é meu lugar no mundo. Nascida em Minas, vim menina, passei pelo Rio e voltei. Sou candanga. Se não eu, os de meu sangue colocaram algum tijolo nesta construção que confirma nossa capacidade de realizar, apesar de todos os complexos.

Neste domingo Dorrit publicou em O Globo um artigo primoroso colando História e literatura à nossa triste conjuntura política. Depois de recomendar a biografia de Lyndon Johnson escrita por Robert Caro (The Passage of Power) ela sugere aos leitores que desejem “regalar alguém querido com um recuo da obscenidade política nacional” o inesquecível livro de crônicas de Clarice Lispector “Para não esquecer”. Destaca duas delas  que falam da capital federal: “Brasília” e “Brasília: esplendor”. “Nelas, Clarice jorra suas impressões e sentença sobre a cidade que visitou em 1962 e 1974, e que a deixou perplexa”, diz Dorrit.

E destaca dois trechos, pedindo  licença para citá-los de forma recortada.

“Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se... Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado... Aqui é o lugar onde o espaço mais se parece com o tempo... Brasília é um futuro que aconteceu no passado... Brasília diz que quer mas não quer; negaceia. Brasília é um dente quebrado bem na frente. E é cúpula também. Tem um motivo principal. Qual é? Segredo, muito segredo, sussurros, cochichos e chichos. Diz-se-que-diz que não acaba mais...”

“Foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construção com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é a manchete invisível nos jornais. Aqui eu tenho medo. A construção de Brasília: a de um Estado totalitário....”.


Com todas as vênias, como se aprende a dizer com os ministros do STF nos julgamentos de tantos casos insólitos, comento esta parte do artigo de Dorrit. Clarice, cada vez mais redescoberta e valorizada, é mesmo um bom presente em qualquer tempo. Brasília de fato impactou sua alma sensível, inspirando-lhe estes dois textos  memoráveis. Ela falou da cidade que viu e sentiu mas não viveu, pois que passou de raspão por aqui duas vezes. Falou da cidade monumental e da capital política, esta que de fato foi sendo invadida “pelos ratos, todos muito grandes”. Mas os ratos chegam  porque são enviados, depois de cada eleição, pelo conjunto dos eleitores de todo o Brasil.

 Para além deles, existem as 2,8 milhões de pessoas que vivem no Distrito Federal, a grande maioria fazendo e vivendo a vida sem passar pela Esplanada do poder.  Estes também são mordidos pelos ratos. Pior, são com eles confundidos. Os ratos chegam em ninhadas, têm seu tempo e depois são trocados por outros. Os viventes da capital vão seguindo a vida. Trabalham, criam filhos, alguns servem ao poder como serviriam a outro patrão, e um dia morrem.

Clarice veio na ditadura e a isso se referiu a seu modo. “Tem coisas sobre Brasília que eu sei mas não posso dizer, não deixam. Advinhem. Brasília é um olho azul cintilanterríssimo que me arde no coração. Brasília é hiperbólica.  Brasília é o mistério classificado em arquivos de aço. Tudo lá se classifica”.

Mas mesmo não tendo se referido aos brasilienses  não-ratos, Clarice disse coisas contraditórias sobre Brasília,  como era próprio de Clarice. “Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam logo que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem da minha insônia vêm nisso uma acusação”. Ou ainda: “Brasília é som oposto. Ninguém nega que Brasília é: goooool!”.

Sobre o espanto com Brasília, outra mulher, esta uma poeta, a portuguesa Sophia Mello Breyner, também deixou dois fragmentos memoráveis. Também ela “viu” a cidade, por ângulos diferentes.

Um é o poema “Brasília”, que está em sua antologia completa. Reproduzo.

BRASÍLIA

                    A Gelsa e Álvaro Ribeiro da Costa

 

Brasília

Desenhada por Lúcio Costa,  Niemeyer e Pitágoras

Lógica e lírica

Grega e brasileira

Ecuménica

Propondo aos homens de todas as raças

A essência universal das formas justas.

 

Brasília despojada e lunar como a alma de um poeta muito jovem

Nítida como Babilónia

Esguia como um fuste de palmeira

Sobre a lisa página do planalto

A arquitectura escreveu a sua própria paisagem

O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número

No centro do reino de Ártemis

— Deusa da natureza inviolada —

No extremo da caminhada dos Candangos

No extremo da nostalgia dos Candangos

Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro

Athena ergueu sua cidade ordenada e clara como um pensamento

E há nos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro .

 

Devo ter a nostalgia dos candangos, e já são poucos os candangos vivos.

O outro texto de Sophia é uma crônica que ela escreveu depois de uma viagem que fez do Rio a Brasília em 1966, de carro, com Murilo Mendes ao volante. Fala da solidão naquele vasto sertão que cruzaram e da cidade que encontrou. Cidade que tlhe arrancou espanto e admiração, e que depois lhe inspiraria o citado poema.  Este texto ela não publicou em vida. Seu filho, Miguel Sousa Tavares, o descobriu há pouco tempo e o publicou no jornal “Público”, onde é colunista político.  Aliás, Clarice e Sophia são de alguma forma parecidas, tinha aquela espécie de loucura lúcida dos videntes. O texto é grande, não vou transcrevê-lo. Basta de contra-leitura literária sobre Brasília, propiciada pelo belo artigo de Dorrit neste domingo pré-natalino.

 

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