Breve análise para além da pesquisa Datafolha

Se por um lado há que se destacar que a maioria condena as ações ilegais e imorais de Moro (59%), por outro, a população está dividida em relação à condenação de Lula (principal vítima da referida operação), diz o colunista Robson Sávio Reis Souza

Lula, o filho do Brasil, mais uma vez
Lula, o filho do Brasil, mais uma vez (Foto: Ricardo Stuckert)

O Instituto Datafolha divulgou nesse sábado, 06/07, uma pesquisa avaliando a percepção popular após as divulgações das conversas nada republicanas entre o ministro da Justiça (quando juiz da operação Lava- jato) Sérgio Moro e procuradores da operação policial-judicial-midiática. Foram entrevistadas 2.086 pessoas em 130 municípios brasileiros, entre os dias 4 e 5 de julho.

Em resumo, 59% dos entrevistados afirmam que são graves e devem ser revistas as decisões de Moro durante a Lava Jato; entre abril e julho deste ano a avaliação do ex-juiz caiu 7 pontos percentuais, de 59 para 52%; a maioria (55%) acha que Moro deve permanecer no Ministério da Justiça; os mais jovens são os que mais acham inadequadas as condutas do ex-juiz (73%), enquanto somente 44% dos que têm 60 anos ou mais desaprovam a condução de Moro, sendo que os mais ricos são os que menos desaprovam (49%); 54% acham que a condenação e prisão do ex-presidente Lula foi justa, sendo que no Nordeste 56% acham injusta e no Sul somente 33%; por fim, 61% avaliam como ótimo e bom o trabalho desempenhado pela Lava-Jato.

Se por um lado há que se destacar que a maioria condena as ações ilegais e imorais de Moro (59%), por outro, a população está dividida em relação à condenação de Lula (principal vítima da referida operação).

Os ricos, sulistas e os mais velhos, ou seja, aqueles que, em tese, estão com a vida estabilizada continuam conservadores e pro-establishment, enquanto os mais jovens mantêm a indignação.

Vale, aqui, lembrar Gramsci (1891-1937). Embora as circunstâncias fossem outras (seus comentários sobre a crise da autoridade) e seja necessária uma pequena adaptação no texto, penso que se aplica ao momento de transição que vive o Brasil a ideia de que ‘o velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece’. (A frase original correta é: ‘A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparece’.). E quanta morbidez adveio com o atual governo... Como já escrevemos neste espaço, trata-se de um necrogoverno.

Mas, é preciso avaliar, mesmo que sucintamente, porque significativa parte dos cidadãos, de uma maneira geral, se posiciona de forma dúbia frente à avassaladora quantidade de provas das ações deletérias do ex-juiz e de membros da operação Lava Jato reveladas nos últimos dias. Ainda é significativo o apoio a Moro no ministério da Justiça (por mais paradoxal que isso signifique) e no governo de extrema-direita. Dizendo de outra forma, há muita complacência com a conduta claramente antiética, antirrepublicana e criminosa do ministro do atual governo e parece que significativa parte da população não relaciona tais desvios a consequências à democracia, justiça, ética pública, respeito à Constituição e ao estado de direito, entre outros.

Quando se trata de análise das percepções da população é preciso considerar que o povo brasileiro é participante periférico da democracia de fato. Ademais, há uma série de condicionantes que interferem na opinião popular (não necessariamente nesta ordem):

a. A mídia empresarial, formadora de opinião (principalmente das classes médias), é altamente concentrada, oligopolizada, age em uníssono e se constitui, historicamente, num instrumento de viés claramente elitista e antipopular. A diversidade e pluralidade da mídia é um dos pilares de quaisquer democracias sólidas, o que nunca ocorreu nesse país e, não obstante o advento da mídia alternativa (importante front de pluralidade de ideias), a tendência de repetir o pensamento hegemônico ainda persiste no senso comum dos cidadãos, ainda mais em tempos de guerra híbrida, pós-verdade, redes sociais e fake News. Por isso, a mídia mainstream continua peça relevante na qualidade, fragilidade ou manipulação das democracias. Isso pode explicar, em certa medida, o apoio que Moro ainda tem e as incertezas do povo em relação a Lula. (Registre-se, porém, a persistência da desilusão de parte da população, por variados motivos, em relação ao PT e esquerdas).

b. A educação política do povo é praticamente inexistente. Aliás, a deseducação política no Brasil atinge, também, significativa parte da classe média e elites. Desde o golpe da proclamação da República e o advento do positivismo, a educação formal sempre foi dominada pelo pensamento das elites e tudo que é popular é associado a atraso, corrupção, crime. O sistema de ensino nunca se constituiu, no Brasil, como um instrumento de educação popular à cidadania.

c. Nossa cultura religiosa, de base judaico-cristã, solidificou na percepção da maioria do povo a ideia segundo a qual toda autoridade vem de Deus (e isso se percebe com muito mais clareza em tempos de adensamento do neopentecostalismo). Por isso, as pessoas de uma maneira geral ainda acreditam piamente não somente no que dizem ou deixam de dizer as autoridades religiosas, como também os juízes, operadores da lei, policiais, Forças Armadas etc., todos segmentos conservadores, sendo que alguns desses grupos, muitas vezes, se transformem nos algozes do povo. Acrescente-se que a mídia empresarial reverbera e reforça a opinião desses segmentos em detrimento de outras vozes que são criminalizadas e excluídas do debate público.

d.  As elites em nosso país, historicamente, perseguem todas as lideranças populares e massacram as revoltas e os levantes do povo, só permitindo à maioria uma “vida de gado”. Para manter um país tão rico e absurdamente desigual, oferecem concessões e privilégios para a classe média e, em troca, uma parcela significativa dessa classe, formadora de opinião, age como fiel escudeira dessas elites: são aqueles que, atualmente, pedem intervenção militar, fechamento do Congresso e do STF e querem uma justiça para chamar de sua (não à toa, apoiam Sérgio Moro com tanta fidelidade).

e. As instituições do Estado sempre foram pouco republicanas e, mesmo depois da Constituição de 1988, nunca perderam seu caráter elitista e, de certa forma, operam na contramão da construção de uma Nação (para todos) justa e igualitária. Nosso sistema judiciário e as polícias, pretorianos das elites, não foram reformados com o advento da Carta de 1988.

f. Em tempos de ultraliberalismo econômico e ultradireita política, o individualismo e a demonização do estado e das políticas públicas (principalmente pela ação de think tanks norteamericanos agindo na mídia, nas instituições de ensino, junto ao neopentecostalismo e em vários segmentos sociais) contaminaram o pensamento de grande parcela da população que despreza qualquer ideia de público, bem-estar social e política e, por isso, são incapazes de defender e lutar por demandas coletivas e comunitárias.

Todos esses pontos, entre outros, devem ser considerados quando analisamos os dados que surgem da percepção do povo em pesquisas de opinião.

Por isso, não adianta a simplificação das análises. São múltiplos os desafios para os setores democráticos e populares na reconstrução democrática.

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