"Brexit foi contra austeridade"

Num mundo ainda perplexo sobre o Brexit, a social-democrata Micheline Calmy-Rey, que foi presidente da Suíça e também responsável por sua política externa, explica que a votação "foi um voto contra a perda de empregos e contra a austeridade" que se vê na Europa de hoje. Ela lembra que "na globalização há quem ganhe, mas também existem perdedores: gente que perdeu suas casas, empregos, e até sua identidade." Ao dar racionalidade a um debate que envolve o futuro do Velho Continente e interessa a toda a humanidade, Calmy-Rey ajuda a compreender que sem medidas concretas para enfrentar a desigualdade e o crescimento, a defesa da solidariedade e outros valores não passará de um palavreado vazio, diz Paulo Moreira Leite.

 


      Quem já começou a viver pesadelos apocalípticos em função do Brexit deveria ler uma entrevista de Micheline Calmy-Rey, ao correspondente em Genebra Jamil Chade, publicada pelo Estado de S. Paulo  (26/7/2016). Permite colocar racionalidade no debate.

      Ex-presidente da Suíça, onde também já respondeu pela política externa, social democrata de formação, Calmy-Rey ajuda a fazer um debate a boa distância das fantasias ideológicas que acompanharam a formação da União Européia, frequentemente apresentada como uma espécie de versão capitalista de um mundo sem fronteiras, sem conflitos de classe ou interesses nacionais, que se pode encontrar na obra dos fundadores do comunismo. A visão convencional, hoje, é que este universo sonho veio abaixo depois que 52% dos britânicos votaram pela saída da UE.

       Mesmo reconhecendo que a formação da União Europeia teve um papel histórico no enfraquecimento das ditaduras que sobreviviam no Continente, como o fascismo na Espanha e Portugal, a ditadura militar na Grécia, Calmy-Rey mostra que essa Europa de sonhos, tolerante e igualitária, nunca existiu.

      "A votação foi sobre a globalização, a livre circulação de pessoas e de capital," diz, "Na globalização há quem ganhe. Mas existem perdedores. Gente que perde suas casas, seus empregos, sua forma de transporte e até sua identidade.(...) Ao longo dos anos quem sempre ganhou foram as multinacionais. Quem sofre são as pequenas empresas, os artesãos. "

       Para explicar o Brexit, Calmy-Rey afirma que "precisamos entender que existe uma revolta contra as elites. Um voto contra a perda de empregos e contra austeridade. É assim que temos de entender o que ocorreu."

      A utilidade desta visão é fácil de compreender -- e não só para os cidadãos europeus. O debate ajuda a reconhecer as formas atuais do desenvolvimento capitalista, dominado por interesses financeiros agigantados e uma parcela minoritária, socialmente, mas poderosa ao extremo, do ponto de vista político. Essa mesma situação que explica, entre outros acontecimentos, o jogo bruto de Michel Temer  Henrique Meirelles para travar os investimentos públicos por 20 anos.

      Calmy-Rey permite reconhecer a imensa distância entre a União Europeia que é oferecida as camadas mais educadas e endinheiradas, que têm acesso e a um mercado imenso de oportunidades e confortos, inclusive escolher o país aonde viver sem maiores transtornos, e uma maioria excluída, para quem as oportunidades têm sido diminuídas e mesmo eliminadas. Conforme a ex-presidente, a grande novidade,  no Brexit, foi que a  imensa parcela prejudicada deixou claro que se recusa a assumir, sozinha, a cota de sacrifício.

     Diante do crescimento de movimentos de inspiração fascista, um dos sintomas visíveis do mal estar europeu de hoje, essa visão ajuda a lembrar que não haverá resposta honesta -- nem eficaz -- à situação sem um debate corajoso sobre a política econômica imposta aos povos de cada um dos atuais 28 países-membros da UE.

    O que está em discussão é uma revisão da política de austeridade e baixo crescimento que o FMI, o Banco Central Europeu e a União Europeia conduzem sobre 28 países, qualquer que seja o governo eleito.  

     Sem investimentos nem estímulos para crescer, é uma certeza matemática que a disputa pela riqueza acessível só  pode aumentar, estimulando reações nostálgicas e projetos reacionárias, excludentes, que procuram justificar-se com base na diversidade cultural entre populações.

    O risco é previsível e até pode ser visto no horizonte de determinados países. Levar a uma situação desesperada como a da Europa da década de 1930 do século passado, berço do nazismo e do fascismo, quando a falta de perspectiva para suas vidas e o futuro de suas famílias levou parcelas imensa da população -- a que possuía a melhor  educação formal do planeta  -- a apoiar movimentos totalitários e  práticas criminosas.  

    Na verdade, as diferenças culturais entre populações de uma mesma sociedade sempre existiram e costumam funcionar como um fator de diversidade, renovação e enriquecimento para as partes. É impossível contar a história da ciência, da medicina e da cultura dos países que se definem como ocidentais  sem reconhecer a imensa -- e frequentemente minimizada -- contribuição dos povos não-europeus, a começar pelos árabes.

    Essa situação pode gerar bodes expiatórios quando, em vez de oferecer um terreno material baseada na comunhão de direitos e oportunidades,  a vida cotidiana  apenas reforça a desigualdade, o privilégio e o preconceito. Surgem, aí, ambições de domínio e submissão. 

     A defesa da solidariedade e outros valores essenciais a toda sociedade humana não passará de um palavreado vazio -- e demagógico -- enquanto não for acompanhada de medidas práticas  para enfrentar a desigualdade e o empobrecimento. Este é o debate na Europa de hoje.  

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