Cadê a recusa?

tudo teria sido MUITO DIFERENTE se Rousseff (sim, ela mesma) também tivesse apontado o dedo para a sinistra máscara de Michê e lhe dado voz de prisão, nos seguintes termos: – 'Você está preso por conspirar contra uma presidenta eleita legal e legitimamente, aliando-se para derrubá-la ao que há de pior em nosso país

Imagem para artigo de José Marcus de Castro Mattos, "Cadê a recusa?"
Imagem para artigo de José Marcus de Castro Mattos, "Cadê a recusa?" (Foto: José Marcus de Castro Mattos)

Lula deveria apontar o dedo indicador para Moro e em alto e bom som dizer o seguinte: – 'Presta atenção, moleque, NÃO RECONHEÇO SUA AUTORIDADE SOBRE MEUS ATOS. Portanto, cai fora, antes que eu lhe dê uns tapas!'

É assim que as coisas poderiam acontecer.

Aliás, tudo teria sido MUITO DIFERENTE se Rousseff (sim, ela mesma) também tivesse apontado o dedo para a sinistra máscara de Michê e lhe dado voz de prisão, nos seguintes termos: – 'Você está preso por conspirar contra uma presidenta eleita legal e legitimamente, aliando-se para derrubá-la ao que há de pior em nosso país!'

E tudo seria COMPLETAMENTE DIFERENTE se as forças progressistas brasileiras tivessem RECUSADO O GOLPE, mas de maneira frontal, nas ruas, em barricadas, direta e imediatamente: – 'Sim, golpistas, nós vamos passar sobre o cadáver de vocês e não o contrário!'

Entretanto, aqueles que supostamente deveriam liderar as barricadas colocaram a viola no saco, o rabo entre as pernas e engoliram a faca que traziam entre os dentes...

Medraram, acovardaram-se e nos deixaram chupando os dedos imundos de Michê, Mendes, Bolsonaro, Globo e daqueles que fazem de Miami o shopping-capital do 'Brazil'.

Os pretendidos líderes Lula, Rousseff, Stédile, Boulos, etc, blefaram inescrupulosamente e apresentaram nas ruas encenações pífias, prudentes, bem-comportadas...

Todos se recordam: ciosa de sua 'representatividade', Rousseff compareceu pontualmente no covil do Senado e lá respondeu durante horas àqueles que jamais fariam outra coisa senão apertar-lhe a corda no pescoço e empurrar-lhe a banqueta sob os pés.

Pra lá de previsível, eis o resultado da 'obediência às regras' de Rousseff: Golpeachment (Golpe de Estado travestido de Impeachment Constitucional), sem dó nem piedade.

Todos se recordam: cioso de sua 'representatividade', Lula compareceu pontualmente no covil de Moro e lá respondeu durante horas àquele que jamais faz outra coisa senão cassar-lhe ilegalmente esta mesma representatividade, impedindo-o de candidatar-se à presidência em 2018.

Pra lá de previsível, eis o resultado da 'obediência às regras' de Lula: nove anos e seis meses de prisão (condenação em primeira-instância), sem dó nem piedade.

Escandalizados, nós vimos: cioso de sua 'representatividade', Stédile compareceu pontualmente no covil da Globo – quem diria?! – e lá respondeu, tal um menininho que não faz xixi na cama, às previsíveis perguntas de um tal Conti (TV Globo: "Diálogos com Mário Sérgio Conti", 23 de Dezembro de 2016).

Pra lá de previsível (quando menos entre os que se situam para além da representatividade), eis o resultado da 'obediência às regras' de Stédile: perdeu por inteiro nossa confiança política nele e no movimento social sob sua liderança (MST), sem dó nem piedade.

De maneira abjeta, os exemplos de 'obediência às regras' se multiplicam seja individualmente seja institucionalmente, configurando uma cidadania brochada da sola dos pés à raiz dos cabelos (talvez em nenhum outro momento da história política brasileira que não o atual mereçamos ser achincalhados, humilhados e desprezados sob a pecha de 'cordiais').

Ora, senhoras e senhores obedientes às regras – que regras?

Somos reféns de um Estado de Exceção, lembram-se?

Em tal 'Estado' as regras dançam conforme a música tocada por criminosos, instalando uma 'no man's land' perversamente pontuada pela 'lawfare', pela 'post-truth', pelas 'fake news', etc.

Portanto, cordiais senhoras e senhores, obedeceis às regras espertamente demarcadas por criminosos!

Claro que não passa pela cabeça dessa gente cordialmente situada à esquerda abrir mão de suas zonas de conforto (os sindicatos, os partidos, os movimentos sociais, as mídias, as universidades, etc) e fazer uma AUTÊNTICA RECUSA AO GOLPE, mostrando em atos não-capturados pela armadilha representacional que somos capazes de OCUPAR OS ESPAÇOS PÚBLICOS E EXPULSAR DELES OS QUADRILHEIROS.

Contudo, a cabeça de nossa esquerda-cordial é por assim dizer 'pura representação', enfurnando-se idealmente nos textos de Marx e de Lênin a cada vez que a realidade política brasileira faz com que Marx e Lênin digam a ela para usar braços e pernas e sair materialmente às ruas...

Cordialíssimas vozes dessa esquerda kantiana (afinal, ninguém melhor do que Kant para nos ensinar a pensar e agir 'dentro dos limites da simples razão representacional', não é mesmo?), pois bem, tais vozes sussurram-me gentilmente aos ouvidos que 'é preciso esperar 2018', quando então, continuam elas, 'recuperaremos o poder na eleição presidencial' (sic).

Entretanto, alguém precisa alertar essas vozes que o Golpeachment instalado em 2016 SOLAPOU NA ORIGEM a possibilidade de ocorrer eleição presidencial em 2018 nos balizamentos institucionais do Estado Democrático de Direito (cf. Constituição Federal/\1988), vale dizer, a quadrilha de golpistas que tomou de assalto o Estado Brasileiro inaugurou um 'modus operandi' capaz de perverter a seu favor toda e qualquer via imersa no campo representacional – perversão que não recua em fazer do Supremo Tribunal Federal (STF) o lugar-tenente do desvio, do desmando e da corrupção da Lei (apenas em um Estado de Exceção ao estilo pervertido dos atuais golpistas é que escroques profissionais do porte de Mendes e Moraes tomam assento como ministros no colegiado que tem por função inarredável zelar pelo respeito incondicional à Carta Magna).

Assim, nossa esquerda cordial e kantiana (claro, sob inócua aparência marxista-leninista) faz de tudo para que as coisas permaneçam da maneira que estão, não economizando em pantomimas de sorte a preservar as delícias que a 'representatividade' lhes propicia: a título de exemplo, nenhum vereador, prefeito, deputado, senador ou governador do Partido dos Trabalhadores (o mais diretamente atingido pelo Golpeachment) foi capaz de abrir mão imediata de seu cargo e fazer desta renúncia um ato político contundente...

Eis aí o ponto nevrálgico: ninguém à esquerda tem coragem, dignidade e inteligência o bastante para renunciar à 'representatividade' e apresentar tal renúncia ao público como uma RECUSA POLÍTICA AO GOLPE, produzindo um corte decisivo no campo representacional, qual seja, doravante tudo e todos confrontados com... o quê?

Ora, se Lula não fosse obediente às regras comandadas por Moro e o tivesse mandado com justas chineladas de volta à roça paranaense (nada contra a roça, mas Moro encarna o que há de pior na caipiragem) , pois bem, sem dúvida Lula teria recebido imediata voz de prisão e estaria atrás das grades, MAS SEU ATO TERIA APRESENTADO AO PAÍS UMA RECUSA DECISIVA E INCONTORNÁVEL POR MEIOS REPRESENTACIONAIS, cortando com a manipulação perversa da representação em mãos dos golpistas (Câmara, Senado, STF, PIG, etc), alocando finalmente as forças progressistas na urgente materialidade das coisas e retirando a nação brasileira do humilíssimo papel de espectadora da farsa/\farra protagonizada gozosamente pelos perversos (dentre outras humilhações aplicadas aos senzaleses, o golpe patronal travestido de 'reforma trabalhista, previdenciária, educacional, etc').

Mas Lula não seria o velho e bom Lula se não obedecesse às 'regras' da matilha na qual babam a FEBRABAN, a FIESP, o AGROBUSINESS, o PIG (claro, GLOBO no comando), a CÂMARA, o SENADO, o STF, o MBL e, 'last but not least', a CIA, não lhes parece?

Por favor, 'forças progressistas', acalmem-se, parem de me vaiar!

Vocês serão recompensadas, pois seus filhos e netos herdarão o Golpeachment (Golpe de Estado travestido de Impeachment Constitucional) e responsabilizarão sua 'obediência às regras', lançando-lhes com justa razão ao rosto: – COVARDES!

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