Cammãrus et tropidurus

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(Foto: Prefeitura Municipal de Bonito (MS))


No mês de agosto de 1983, o Jornal do Brasil estampou na sua primeira página a seguinte manchete: “Cearenses comem lagarto para não morrer de fome”. A matéria era ilustrada com uma foto de um homem identificado como Chico Marcolino, agricultor em Apuiarés, município situado a 111 km da cidade de Fortaleza. Na imagem, o agricultor segurava um pequeno calango, que seria sua única refeição naquele dia. 

De 1983 pra cá muita coisa mudou. O povo, que vivia submetido a uma das mais sangrentas ditaduras da América Latina, lutou pela redemocratização do país e passou a sonhar com dias melhores. Demorou muito tempo, mas a população brasileira conseguiu se fazer respeitada e vista como gente. O número de miseráveis diminuiu, havendo um processo de inclusão social capaz de devolver ao trabalhador pelo menos um pouco do muito que produz. Mas é claro que, parafraseando Itamar Assumpção, isso não ia ficar assim, meu bem. E não ficou mesmo! 

Logo, deram-se os golpes, as destituições e as prisões. Ninguém que pudesse manter uma situação na qual o trabalhador pudesse usufruir daquilo que produz poderia estar ou continuar no poder. A população estava comendo bem, com casa pra morar e em condições de viajar e conhecer o mundo. Havia muito pobre nos aeroportos, o que passou a incomodar bastante a “nossa” cara gente branca. E eis que todo um aparato, com as instituições com tudo, foi montado e posto em prática para que um representante da casa grande fosse alçado ao poder e, de posse da sua caneta (Bic?), pusesse em curso o maior plano de destruição do país jamais visto em toda a história da República.

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Os resultados estão aí. Para onde se olha só se vê miséria e destruição. Não há nenhum interesse em cuidar do humano.  Em meio à crise climática, por exemplo, o que se tem é o mais vil ataque às florestas, que sofrem com o mercúrio do garimpo a corroer-lhes as entranhas. Onde ainda há mata virgem, há o desmate. Onde há vida e povos originários, há dor, violência e morte. Muitas das vozes que hoje reclamam do genocídio/ecocídio em curso gritaram em uníssono contra a democracia ao mesmo tempo em que seus textos “jornalísticos” e suas participações na mídia corporativa enalteciam o senhor do caos que a tudo destrói. A nuvem de gafanhotos posta no comando continua faminta por dinheiro, ouro e poder. 

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Trinta e oito anos após aquela matéria do JB, o jornal Folha de São Paulo, do dia 07 de dezembro de 2021, trouxe a seguinte notícia: “Famílias comem lagartos e restos de carne para enganar fome no RN”. Curioso mesmo é que a matéria está estampada no mesmo jornal que, dia sim, dia também, bate incansavelmente no único político que conseguiu diminuir a miséria no país, e em cujos governos não se registrou ninguém comendo calango, mas picanha. Mas isso não vem ao caso, dirão. Pois bem. A matéria em questão tomou como referência os municípios de Senador Elói de Souza e São Paulo do Potengi, ambos no Rio Grande do Norte, mas poderia ter sido qualquer outro ponto do Brasil. 

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Os relatos trazidos pela jornalista Renata Moura causam em nós, leitores, um misto de indignação, revolta e tristeza. Primeiro, foram as filas dos ossos. Depois, as carcaças de frango e as cabeças de peixes. Agora, os lagartos. Em 1983, o senhor Chico Marcolino ainda conseguia um lagarto que fosse. Em 2021, nem isso. É o que diz o senhor Deojem Emanuel na referida matéria: “Nem calango, nem lagarto tijuaçu tem mais aqui. Eles migraram atrás de água”. Até agora, tem-se a impressão que as pessoas que ficaram indignadas com “pobre comendo camarão” não viram nada demais em “pobre comer calango”. É isso? É indignação seletiva que chama ou é só hipocrisia mesmo? Assim, aos trancos e barrancos, a República segue.

 Enquanto concluo este texto, lembro de Fabiano, personagem do romance Vidas Secas (1938), de Graciliano Ramos, e vejo implodidos os limites entre o homem e o bicho, o bicho e o homem. Aturdido, acho que grito por Josué de Castro, e uma pergunta reverbera: o que fizeram com esse país?

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