Carlos Lemos: homenagem ao jornalismo

Em homenagem ao amigo, Tereza Cruvinel escreve, em seu blog no 247, que a morte de Carlos Lemos, na manhã desta segunda-feira 7, foi "uma perda para a profissão que anda tão desencontrada"; "Todos cresciam com Lemos porque ele não queria competir com ninguém. Não precisava disso. Pelo contrário, emprestava seu prestígio, seus relacionamentos e sua experiência, ao crescimento de cada repórter", lembra a jornalista

Em homenagem ao amigo, Tereza Cruvinel escreve, em seu blog no 247, que a morte de Carlos Lemos, na manhã desta segunda-feira 7, foi "uma perda para a profissão que anda tão desencontrada"; "Todos cresciam com Lemos porque ele não queria competir com ninguém. Não precisava disso. Pelo contrário, emprestava seu prestígio, seus relacionamentos e sua experiência, ao crescimento de cada repórter", lembra a jornalista
Em homenagem ao amigo, Tereza Cruvinel escreve, em seu blog no 247, que a morte de Carlos Lemos, na manhã desta segunda-feira 7, foi "uma perda para a profissão que anda tão desencontrada"; "Todos cresciam com Lemos porque ele não queria competir com ninguém. Não precisava disso. Pelo contrário, emprestava seu prestígio, seus relacionamentos e sua experiência, ao crescimento de cada repórter", lembra a jornalista (Foto: Tereza Cruvinel)
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Carlos Lemos foi um jornalista exemplar, um cidadão admirável e, para mim e para tantos, um destes amigos para se guardar para sempre no lado esquerdo do peito. Foi também um pai singularmente amoroso para seus quatro filhos.

Mas é do jornalista exemplar que mais posso falar, exemplar no sentido estrito da palavra, o que faz de sua morte uma perda para a profissão que anda tão desencontrada. A ela dedicou-se com paixão, com talento e com responsabilidade, cultivando os velhos cânones que andam tão esquecidos, tais como a servidão à verdade factual, a honestidade no ato de informar,  em respeito àquele outro cidadão que nos lê, ouve ou assiste, a busca do outro lado que sempre existe em cada fato. Tudo sem perder a elegância, e se possível, com algum humor.

Conservador nos preceitos que precisam ser conservados, Lemos contribuiu enormemente para a inovação do jornalismo, participando da reforma do Jornal do Brasil, uma obra coletiva iniciada por Odylo Costa, filho, em 1958, e concluída em 1961, sob a chefia de Alberto Dines. Amílcar de Castro foi o artista da reforma gráfica e Lemos e Jânio de Freitas dois artífices da mudança de estilo, linguagem e editoração. Os textos ganharam mais elegância e leveza sem prejuízo da informação e do rigor na apuração. O JB tornou-se referência do novo jornalismo brasileiro.

Depois Lemos passou com brilho pelo rádio, com sua atuação no jornalismo Rádio Globo e foi para o Globo. Foi como chefe da sucursal de O Globo em Brasília que convivi com ele por longos e profícuos anos. Ele já era um profissional coroado, não passava por Brasília para se afirmar. Fez uma gestão voltada fundamentalmente para a formação e aprimoramento de uma grande equipe, uma das melhores que o Globo já teve, naqueles anos férteis da transição democrática e da construção da República de 1988, a que hoje temos. Eu citaria dezenas de jornalistas que dela fizeram parte, cresceram sob a chefia de Lemos e seguiram carreiras bem sucedidas. Todos cresciam com Lemos porque ele não queria competir com ninguém. Não precisava disso. Pelo contrário, emprestava seu prestígio, seus relacionamentos e sua experiência, ao crescimento de cada repórter. Cobrando, estimulando, colaborando com as matérias, fazendo uma piada mas sempre impulsionando a redação. Tinha a confiança e o apoio de Evandro Carlos de Andrade, diretor-geral de O Globo, outro grande mestre de nosso ofício. E isso contava muito.

Como diretor da sucursal, ele fazia de sua casa uma extensão prazerosa de nosso trabalho. Ali, pelo menos uma vez por semana,  havia um jantar de nossa equipe de política com uma figura de proa para uma conversa mais relaxada, onde a informação fluía. Outras noites ele reservava para o pessoal da editoria de economia, naqueles tempos de hiperinflação e seguidos planos econômicos. O JB ainda existia e a competição era forte. E havia também as grandes festas, pois ele era um festeiro neste tempo. E nestas recebia a todos, jornalistas de todos os veículos e políticos de todos os partidos, pois pluralismo era com ele. Neste tempo estávamos construindo a democracia, havia uma convergência dentro das diferenças, não esta guerra insana dos dias que correm.

Foi neste tempo que eu, já escrevendo sem assinar a coluna política de O Globo, tive um atrito na casa, atravessei a rua, como dizíamos, para ir trabalhar no JB a convite de Ricardo Noblat, que dirigia a sucursal. Noblat saiu uma semana depois e eu fiquei ali, meio órfã, embora lá também estivessem dois grandes amigos, Moreno e Rodolfo Fernandes. Lemos, com o aval de Evandro, tomou como missão me levar de volta para O Globo. Voltei dois meses depois, numa negociação que envolveu a assinatura da coluna, o que fiz entre 1986 e 2007.

Neste curto período que passei no JB escrevi uma matéria sobre as articulações do presidente Sarney para conquistar o quinto ano de mandato na Constituinte. A um político amigo ele havia dito que iria para a luta lendo um verso de Rimbaud: “par delicatesse j'ai perdu ma vie”.  Sarney deixou mesmo a delicadeza de lado, empunhou armas e ganhou. E Lemos fez uma piada que repetia sempre: “Tereza Cruvinel foi para o JB só para escrever uma matéria que começava em francês.” Sempre fui alvo de suas piadas. Lemos era de uma acidez bem humorada que a ninguém perdoava, mas nunca ofendia. Punha apelidos pérfidos que só usávamos longe do amigo ou da amiga.

Depois ele deixou a sucursal e muita saudade em Brasília. Foi dirigir a Agência Globo. Alguns anos depois deixou as Organizações Globo, assessorou a CBF e fez outros trabalhos. A idade chegava mas ele continuava lúcido como sempre, enxergando o mundo com suas lentes críticas.

Quando assumi a tarefa de implantar a  EBC, em 2007, eu e Arnaldo César, presidente da ACERP, organização parceira no Rio, convidamos o Lemos para fazer um boletim crítico da programação jornalística da TV Brasil. A TV pública que estávamos implantando precisava de um espelho crítico, do toque construtivo de quem sabia tanto sobre o dever do jornalismo. Infelizmente, depois que eu e Arnaldo deixamos nossos cargos ele foi dispensado. Creio ter sido este seu último emprego. Já com mais de 80 anos, ele nos ajudou imensamente nesta fase: sugerindo, criticando, apontando isso ou aquilo,  estimulando. Como sempre, compartilhando sua experiência.

Eu estava no Rio neste final de semana e havia prometido a ele, em agosto, quando liguei pelo aniversário, que o visitaria em breve. Mas saí do Rio correndo porque uma tia morreu em Brasília. Não o visitei.  Depois do sepultamento fiquei sabendo da morte dele. Amanhã tentarei pegar um avião bem cedo para voltar ao Rio, dar-lhe um adeus,  agradecer por tudo que lhe devo e abraçar seus filhos e filhas de que ele se orgulhava tanto.

As muitas homenagens que Carlos Lemos Leite da Luz recebe quando deixa a vida são uma homenagem ao bom jornalismo que ele fez e ensinou a fazer.  

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