Carta aberta ao presidente Bolsonaro

"Não há, em todo seu governo, com o perdão da ênfase, um quadro comparável a Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Palmares", ironiza o jornalista Eric Nepomuceno em carta a Jair Bolsonaro. "A maneira brilhante como ele nega o racismo no Brasil é exemplar de amostra de seu altíssimo nível de pensamento. Aí está um intelectual perfeito"

(Foto: Isac Nóbrega/PR | Reprodução)

Por Eric Nepomuceno, para o Jornalistas pela Democracia 

Excelentíssimo senhor

Jair Messias Bolsonaro

Presidente da República Federativa do Brasil

Prezado senhor:

Tomo a liberdade de comparecer diante de Vossa Excelência por escrito, numa hora de extrema tensão nacional, para tratar de um assunto que requer urgência. 

Antes de tudo, me apresento: sou escritor, tradutor e jornalista. Apoiei veementemente, de todas as formas possíveis, a Revolução Sandinista na Nicarágua, pondo até mesmo minha segurança pessoal em risco. Com idêntica ênfase apoio a Revolução Cubana. Mantive, embora discreta, relação pessoal com Fidel Castro. 

Fui amigo, ao longo de quase 30 anos, de Leonel Brizola. E tive estreita relação com Darcy Ribeiro, a quem chamava, brincando, de meu vice pai (o próprio, aliás, trabalhou com ele na criação da Universidade de Brasília, notável antro esquerdista na época, todos defenestrados pela gloriosa Revolução de 31 de Março). 

Tive em Eduardo Galeano meu irmão mais velho, e até o fim fui muito amigo de Gabriel García Márquez, Antonio Callado e Jorge Amado. 

Durante meus anos de exílio na Espanha, mantive contato mais ou menos estreito com figuras históricas do Partido Comunista daquele país, como Santiago Carrillo e Simón Sánchez Montero. E também com o comunista disfarçado de socialista Felipe González.

Ah, quase me esqueço: votei três vezes no Lula e duas na Dilma. Com o Lula, mantenho uma amizade distante porém sincera. E com o Fernando Haddad, tenho uma relação extremamente cordial.

Sou, pois, sem dúvida alguma, um homem de esquerda. Comunista, não, mas, sem dúvida, de esquerda. 

Em todo caso, se o esplêndido e insuperável intelectual Olavo de Carvalho resolver me chamar de comunista de merda, prometo não me indignar e nem pensar em responder como deveria.

Conto tudo isso para chegar enfim ao assunto que me traz à presença de Vossa Excelência: não há, em todo seu governo, com o perdão da ênfase, um quadro comparável a Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Palmares.

Sua lucidez luminosa ilumina meus dias. A maneira brilhante como ele nega o racismo no Brasil, a revelação óbvia de que para os descendentes de escravos foi muito melhor estar aqui do que na África, tudo isso é exemplar de amostra de seu altíssimo nível de pensamento. Aí está um intelectual perfeito. 

Aliás, a maneira contundente com que esse luminar criticou durissimamente esse confinamento cruel a que nos submetem comunistas como João Dória e Wilson Witzel alegrou minha pobre alma.

Não consultei ninguém, é verdade, mas posso assegurar a Vossa Excelência que este meu sentimento é compartilhado por pessoas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Martinho da Vila, Patrícia Pillar, Fernando Morais, Gilberto Gil, Marieta Severo, Miguel Faria, meu filho Felipe Nepomuceno, enfim, todos de esquerda embora não propriamente comunistas, e que creio com firmeza que coincidem comigo: não há, em todo seu governo, pessoa de maior altitude moral que o presidente da Fundação Palmares. 

Essa verdadeira joia de decência merece toda a nossa admiração, e a de muitos mais, todos de esquerda, que me poupo de mencionar aqui.

Meu apelo pessoal a Vossa Excelência é manter esse quadro fulgurante, e que melhor que ninguém representa seu governo, no posto que ocupa com eficiência ímpar.

Para nós, de esquerda, ele é, com o perdão da usurpação do termo, um verdadeiro mito.

Muito respeitosamente, e à vossa inteira disposição para outros assuntos, me despeço com admiração extrema

Eric Nepomuceno

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